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Se tivesse ouvido os sábios conselhos da querida avó, o motorista de caminhão Evandro Bosa, de 25 anos, não teria acelerado o veículo para tentar aproveitar o sinal amarelo em um cruzamento da Linha Verde, em Curitiba, só para economizar alguns segundos do seu dia.

Alexander tinha 14 anos. Estava indo para a escola de bicicleta quando foi atingido pelo veículo dirigido por Bosa em um cruzamento, enquanto atravessava a faixa. O ciclista não resistiu e morreu na hora.

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Ao que se sabe até agora, o motorista não é nenhum facínora assassino que acordou com sede de sangue. “Eu sei que não vai adiantar nada, não vai trazer ele de volta, mas eu peço desculpa para a família”, disse o motorista à Rádio Banda B logo após o acidente.

Bosa só fez o que “todo motorista faz”; teve apenas o “azar” de ter um ciclista aparecendo na sua frente, naquele exato momento. “Não dá nada”. Nunca dá, como quando alguém dirige falando ao celular, vira sem dar seta, não respeita a faixa de pedestre ou pega no volante após um ou duas cervejinhas. Não fosse o ciclista, não haveria tragédia e a estripulia motorizada de avançar o sinal não daria em nada.

O grande erro do motorista foi apenas o de não ter dado atenção aos conselhos da avó. A vovó sempre diz coisas importantes, como “dirija com atenção”, “respeite a sinalização de trânsito”, e “se beber, não dirija”. Mas Bosa não lhe deu ouvidos. Na verdade, ninguém dá mesmo, e por isso o trânsito brasileiro mata tanta gente. O governo calcula 40 mil vidas perdidas por ano. Especialistas dizem que o número pode mais que o dobro, já que os feridos em acidentes que morrem em um hospital não entram para essas estatísticas.

Muita coisa mudou em Curitiba nos últimos tempos. A cidade tem agora um plano para a bicicleta. Tem um plano de mobilidade e vai ganhar até um metrô! Tem também planos de contratar novos agentes para fiscalizar o trânsito. Tem planos de que campanhas de educação e conscientização consigam tornar o trânsito menos violento. E tem também pessoas competentes instaladas em órgãos dedicadas especialmente a planejar o trânsito e a ciclomobilidade.

Mas uma coisa ainda não mudou: enquanto a administração pública faz planos em uma velocidade paquidérmica, motoristas aproveitam o sinal amarelo acelerando muito acima do limite permitido. Como não há quem fiscalize e multe, a vantagem de ganhar alguns segundos é mais compensadora que a de parar no semáforo só para não cometer uma infração. Vez ou outra, dá-se o azar de encontrar um ciclista ou pedestre desavisado pelo caminho. As vítimas viram notícias e estatísticas, mas o resto do mundo continua rodando.

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A culpa pela morte não é só do motorista que pisou no acelerador. O mandante do crime é aquele que tem o poder de fazer algo para mudar essa realidade mas, ao invés disso, faz apenas planos. No cálculo político, cada motorista multado é um eleitor contrariado. Por isso, é muito mais cômodo acreditar que é possível pacificar as ruas da cidade postando frases de efeito nas redes sociais do que aumentando a fiscalização e as punições às infrações cometidas ao volante. Para não ser apontada como acionista da Indústria da Multa, a prefeitura se omite e acaba incentivando a Indústria da Morte.

No discurso oficial, a desculpa é que falta dinheiro e pessoal. Jamais vão assumir que falta coragem e pulso firme da administração pública em enfrentar o problema da violência no trânsito da forma como tem de ser enfrentado. A morte de Alexander será justificada como apenas mais um acidente.

Certamente, na contramão do que muitos vêm ajudando a construir de forma coletiva, haverá um refluxo no número de ciclistas nas ruas. Muitas bicicletas compradas nos últimos meses na onda irrefreável da mobilidade urbana sustentável vão ganhar espaço cativo nas lavanderias de casas e apartamentos após a notícia de mais uma morte nas ruas. “Andar de bicicleta em Curitiba é perigoso”, muitos dirão – e com razão.

E assim, o simples ato de andar de bicicleta – um direito inalienável que deveria ser garantido a qualquer  cidadão – vai se tornando um desafio cada vez mais difícil. Quando um ciclista morre, a cidade fica menos humana.