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Jocelaine Santos

Jocelaine Santos

Liberdade de expressão é condição necessária para a democracia

Dilema

O que é pior: comer carne de burro ou passar a vida inteira tratado como tal?

(Foto: Imagem criada utilizando Open AI/Gazeta do Povo)

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Eis que virou notícia – já velha, dada a avalanche diária de notas e contranotas – que, na Argentina, as pessoas estariam “comendo carne de burro”. A manchete da maioria dos portais (especialmente daqueles que adoram achar chifre em cabeça de cavalo sempre que precisam falar de países governados pela não esquerda) dava a entender que, diante da falta de dinheiro, os hermanos tinham sido obrigados a apelar a outro tipo de churrasco. Como mostrou a Gazeta do Povo, não era nada disso.

Na terra de Javier Milei, estavam testando a criação de burros na Patagônia – e só lá – como uma alternativa à criação de outros animais. Criações alternativas à carne bovina são comuns em todo o mundo, mas dificilmente dão certo. No Brasil dos anos 80, por exemplo, tentou-se emplacar a cunicultura, ou seja, a criação de coelhos, mas os brasileiros não se empolgaram e o projeto – que tinha incentivo do governo, inclusive – deu com os burros n’água, o que pode ocorrer também com a iniciativa patagônica. Carne de equinos pode ser tradicional na Europa, mas, por aqui, na América do Sul, não tem espaço.

A visão que tradicionalmente se tem dos burros e asnos é a mesma que muitos ministros do poder supremo têm de nós, pobres brasileiros. Ainda que não sejamos quadrúpedes, mas bípedes, somos vistos pelos poderosos de plantão e mandatários supremos como incultos, ignorantes, teimosos

Enfim, não há problema algum em se comer carnes exóticas – há presidentes que adoram uma paquinha, por exemplo. Muito, mas muito pior, é que pessoas sejam tratadas como quadrúpedes, animais irracionais, submetidos ao regime de pasto irregular, chicote no lombo e freio na língua. Nas terras brasileiras, o que alguns chamam de “sistema”, “elite”, “supremo poder” ou “salvadores da democracia” vem tratando a população como se fosse uma grande “burricada”. Duvida?

Não tenho nenhum problema com burrinhos. Considero tais quadrúpedes animais simpaticíssimos. Mas, tradicionalmente, eles são associados à baixa inteligência (algo ofensivo, pois são animais muito inteligentes), geniosos, de temperamento forte. Bons trabalhadores, fortes e resilientes, mas teimosos, é o que se diz. Nem sempre se submetem aos ditames de seus donos, que reclamam, xingam, isso quando não apelam para a violência pura e simples contra os pobres animais.

A visão que tradicionalmente se tem dos burros e asnos é a mesma que muitos ministros do poder supremo têm de nós, pobres brasileiros. Ainda que não sejamos quadrúpedes, mas bípedes, somos vistos pelos poderosos de plantão e mandatários supremos como incultos, ignorantes, teimosos, que insistem em reclamar e tentar fugir do que eles consideram ser o “lado correto da história”. Servimos para trabalhar exaustivamente e gerar impostos, mas, quando reclamamos... dá-lhe chicotada em nome da defesa da democracia, puxão no freio para cortar-nos a língua e impedir que gritemos as injustiças sofridas. Tudo para o nosso bem, dizem.

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Aos olhos dos políticos, ainda temos outra serventia, além das acima ditas: votar de tempos em tempos para perpetuá-los no poder – não estou inventando: há diversas pesquisas mostrando que, desde o início da República, são as mesmas famílias e agregados que se revezam nas cadeiras e cargos do Legislativo e Executivo. São pouquíssimos os nomes dos que são eleitos sem ter algum parentesco ou proximidade com a elite política dos tempos de Deodoro da Fonseca.

Para esses, que dependem de votos, somos talvez ainda mais “burros”: eles têm a certeza de que nos enganam com discursos fáceis, sorrisos falsos e agrados populistas. Obrigam todos a comer capim nos anos que antecedem as eleições, mas prometem picanha caso sejam eleitos. Criam vales-voto, apostando na miséria como estratégia eleitoral, suspendem pedágios, prometem mundos e fundos, distribuem agradinhos, tudo em nome de manterem seu curral eleitoral.

Pregam independência entre os poderes, mas se sujeitam aos ditames do poder supremo. Não se importam em permitir que censores sejam alçados a ministros supremos, mas pregam a liberdade de expressão. Por dentro, eles riem de nós, pobres burros que sustentam, em silêncio, o peso da carroça. Enfim, talvez comer carne de burro não seja um grande problema.

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