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Alemães usam máscaras para se proteger contra o coronavírus| Foto: Tobias Schwarz /AFP

Aqui estou eu, fechado em casa, olhando pela janela as ruas desertas da cidade. Tempos de peste. E então concluo que o meu estilo de vida, desde os 19 anos, afinal tem um nome técnico: “quarentena”. Melhor ainda: os meus hábitos, que sempre foram objeto de crítica, têm validade científica comprovada. “Distância social.” “Isolamento profilático.” Antes de existir a Covid-19, já existia o Coutinho aos 19.

Sem falar do resto. Na pandemia corrente, lavar as mãos é obrigatório. Não de forma displicente ou apressada, mas rigorosa e demorada. Onde estão os meus psiquiatras? Sim, onde estão aqueles que tentaram curar as minhas fobias e obsessões? O que eles entendiam como doença é, no fim das contas, um mecanismo altamente sofisticado para viver no mundo pós-apocalítico.

E chegamos à caverna. Ou, como agora se diz, aos desafios de ficar em casa. Uma das notícias mais relevantes do novo coronavírus é a quantidade de divórcios que a China registrou assim que os isolados começaram a deixar o lar. Millôr Fernandes era um sábio: sabemos que a lua de mel foi um sucesso quando o casal regressa e ainda se fala.

Chegamos à caverna. Ou, como agora se diz, aos desafios de ficar em casa

Também aqui levo vantagem. Pouco falo. E quando a minha mulher, condenada a ficar comigo em casa, me perguntou se eu falaria muito, tranquilizei-a. “Serei sempre o teu velho e fiel misantropo, meu amor.” Ela sorriu, aliviada e grata.

Mas o novo coronavírus não oferece apenas lições pessoais. As políticas são mais importantes. Agora, com tempo livre, vou olhando para revistas e jornais que, na virada do ano, fizeram previsões para 2020. Cinco temas ocupavam as primeiras páginas. A reeleição possível de Trump. O abrandamento econômico europeu. A emergência climática. A supremacia incontestada da China. O terrorismo nas ruas da Europa. Sem surpresas, ninguém antecipava, nem sequer imaginava, essa coisa bárbara, medieval, literalmente ínfima que dá pelo nome de “vírus”.

E, no entanto, é um vírus que destroça as certezas dos especialistas com uma violência cósmica. E cômica, já agora. Terrorismo? Deixou de ser o grande fantasma a partir do momento em que os próprios terroristas são aconselhados a evitar a pestilenta Europa. O Daesh, acrônimo árabe do Estado Islâmico, na sua newsletter, recomenda às tropas que confiem em Alá. Mas acrescenta, com invulgar ceticismo teológico, que também é importante lavar as mãos e tapar a boca quando se tosse ou espirra. Uma pessoa sabe que o caso é sério quando até o Daesh se esquece dos infiéis e se torna mais fiel à “etiqueta respiratória”. As 72 virgens, pelo visto, podem esperar.

E a emergência climática? Tenho pensado em Greta Thunberg. Foram dias e dias a faltar à escola com a ambição louvável de despertar a humanidade para uma casa em chamas. Mas foi o vírus, e não a Greta, que baixou drasticamente a poluição no planeta. Greta desejava acabar com as viagens de avião. O vírus, mais ambicioso, levará à falência várias companhias. Volta para a escola, Greta, você ainda tem muito que aprender.

De resto, falar de abrandamento econômico na Europa soa hoje a otimismo. Sobretudo quando se espera um abalo comparável à crise financeira de 2008, ou até pior. Disse “abalo econômico”, mas é preciso acrescentar o político: na hora do aperto, as populações exigem fronteiras seguras e menos dependência econômica de países não confiáveis. A China, fábrica do mundo, é o primeiro deles. Basta lembrar a forma mendaz e autoritária como Pequim tentou esconder o surto na fase inicial, punindo os médicos de Wuhan. Quem quer um parceiro desses?

Greta desejava acabar com as viagens de avião. O vírus, mais ambicioso, levará à falência várias companhias

Fronteiras, nacionalismo econômico: a doutrina Trump pode ser, a prazo, a doutrina do Ocidente. Mas, ironicamente, o seu criador pode já não estar na Casa Branca para o saborear. Durante quatro anos, o Donald sobreviveu a tudo. Até ao impeachment. De tal forma que, apenas duas semanas atrás, a sua reeleição era quase uma formalidade. Mas eis que chegou um emigrante microscópico que, sem respeitar muros, ameaça derrotar o homem mais poderoso do mundo. Um homem que, fiel à sua estupidez, menosprezou o único adversário que não poderia menosprezar. Como nas tragédias gregas, caráter é destino.

E aqui estou eu, fechado em casa, olhando pela janela as ruas desertas da cidade. “Os seres humanos são a maior peste da Terra”, afirmava há tempos o naturalista britânico David Attenborough. Pobre Sir David. Na ânsia de nos tornar maiores do que somos, como foi que ele se esqueceu de perguntar primeiro à própria peste se ela concordava?

Conteúdo editado por:Marcio Antonio Campos
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