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Se você não sabe o que é o metaverso, esqueça Zuckerberg. Leia Fernando Pessoa.
Se você não sabe o que é o metaverso, esqueça Zuckerberg. Leia Fernando Pessoa.| Foto: Pexels, Michelangelo Buonarroti/Reprodução

Mark Zuckerberg mudou o nome da empresa. Não é mais Facebook. É Meta, por homenagem ao "metaverso", novo interesse do jovem Mark. Se você não sabe o que é o metaverso, esqueça Zuckerberg. Leia Fernando Pessoa. Enquanto o poeta português circulava pelas ruas de Lisboa, seus heterônimos existiam num universo paralelo, com suas biografias, sensibilidades e preocupações. Pois é, Mark, meu compatriota chegou lá primeiro. E sem precisar de bilhões de dólares.

Mas se Zuckerberg quer criar mundos alternativos, os problemas deste mundo continuam intactos. Falo dos problemas que as redes sociais criam –manipulação de dados para fins comerciais ou políticos, difamação impune, desinformação etc.– e que ninguém sabe exatamente como resolver.

Vamos imaginar o seguinte: Jair Bolsonaro, em uma de suas lives, anuncia ao país que descobriu a cura para a impotência sexual. O segredo, segundo Bolsonaro, que pinçou essa informação nos mais rigorosos estudos da internet, é transplantar testículos de bode para quem sofre desse mal.

Pergunto: será que a Justiça deveria atuar para calar a boca de Bolsonaro e impedir a castração em massa de brasileiros deprimidos com a vida na alcova? Antes de responder a essa questão insana, começo por dizer que ela não é insana. Nicholas Carr, em artigo recente para a New Atlantis, relata o episódio: em 1923, o médico John Brinkley usou a sua estação de rádio, no Kansas, para divulgar essa milagrosa cura.

Não sabemos quantos americanos agiram em conformidade. Apenas que o Estado interveio e acabou com a festa: estava em causa a saúde pública (e, se me permite, a integridade física dos bodes). O ponto de Nicholas Carr é importante e raramente lembrado nos debates sobre a internet: existe uma diferença entre comunicação privada e "broadcasting".

Ao longo da história humana, as cartas e os telegramas apenas nos confrontaram com o primeiro modelo. E o consenso, pelo menos na idade moderna e em Estados democráticos, era que essa comunicação "one-to-one" era inviolável. Só ditaduras espiam a correspondência privada dos cidadãos. O aparecimento da rádio mudou as regras do jogo e um acontecimento histórico particular mostrou a urgência de legislar sobre a selva: o desastre do Titanic.

Quando o navio afundava nas águas gélidas do Atlântico norte, rádios amadoras começaram a difundir notícias falsas que atrapalharam as missões de resgate. Algumas dessas notícias informavam que estava tudo bem e que os passageiros se encontravam a salvo.

Não era mais possível tratar a comunicação "one-to-many" como se fosse uma mera conversa interpessoal. O interesse público exigia regulação –e o aparecimento da TV, anos mais tarde, apenas reforçou essa urgência. Concordo com Nicholas Carr. Conversas privadas são conversas privadas –e a primeira exigência às plataformas seria para que tratassem dessas conversas da mesma forma que os correios ou as empresas de telefone tratam das comunicações entre os clientes.

Manipular dados dos usuários para fins comerciais ou políticos é tão intolerável como abrir cartas alheias ou escutar o que as pessoas falam ao celular. Repito: só em ditaduras isso é imaginável. Coisa distinta é a publicação para as massas. Fato: na internet, nem sempre é fácil distinguir mensagens entre amigos e o momento em que essas mensagens se tornam virais.

Mas não é preciso traçar linhas rígidas entre uma coisa e outra. Basta exigir às plataformas que sejam capazes de identificar os seus usuários caso eles tenham de ser responsabilizados judicialmente pelas informações que divulgam. Por que motivo eu, colunista, posso responder em tribunal por abuso da liberdade de imprensa –e um usuário anônimo, que tem o mesmo alcance público no Facebook ou no Twitter, escapa a essa sanção?

Aprender com o passado é repensar, para uma nova era, a diferença crucial entre falar privadamente e falar publicamente. Que o mesmo é dizer: se Jair Bolsonaro quiser promover a genitália caprina apenas entre familiares, está no seu direito. E aposto que muitos brasileiros até apoiam essas cirurgias.

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