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Principal navio da frota russa é atingido
Fontes do Pentágono afirmam que mísseis que atingiram o principal navio da frota russa são de origem ucraniana. Kremlin nega.| Foto: EFE

Desde que o cruzador Moscou foi a pique na última quinta-feira (14), a Ucrânia vem experimentando uma mistura de alegria e apreensão. O contentamento vem da conquista simbólica e militar sem precedentes da destruição do navio capitânia da Rússia no Mar Negro. A apreensão se baseia na possibilidade de vingança dos russos, que já começou a ocorrer por meio de ataques a instalações militares em cidades como Kyiv e Lviv.

Na sexta-feira (15), foi possível ver nas ruas da capital ucraniana pessoas fazendo fila para comprar um selo comemorativo lançado pelo correio. Ele retrata um militar ucraniano apontando o dedo médio para o cruzador Moscou. Nas ruas, esse parecia ser o assunto corrente.

Mas a animação se transformou em receio quando as sirenes de ataque aéreo começaram a soar às 22h30. Na noite anterior, a Rússia havia bombardeado uma fábrica de mísseis antiaéreos e antinavio no subúrbio de Kyiv. O ataque foi interpretado por analistas militares como retaliação ao afundamento do Moscou.

Os alertas de ataque aéreo têm feito parte da rotina ucraniana desde o início da guerra. Mas a perspectiva de vingança russa contra a capital Kyiv fez não só boa parte da população local, mas também este colunista, perderem o sono.

Eu associava qualquer barulho na rua a uma possível explosão à distância. Definitivamente essa não é a melhor maneira de ter uma boa noite de sono.

As sirenes de ataque aéreo soaram às 22h30 e cessaram uma hora depois. Depois voltaram a ser acionadas 5h20 do sábado, mas o ataque só veio mesmo às 10h. Não foi possível ouvir explosões no centro da capital, como eu passara a noite imaginando. A notícia do ataque veio por meio de uma publicação do prefeito Vitali Klitschko no Telegram: o subúrbio chamado Darnytskyi havia sido atingido.

Logo depois, o porta-voz do Ministério da Defesa da Rússia, Igor Konashenkov, afirmou que mísseis de precisão atingiram 16 alvos em toda a Ucrânia, entre eles uma fábrica de blindados e depósitos de armas e equipamentos militares em Kyiv. A polícia e a milícia ucraniana não deixaram qualquer jornalista se aproximar do complexo. Informações não confirmadas davam conta de que sete militares ucranianos teriam morrido no local, mas Klitschko confirmou só uma morte.

Ataques similares também foram tentados na cidade de Lviv, no oeste do país, mas os quatro mísseis disparados por aviões bombardeiros russos teriam sido abatidos por baterias antiaéreas, segundo autoridades ucranianas.

Na noite de sábado, o alarme voltou a soar às 21h30 por uma hora. Mas o ataque veio só às 5h30 da manhã. Uma fábrica de munições foi destruída no subúrbio da capital ucraniana por mísseis de cruzeiro. Klitschko deu uma declaração afirmando que não é hora de as pessoas voltarem para Kyiv.

A escalada de ataques na capital ucraniana - que não vinha sendo bombardeada desde a retirada da Rússia da região há duas semanas - ocorre no momento em que Kyiv começava a retomar sua rotina normal. Autoridades locais afirmaram que até o fim da semana cerca de 50 mil pessoas estavam retornando por dia para a cidade.

Os ataques de mísseis russos ocorrem também em um momento em que o Kremlin deu um ultimato ao Ocidente - afirmando que se as remessas de armas para a Ucrânia não pararem, haverá “consequências sem precedentes”. Analistas passaram a associar essa declaração um tanto vaga ao uso de armas nucleares. A possibilidade também ganhou força após ser citada pelo diretor da CIA, William Burns.

A tensão aumentou ainda mais com um discurso do presidente Volodymyr Zelensky sobre a necessidade de a Ucrânia se preparar para a possibilidade de um ataque nuclear da Rússia.

Em teoria, o Kremlin poderia escalar a violência usando as chamadas armas nucleares táticas. Ou seja, detonando um artefato com potência de metade ou um décimo do poder de destruição da bomba de Hiroshima. Analistas afirmam que a potência reduzida seria uma forma de usar uma bomba nuclear sem deflagrar uma guerra nuclear de larga escala.

