O presidente russo, Vladimir Putin, durante evento na cidade de Veliky Novgorord, em 21 de setembro de 2022.| Foto: EFE/EPA/Ilya Pitalev/Sputnik/Kremlin pool
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Sempre levei a sério a loucura dos outros. É meu fado. Quando todos se riem, dizendo “ele é maluco”, eu penso: “Pode até ser, mas um maluco deve ser escutado”. A esse respeito, não sofro de preconceito iluminista, ou seja, a crença de que todo mundo, dotado da mesma informação, acabará necessariamente por chegar à mesma conclusão racional. É possível seguir todo esse percurso e, no fim, optar pela solução irracional.

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Entendi bem esse preconceito nas décadas de terrorismo islamita. Rebentavam bombas nas cidades da Europa e as elites pensantes tentavam encontrar razões para o terror que suplantassem as razões que os próprios malucos ofereciam. Eles falavam em “infiéis” e “jihad”. Mas as elites recusavam-se a acreditar em tal coisa. “Infiéis”? “Jihad”? Não estamos na Idade Média, respondiam. A culpa só podia ser da pobreza. De Israel. Do neoliberalismo selvagem. Do aquecimento global. Do Diabo.

Essa recusa do literalismo sempre me fascinou: é como ver uma criança tapando os ouvidos e falando por cima das palavras de um adulto quando não gosta da conversa. Infelizmente, quando o assunto são armas nucleares, confesso que a criança me diverte menos.

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Ninguém compra paz verdadeira cedendo à chantagem de um delinquente

Na semana passada, Vladimir Putin fez uma declaração na tevê para anunciar três coisas: apoia os plebiscitos nas regiões separatistas da Ucrânia; mobiliza parcialmente os reservistas para combater os avanços ucranianos no terreno; e o uso de armas nucleares para proteger a integridade territorial da Rússia não é “bluff”.

Sobre a primeira declaração, nada de novo: Putin aprendeu com os piores. Será preciso lembrar que Hitler, apesar da força bruta, também precisou de plebiscitos fantasiosos para “legitimar” o seu domínio da Áustria e dos Sudetos? Putin segue o mesmo manual: integrar os territórios na Federação Russa servirá para justificar uma mobilização mais vasta de tropas para a Ucrânia. Defender a pátria, pelo menos para ele, será defender Donetsk e Luhansk.

E, quando o assunto é defender a pátria, o uso de armas nucleares corresponde à doutrina militar do Kremlin. Se Putin não hesitaria em usar a bomba para defender São Petersburgo, será concebível que hesite para defender Kherson ou Zaporizhzhia? Confrontados com esta pergunta, muitos especialistas preferiram desconversar. Como habitualmente. Putin mostrava a sua fraqueza; Putin despertou a fúria da sociedade civil russa que está contra a mobilização; Putin pode sofrer um golpe de Estado; Putin quer apenas assustar o Ocidente; Putin não quer alienar o apoio da China e da Índia; Putin é doido e deve ser internado.

Sem recusar nenhuma dessas explicações, convém notar que elas são perfeitamente compatíveis com a intenção de usar armas nucleares na Ucrânia. É essa intenção, e não os desejos que projetamos em Putin, que deve ser levada a sério. No fundo, e como escreve Ross Douthat no New York Times, Putin parece confrontar-se (e confrontar-nos) com um dilema derradeiro: ou vence a guerra, ou todos vão perder. Porém, e ao contrário do que sugere Douthat, não creio que a resposta seja aceitar as condições que Putin joga sobre a mesa. Será que o colunista acredita mesmo que ceder à chantagem de um delinquente é a melhor forma de comprar uma paz verdadeira?

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O exemplo da Segunda Guerra Mundial é ilustrativo: Hitler não se contentou com a Renânia, nem com a Áustria, nem com a Tchecoslováquia. E foi interpretando os sucessivos recuos dos “apaziguadores” como um convite para avançar sempre mais e mais. Hoje, é a Ucrânia. Amanhã, serão todas as ex-repúblicas soviéticas que cometeram a traição suprema de se afastarem de Moscou.

Por paradoxal que pareça, derrotar Putin na Ucrânia ainda é o mal menor. Desde que esse mal seja acompanhado de um aviso sério, credível e emitido pelos canais devidos de que o uso de armas nucleares pela Rússia não poupará a própria Rússia. Até agora, a administração Biden tem seguido esse caminho, prometendo uma resposta “proporcional” e “decisiva”. É o mínimo. Porque, mesmo que os malucos não escutem e estejam dispostos ao mais irracional dos atos, há enfermeiros em Moscou, Pequim ou até Nova Delhi que podem ter a audição mais afinada.

Fazer bons negócios com um maluco é uma coisa. Sacrificar tudo por ele já me parece um excesso de romantismo.

Infográficos Gazeta do Povo[Clique para ampliar]