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Só fui sentir necessidade de ler Adam Smith no final da década de 1980. Estava fazendo as pesquisas que resultariam em “Mauá, Empresário do Império”. O baralho das opiniões a respeito dele andava especialmente confuso. Tanto Irineu Evangelista de Sousa como seus mais empedernidos adversários do Partido Conservador diziam-se liberais e fiéis seguidores da doutrina do mestre, embora se digladiassem em torno da análise dos mesmos fatos.

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Sim, os fatos. Por longo tempo a economia clássica foi para mim o reino dos fatos. Mas o leitor compreenderá facilmente meus motivos. Quando tinha apenas 18 anos de idade, em 1974, era aluno do primeiro ano de Filosofia. Estava às voltas com um duro trabalho de final de curso, num semestre no qual se abordava basicamente a metafísica. Pelo tema o leitor poderá dar conta do labirinto em que me enredara: “As mônadas não têm janelas por onde se entrar ou sair”. E dá-lhe Leibniz.

Descarreguei a irritação durante um almoço dominical em Ibiúna, na casa de Pedro Paulo Poppovic. O tema, se bem me lembro, era a falta de oportunidade para os jovens, o que os obrigava a suportar calados as imposições dos mais velhos. Havia muitos jovens e poucos adultos na mesa, de modo que ganhei alguma aprovação.

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Mas do outro lado estava Pedro Paulo, muito pouco tolerante a teses vagas. Encerrou a conversa com uma frase:

“Pois você apareça amanhã cedo na Abril. Vai ter uma oportunidade”.

A prática fez entrada na vida matando minha prosápia. Desde eu concordar em aparecer saímos de mansinho, e eu tinha um problema e tanto. Reclamar era fácil, provar exigia muito mais. Na manhã da segunda atravessei a porta de um armazém na Rua do Curtume, Lapa de Baixo, no que então se chamava de um arrabalde operário de subúrbio paulistano (era do lado da ferrovia e havia a indefectível estação que despejava operários nas várias fábricas que funcionavam ao redor).

Fui recebido por um tipo inesquecível. Paulo de Almeida vestia terno cinza, gravata escura. Havia sido vendedor ambulante, lutador de tele-catch e melhor aluno da faculdade de Ciências Sociais da USP (lugar no qual seus trajes e o corpo de halterofilista o levavam a ser confundido com agente policial da ditadura infiltrado na escola) antes de ser contratado pela Abril Cultural. Era o editor de uma coleção de fascículos intitulada “Enciclopédia do Estudante”.

Recebeu-me com sua voz sempre afável e uma linguagem rebuscada, que contrastavam com sua gigantesca massa física. Passou-me o teste: fazer pesquisa para cinco verbetes da publicação (farol, Faraday, fascismo, Fermi e – fora da ordem alfabética – cervídeos). Levou-me até a biblioteca, que ficava no extremo oposto do imenso prédio, deu-me instruções sobre o que esperava e me deixou por ali para pesquisar. Até a hora do almoço tinha concluído minhas anotações.

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De tarde sentei na escrivaninha e comecei a escrever à mão os textos. Paulo de Almeida interveio pela primeira vez para me formar como redator:

— “Meu filho, aqui ninguém escreve à mão. Tem que ser na máquina”.

A resposta foi singela:

— “Não sei datilografar. Então estava pensando em escrever à mão e depois passar para a máquina”.

Ele foi curto e grosso como um lutador finalizando o adversário. Pegou a Olivetti 44, pôs na minha frente e disse:

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–“Eu te ensino. Você põe seus dedos na linha do meio do teclado. Cada um bate nas teclas que estão acima ou abaixo. Pode começar”.

Formado em seu curso prático sucinto, comecei. A tarde foi uma longa sessão de tortura, uma luta cruel entre a necessidade de escrever bem e a busca de coordenação motora necessária para teclar cada letra. Quando esmorecia, lembrava do vexame que me aguardaria no próximo almoço de domingo, caso fracassasse. Exausto, consegui chegar ao fim.

Antes do final da semana recebi uma proposta de emprego. Se bem me lembro, ganhava coisa como dez cruzeiros de semanada de meus pais. Passaria a receber algo como mil e quinhentos cruzeiros por mês para redigir verbetes para a enciclopédia. Era salário suficiente para muitos manterem bem a família, Transformei-me na prova viva de que oportunidades excepcionais existiam e não poderiam ser perdidas.