Mas, essa não parece ser, por ora, a estratégia da Rússia. Desde o alegado ataque ucraniano ao cruzador Moscou (a versão russa é que um incêndio levou o navio o pique), o que se vê é a Rússia concentrando fogo em alvos militares. Ou seja, o Kremlin não admitiu que o Moscou foi afundado por mísseis Neptune ucranianos, conforme dizem ucranianos e americanos, e até agora tem adotado uma resposta proporcional, com ataques restritos a alvos militares.

Aliás, ao caminhar pelo centro de Kyiv, percebo que, apesar da ofensiva no início da guerra, a maior parte da cidade tem sido poupada dos bombardeios russos. Com o armamento que Moscou possui, Kyiv poderia estar hoje parecida com Mariupol, que teve 80% de seus edifícios afetados pela guerra. Não é o caso.

Outra hipótese levantada pelas autoridades locais é que a vingança russa venha por meio de um desembarque anfíbio em um dos dois grandes portos ainda controlados pelos ucranianos: Odesa e Mykolaiv.

“Nós entendemos que o inimigo vai retaliar e não excluímos uma operação de desembarque”, afirmou a capitã Natalia Humeniuk, porta-voz das Forças de Defesa do Sul da Ucrânia. Na prática, isso significaria que a marinha russa bombardearia essas cidades e depois enviaria navios com fuzileiros navais para desembarcar nas praias e tomar o litoral.

Segundo o Think Tank americano Instituto de Estudos de Guerra, Odesa seria alvo desse tipo de operação no início da guerra, mas os russos teriam abortado a ideia. Isso porque o avanço de seu exército em terra foi parado na cidade de Mykolaiv, antes de chegar a Odesa. Se os fuzileiros desembarcassem, poderiam ficar isolados.

Estive em Odesa há algumas semanas e encontrei praias minadas e protegidas por trincheiras e ninhos de metralhadora.

Há alguns dias surgiram ainda rumores de que navios de desembarque de tropas russos teriam sido vistos próximos ao mar do Japão, supostamente se dirigindo para o Mar Mediterrâneo. Mas, mesmo que isso seja verdade, não está claro se a Turquia autorizaria a passagem deles para o Mar Negro.

Além disso, Mykolaiv permanece resistindo e é hoje a maior fortaleza ucraniana no sul do país. Segundo Humeniuk, a cidade foi recentemente bombardeada com munições de fragmentação - mísseis que se dividem em bombas menores antes de atingir o solo e são considerados muito perigosos para a população civil porque são destinados a atingir um número maior de pessoas que as bombas convencionais ou até espalhar minas terrestres pelo terreno. Porém, essa alegação não foi comprovada por fontes independentes.

Segundo a ONU, desde o início da guerra ao menos 1900 civis foram mortos e mais de 2.500 foram feridos. Mas essas estatísticas podem ser muito maiores.

O chefe de polícia de Kyiv Andrii Niebyto afirmou na sexta-feira que 900 corpos de civis não combatentes foram encontrados em 180 cidades e vilarejos no entorno de Kyiv depois que as tropas russas deixaram a região em 31 de março. “Eu ressalto que eram civis cujos corpos nós encontramos e mandamos para a perícia médica para exames mais detalhados. Todas essas pessoas morreram nas mãos do exército russo”, afirmou.

Mais de 350 estavam na cidade de Bucha, palco dos maiores massacres na região até agora. A Rússia argumenta que os corpos teriam sido colocados no terreno pelas forças ucranianas.

Mas a contagem de mortos da ONU é considerada conservadora. Isso porque não é possível saber ao certo o número de civis mortos em cidades sob controle russo. Segundo autoridades de Mariupol, por exemplo, os russos estariam exumando corpos de civis que foram enterrados por familiares em seus quintais. O objetivo seria cremá-los para apagar evidências de crimes de guerra. Os russos negam as afirmações e dizem ter “libertado” Mariupol.

Com o número de mortes aumentando a cada dia, é alarmante que a mídia russa esteja cobrando uma vingança pelo afundamento do cruzador Moscou. Felizmente por ora, a resposta russa no campo de batalha tem sido proporcional (com os ataques restritos a alvos militares).

Mas essa situação de momento pode mudar com a esperada ofensiva na região de Donbas, no leste do país, que pode começar a qualquer momento.

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