Elizabeth Bishop (Vassar College LIibrary Archives)| Foto:

Ezra Pound, Jean Genet, Henry Miller, Jean-Jacques Rousseau, Marquês de Sade, Arthur Rimbaud, Jorge Amado, Louis-Ferdinand Céline, Jean-Paul Sartre, Monteiro Lobato, Martin Heidegger, Bertold Brecht, Henry Louis Mencken, Michel Foucault e tantos outros escritores, filósofos e cientistas, brasileiros e estrangeiros, têm algo em comum: nalgum momento cometeram, defenderam, justificaram, enalteceram ou fizeram ouvidos de mercador a crimes, genocídios, totalitarismos, preconceitos, censura.

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Suprimido o contexto, o Index Librorum Prohibitorum da igrejinha literária seria interminável, e nos sobraria para ler pouco mais que O Pequeno Príncipe e a cartilha Caminho Suave. A moral da história é tão óbvia quanto parece: excelência artística e fecundidade intelectual não equivalem a sabedoria política e ceticismo ideológico. Muitos santos foram escritores, mas pouquíssimos escritores foram santos.

Isso me veio à mente quando eu soube que a escolha de Elizabeth Bishop, homenageada na Flip deste ano, “causou indignação entre escritores”. Oh, coitadinhos, sempre indignados entre uma feira e outra. Eles passam mais tempo ficando indignados que escrevendo coisa que preste. Cuidado para não pegar friagem ideológica, escritores. Cubram bem a cabeça.

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Bastou o anúncio para que os coroinhas do neopuritanismo militante – neste caso, à esquerda da hipocrisia – denunciassem os pecados da americana radicada no Brasil: era estrangeira, falou mal do país, apoiou o golpe militar de 64. Não merece ser lida. Não pode ser lida. Bishop foi excomungada e quem não gostar que vá reclamar com o Papa.

É curioso notar o quanto são maus os bons sentimentos da patrulha. Que problema há em fazer, ter feito, críticas ao país? Eu faço. O leitor faz. Esse ufanismo é típico de reacionários, e o Brasil, feitas as contas, merece ser tratado com as costas da mão. Além disso, nascimentos são acidentes. Ser brasileiro ou morar no Brasil não é mérito nem demérito: vale tanto quanto ser suíço, libanês ou morar na Argentina.

Quanto às opiniões propriamente ditas, nunca me canso de lembrar e citar Fernando Gabeira, figura das mais honestas e inteligentes. Ele, que de covarde não tem nada, afirma que grande parte daqueles que lutavam contra a ditadura de direita queriam uma ditadura de esquerda. Portanto, se não é motivo de orgulho defender o golpe de 64, tampouco é coisa que se apresente à mãe a defesa do stalinismo e suas variantes. Mais de um escritor brasileiro reprovaria no vestibular da pureza cívica.

Last but not least, a politização da arte e do julgamento estético corresponde ao mesmo espírito fascista que se pretende denunciar. Submeter a poesia de Elizabeth Bishop a determinada conveniência ideológica, ou negar a ela, retroativamente, o benefício da dúvida, uma estrangeira que tentava compreender os balanços institucionais dum país incompreendido pelos próprios nativos, isso também é um tipo de golpe. Contra a política e, sobretudo, contra a literatura.