Demorei muito pouco tempo para entender que não existe almoço grátis. A enciclopédia estava atrasada. Havia uma lista quase infinita de verbetes curtos a serem produzidos a cada dia. Fizesse chuva ou fizesse sol, estivesse eu triste ou alegre, Paulo de Almeida me recebia a cada manhã com uma lista nova para dechavar na biblioteca – e comentários suaves mas sempre muito críticos sobre o que eu havia produzido na véspera.

Enquanto me aperfeiçoava em redação e datilografia, aperfeiçoava meus conhecimentos gerais em ordem alfabética. E ia percebendo um mundo realmente novo a meu redor. Virei o mascote da casa – até então, o mais jovem redator tinha 31 anos. E eram centenas de redatores e dezenas de coleções de fascículos sendo produzidas simultaneamente no mesmo prédio.

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Aos poucos fui me acostumando com o ambiente ao redor. As grandes estrelas da redação eram recolhidas por Pedro Paulo Poppovic diretamente na saída dos presídios de presos políticos do regime militar. Dividia sala com dois líderes estudantis (Nelson Santornieri e Luís Gonzaga Seixas). Na sala ao lado trabalhavam Alfredo Galiano (que vivera na China Comunista e havia sido locutor da rádio de Pequim), Antônio Roberto Espinoza (líder operário de Osasco e colega de luta armada de Carlos Lamarca), Jacob Gorender (comandante do PCBR e herói da FEB, que defendeu a si mesmo no julgamento militar alegando que havia um direito à revolução).

A face mais brilhante dos cassados era a de José Américo Pessanha. Professor de Filosofia da Faculdade Nacional do Rio de Janeiro, punido por ter organizado a chamada Passeata dos Cem Mil, em 1968. Era o diretor do grupo editorial que incluía a enciclopédia que eu fazia – mas esta era quase desprezível perto da obra que ele cuidava com mais carinho: “Os Pensadores”.

Especialista em Bergson, José Américo aproveitava os intervalos do trabalho para dar aulas muito mais sofisticadas que aquelas que eu tinha na faculdade. Foi o primeiro gay inteiramente assumido que conheci na vida, capaz de intercalar comentários muito apropriados sobre o difícil conceito de “durée” com as descrições da fantasia que estava mandando fazer para o próximo desfile de carnaval. Completava o tom geral de sofisticação – e tornava mais agudo um contraste.

A distância intelectual do trabalho exigido para editar uma obra como “Os Pensadores” e minha modesta enciclopédia explicava um pouco a espécie de oportunidade que recebi. A imensa maioria dos veteranos considerava a redação de pequenos verbetes um trabalho quase desprezível – enquanto eu agradecia a cada pequena oportunidade de melhorar meu nível de escrita e conhecimento. Ah, sim: e de datilografia, pois logo teclava em relativa velocidade e com um número de erros tolerável.

Como não há bem que sempre dure, chegou enfim a hora de redigir o inevitável verbete “Zwingli” e botar um ponto final na obra. Antes mesmo que eu pensasse no que viria em seguida, Pedro Paulo Poppovic me chamou eu sua sala. Foi taxativo:

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— Você é de outra geração e não vai ser formado com os vícios dos mais velhos. A partir de segunda-feira você está transferido para o Departamento Comercial. Vai aprender Planejamento Editorial.

Não era exatamente uma notícia agradável. Nos vários meses de trabalho não havia nem mesmo pisado no território do primeiro andar do armazém, tido pelos redatores como uma espécie de submundo. E lá estava eu na segunda-feira, sendo recebido por meu novo chefe, Roberto Silveira. Terno escuro, camisa branca, gravata escura — e gago.

E ele foi me apresentando a seus vários subordinados de terno escuro, camisa branca, gravata escura. Aqueles de mais alto escalão eram invariavelmente oriundos da Fundação Getúlio Vargas. A maioria formados em Economia, alguns em Administração. Todos bastante formais – especialmente se comparados à turma do andar de cima.

