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A ideia não é defendida apenas por “eco-chatos” ou “fanáticos xiitas talibikers”. No artigo Os Dividendos da Bicicleta, publicado recentemente no jornal The New York Times, a professora de economia da Universidade de Massachusetts Nancy Folbre defende o foco na bicicleta como ferramenta macroeconômica para ajudar os Estados Unidos a vencer a crise econômica.

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Em seu artigo, Nancy cita os exemplos das principais cidades norte-americanas e conclui que há uma lógica econômica por trás dos recentes esforços das cidades em promover o uso desse meio de transporte: “Carros desfrutam de enormes subsídios diretos na forma de construção de estradas e espaços de estacionamento público, bem como subsídios indiretos à indústria do petróleo que fornece combustível. Esses subsídios excedem em muito a receita fiscal gerada pelo uso do carro. No entanto, carros impõem grandes custos sociais: sua utilização contribui para o aquecimento global, congestionamentos, acidentes fatais e estilos de vida sedentários”, escreve. “Já o uso da bicicleta é bom tanto para as pessoas quanto para o planeta”, compara.

Anualmente, a bicicleta ajuda a maior economia do planeta a economizar US$ 4,6 bilhões, de acordo com estudo do Transportation Research Board. Um jeito mais fácil de entender parte dessa cifra astronômica: uma bicicleta requer cerca de US$ 300 dólares anuais em gastos de manutenção, um carro exige cerca de US$ 7 mil anualmente.

De acordo com o levantamento, se cada motorista norte-americano adotar a bicicleta como meio de transporte apenas uma vez por semana, o potencial de economia chega a US$ 7 bilhões, dinheiro que pode circular no mercadinho da esquina, no consumo de produtos da agricultura familiar, em cuidados pessoais ou em ingressos para parques e cinemas.

A economista lembra que a aumento do uso das bikes é prático e viável, especialmente se ele puder ser combinado com um transporte público de qualidade para as necessidades de longa distância. Ela cita um estudo de John Pucher – apelidado de “Professor Bicicleta” –, da Rutgers University, que mostra que 40% de todos os deslocamentos de carro nas áreas metropolitanas estão a menos de 3,2 quilômetros, distância facilmente “pedalável”.

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Bicicleta gerando empregos

A economista também cita outro estudo de Heidi Garrett-Peltier, do Instituto de Pesquisas Políticas e Econômicas da Universidade de Massachusetts, que analisou a fundo 58 projetos de implantação de ciclovias em 11 cidades americanas para medir o impacto na geração de empregos. A conclusão é de que investir em ciclovias gera 46% mais empregos por dólar investido que a construção de ruas exclusivas para automóveis.

De acordo com o estudo Pedestrian and Bicycle Infrastructure: A National Study of Employment Impacts [Infraestrutura para Pedestres e Bicicletas: Um Estudo Nacional de Impacto nos Empregos] os projetos “apenas para carros” geraram 7,8 empregos por milhão de dólar aplicado, enquanto as ciclovias geraram 11,4 empregos por US$/milhão. Em alguns casos, como em Baltimore, no estado de Maryland, esse índice chegou a 14,35 empregos por milhão de dólar aplicado.

Construa, e eles virão

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Nancy conclui que o aumento nos investimentos em ciclovias se reflete no aumento da segurança no trânsito para todos. “As vias exclusivas para bicicletas atraem um número cada vez maior de ciclistas e a chance de acidentes entre carros e bicicletas decresce, promovendo sua utilização. Segurança parece ser um fator importante para as mulheres em particular”, avalia.

“Em um país afligido por obesidade e inatividade, as pessoas que se movimentam se tornam mais saudáveis. Pedalar uma bicicleta para ir ao trabalho é muito mais barato que entrar em uma academia. Além disso, reduzir o consumo de combustíveis melhora a qualidade do ar, reduz a dependência do petróleo importado e economiza dinheiro”, completa.

Ciclo virtuoso

Estudo da London School of Economics revela que, ao pedalar, os britânicos ajudam a movimentar 3 bilhões de libras esterlinas (cerca de R$ 9,4 bilhões) ao ano na economia do país. Para efeito de comparação, o volume é quase 70% maior que todo o orçamento de Curitiba previsto para 2013 e equivale ao Produto Interno Bruto (PIB) de São José dos Pinhais, a terceira maior economia do Paraná.

O estudo considera não apenas a fabricação e venda de peças e equipamentos, mas toda a cadeia de serviços agregados, investimentos em ciclovias e até economia dos hospitais públicos, que deixam de gastar 760 milhões de libras (R$ 2,38 bilhões) ao ano no tratamento de problemas ligados ao sedentarismo.

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Infelizmente, não há estatísticas específicas sobre a influência da bicicleta no PIB brasileiro. A Abraciclo, entidade que representa os fabricantes do setor, informou no Fórum Mundial da Bicicleta, em fevereiro deste ano, que essa cadeia gera 117,5 mil empregos no Brasil — varejo (60%) e fabricação de peças (12%) respondem pelas maiores fatias.

Apenas para efeito de comparação, as montadoras – queridinhas do governo federal — geram cerca de 145 mil empregos diretos na produção de acordo com dados da Associação Nacional de Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) referentes a maio de 2012. O número é apenas 23,4% maior que a cadeia produtiva da bicicleta.

Além do efeito positivo sobre a saúde de quem pedala, a bicicleta também ajuda a saúde financeira das empresas britânicas. Trabalhadores que usam a bicicleta faltam ao trabalho, em média, um dia a menos que os demais – com isso, as empresas economizam 128 milhões de libras ao ano (cerca de R$ 400 milhões).

Vidas

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O Centro de Pesquisa em Epidemiologia Ambiental (Creal), de Barcelona, divulgou um estudo que comprova que a implantação de um sistema público de bicicletas ajudou a reduzir em 24% as mortes na capital catalã, considerando-se todo o impacto positivo, sobre a saúde e o trânsito, das políticas de incentivo ao uso das bikes. O meio ambiente também saiu ganhando, evitando que 9 toneladas de dióxido de carbono (CO²) fossem parar na atmosfera.

No seu bolso

O portal financeiro InfoMoney publicou que substituir o transporte público por bicicleta gera uma economia de mais de R$ 600 desde o início do ano. No acumulado entre janeiro e maio foram 106 dias úteis. Um paulistano que tenha optado pela bike ao invés de duas viagens de ônibus e metrô por dia teve uma economia de R$ 985,90, cerca de 1,5 salário mínimo.

Já o curitibano que trocou o ônibus pela bicicleta economizou R$ 600 do início do ano até o dia 8 de junho. Até o fim do ano, a economia chegará a R$ 1.357,20 – mais de dois salários mínimos de “Participação de Lucros e Resultados” (PLR) para quem pedala. Se aplicado mensalmente na poupança, em 5 anos o valor supera R$ 8 mil.

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