O entremez A saloia enamorada ou O remédio é casar, composto pelo português Antonio Leal Moreira sobre libreto do carioca Domingos Caldas Barbosa e a ópera O basculho da chaminé, de Marcos Portugal foram as grandes atrações da programação de concertos de novembro em Curitiba.

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O entremez foi executado em primeira audição moderna, depois de mais de 200 anos desaparecido. A partitura foi encontrada por Ricardo Bernardes na Biblioteca do Congresso em Washington, por acaso, em meio a outras pesquisas. Acabou se tornando o tema de seu doutorado na Universidade do Texas em Austin.

Ricardo Bernardes é de Curitiba, e aqui começou seus estudos e sua carreira profissional. Pela virada do milênio mudou-se para São Paulo, onde continuou as atividades de pesquisa e recriação da música ibero-americana dos séculos XVIII e XIX. A primeira grande atividade de Bernardes como regente foi o conjunto AmericAntiga, criado junto com alunos de canto e de instrumento na Escola de Música e Belas Artes do Paraná (EMBAP). Ali nesta instituição Bernardes obteve a Licenciatura em Música, e tomou contato com a musicologia do período colonial pela mãos dos professores Harry Crowl (seu principal mentor) e Maurício Dottori.

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Bernardes continuou o trabalho do AmericAntiga com outras formações em São Paulo. Na capital bandeirante fez o seu mestrado, trabalhando com a obra de transição estilística de José Maurício Nunes Garcia no período da chegada da corte ao Rio de Janeiro.

De São Paulo o regente mudou-se para o Texas, onde cursou o primeiro doutorado, e hoje reside em Lisboa, onde está cursando o segundo, desta feita na Universidade Nova de Lisboa.

Foi em Lisboa que Ricardo Bernardes promoveu a estreia moderna de O basculho da chaminé, uma das principais obras deste compositor que foi um dos maiores operistas da virada de setecentos para oitocentos. Esquecido por motivos nada musicais: Portugal simpesmente não era alemão, francês ou italiano – motivo suficiente para que sua música seja legada a um ostracismo independente de qualquer qualidade intrínseca. Pesou mais ainda o fato de o compositor ter vindo para o Rio de Janeiro logo depois da trasladação da corte lisboeta, tendo vivido até o fim nos trópicos.

O anti-lusitanismo praticado após a Independência, e jamais abandonado no Brasil nem nos séculos seguintes, terminou o serviço, relegando o maior compositor que residiu nas Américas na primeira metade do XIX a um injusto limbo. Menos mal que hoje a musicologia vem se estabelecendo como disciplina respeitável em Portugal, e o preferido da corte dos Bragança pode agora encontrar novamente um justo lugar no repertório, devido aos projetos em equipe que vêm sendo dedicados à pesquisa musicológica de sua obra.

As duas obras mostraram que mereciam o resgate. A saloia é uma peça curta, de cerca de meia hora, com quatro personagens e um enredo divertidíssimo. Se me obrigassem a escolher um destaque, ficaria com o fantástico dueto entre Rosália e Alina. Esta última uma camponesa (saloia) vendedora de azeitonas, que é noive do irmão da sua rival. Outra grata surpresa foi ver no papel da camponesa a soprano Márcia Kaiser, que mostrou que mantém em dia a técnica aprendida de Neyde Thomas, com destaque para a afinação precisa e a leveza nos agudos.

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Sobretudo, o texto de Caldas Barbosa é muito divertido, e faz a gente entender porque os entremezes atraíam tanto interesse do público em geral e especialmente da corte. Muito interessante conhecer outra faceta deste músico que já é reconhecido no Brasil por ser o artífice de modinhas que podem ser consideradas o primeiro gênero de canção ligeira com alguma identidade afro-brasileira. (Carlos Sandroni, em Feitiço decente, aponta as modinhas de Caldas Barbosa como precursoras da rítmica do samba.)

O basculho da chaminé é outra obra que mostra que tem qualidade para se sustentar no repertório, não devendo nada a outras peças do mesmo período. O enredo trata de um limpador de chaminés (basculho) que veste as roupas de um nobre só para experimentar, e termina numa grande confusão tendo que se passar por ele.

Além do merecido retorno ao repertório das óperas há muito esquecidas, o concerto marcou outro retorno: do maestro Ricardo Bernardes à sua cidade. Mais de 10 anos depois de ter se mudado, que me consta é a primeira vez que ele vem reger em sua cidade, sendo já um regente de atuação reconhecida internacionalmente.

Não tem jeito – continua valendo o ditado de que “santo de casa não faz milagre”, e parece que Curitiba é sempre a última a reconhecer o talento de seus filhos ilustres. Antes tarde do que nunca. O retorno de Ricardo Bernardes foi triunfal! Técnica segura de regência mas, principalmente, grande capacidade como ensaiador. A pequena orquestra montada para o evento (2 violinos, viola, violoncelo, contrabaixo, flauta, 2 trompas e o próprio regente ao cravo nos recitativos) funcionou brilhantemente. Os cantores convidados para os papéis se mostraram à altura do desafio. E Bernardes conseguiu transmitir aos músicos o espírito de obras que estavam perdidas nos tempos.

A brilhante apresentação só nos faz perguntar: porque Curitiba não tem uma companhia de ópera com atividades regulares? Porque demoramos tanto tempo para ver Ricardo Bernardes regendo de novo em nossa cidade?

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Curioso que o maestro não veio exatamente como convidado. As óperas foram apresentadas como projeto em um edital do Fundo Municipal de Cultura. Projeto costurado entre Ricardo Bernardes e Alvaro Collaço, um produtor que tem deixado sua marca nos eventos mais instigantes da vida musical recente da cidade.

Quem sabe fique a dica para outras programações e Ricardo Bernardes volte mais vezes, como convidado. Seria o mínimo que o meio musical de Curitiba poderia fazer – aproveitar seus talentos que estão na diáspora para enriquecer a vida musical da cidade. Já que nossa programação permanente muitas vezes não é suficiente para manter aqui os nossos melhores talentos…

P.S. Veja também a ótima matéria feita por Helena Carnieri para a Gazeta da última quinta-feira.