Já no primeiro dia de trabalho conheci o equivalente numérico da máquina de escrever: Sua Excelência, a Planilha. Calma, jovem leitor. Naquele tempo não havia informática aplicada a casos “normais”. A Abril era uma potência moderna, o que significava que tinha uns poucos computadores para atividades muito específicas.

As planilhas do Departamento de Planejamento Editorial eram construídas à mão em largas folhas de papel almaço. Os mais avançadinhos em tecnologia empregavam precárias calculadoras. Os mais confiantes ainda preferiam a régua de cálculo – e de fato andavam mais depressa com ela.

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Minha função era a de preencher um gap de informações até então considerado intransponível entre a numerália do orçamento e a prática. Já tinha aprendido muito intuitivamente que este era um problema de monta: o planejamento da enciclopédia em que fora trabalhar supunha uma produtividade de pesquisa que se mostrou claramente subavaliada – daí eu ser contratado para aumentar a produção ainda na letra “C”.

Assim, por menor que fosse minha experiência, já era capaz de trazer sugestões retiradas da prática e capazes de produzir orçamentos mais realistas. Os novos colegas agradeciam muito. O lapso de informações gerava muitos conflitos reais na época. Na redação onde eu trabalhava até a véspera os homens do Departamento Comercial eram tratados com grande desprezo, como se fossem os únicos responsáveis pela distância entre previsão e realidade. Eram tidos como burocratas incapazes de entender qualquer nuance da produção intelectual – uma espécie de inúteis que só davam mais trabalho para os redatores que corrigiam seus erros com o suor de cada dia.

Já os administradores mostravam respeito pela capacidade intelectual dos redatores – mas zombavam de sua incapacidade de olhar para os números. Além disso, acreditavam piamente que os números eram expressão direta da realidade – mas não tinham o menor pingo de vergonha em colocar números verdadeiramente aleatórios nos orçamentos.

Enfim, era um problema que ajudei a sanar com informação trivial (e capacidade de conversar com redatores). E assim logo comecei a ser chamado para assuntos mais importantes. Os orçamentos que eu agora ajudava a fazer, logo percebi, eram apenas a face menos arriscada do trabalho que se fazia ali. A verdadeira arte da época consistia em sistematizar os dados das vendas reais de cada fascículo nas bancas. Como elas eram sempre decrescentes (pessoas abandonavam a coleção no meio do caminho), as estatísticas de venda serviam para montar uma curva.

Com o tempo os grandes peritos da área comercial conseguiram determinar modelos de curva para cada espécie de publicação (um dicionário, por exemplo, tinha uma curva com queda bem menos acentuadas que publicações autoportantes como discos). Eram equações matemáticas, mas neste caso todas fundadas em dados reais – e justificavam o salário alto dos técnicos do departamento.

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A soma de orçamentos com curvas de venda geravam a pedra filosofal do negócio: determinar uma tiragem para os primeiros números. Uma vez ela determinada, começava a roda da fortuna a girar. Naquele tempo levava três meses para terminar a produção editorial do primeiro número e outros três meses para sua impressão e distribuição. Ao todo, seis meses de investimentos apenas em torno da aposta no número hipotético determinado pela pedra filosofal.

E tudo virava nova realidade em apenas dois dias. Apenas com os dados de venda em bancas de um par de dias, os gerentes do Departamento Comercial eram capazes de saber se a obra daria dinheiro ou se o prejuízo viria inexoravelmente. Com os dados das vendas do segundo fascículo, eram capazes de enquadrar as receitas nas curvas. Tudo muito preciso, ao contrário do que julgavam os redatores.

Não é preciso dizer que essas eram as semanas cruciais para muitos destinos – todos eles decididos por Pedro Paulo Poppovic diretamente. Era ele quem, nos dias de alegria, mandava imprimir mais ou aumentar a capacidade das redações. Na via inversa, coordenava os cortes capazes de diminuir os prejuízos sem prejudicar os leitores. Nos dois casos com o mesmo bom humor e uma frase indefectível:

— Intelectuais sempre ralam a bunda nas rugosidades do empírico.

A economia clássica de Adam Smith se tornou para mim uma aventura neste grande ralador prático. Deixei as mônadas de lado, prestei vestibular em Ciências Sociais (onde havia um ótimo curso de estatística) e fui em frente – até aparecer outro desafio de monta.

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