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José Fucs

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Banco Master

Com a própria biografia, Lula não está em posição de dar conselhos a Xandão

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Lula e Alexandre de Moraes, em foto de abril de 2023. (Foto: Joedson Alves/Agência Brasil)

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Com o tombo em sua popularidade e o salto em sua rejeição e na desaprovação do governo, o presidente Lula está vivendo o seu “inferno astral”. Embora esteja recorrendo a todo o seu repertório de medidas populistas, na expectativa de receber a gratidão eterna dos beneficiados, não há meios de ele melhorar na avaliação popular.

Talvez, em nenhum outro momento desde que Lula venceu sua primeira eleição presidencial, em 2002, o cenário tenha sido tão desfavorável a ele nas urnas – ou a seus prepostos, como a ex-presidente Dilma Rousseff e o ex-ministro da Fazenda, Fernando Haddad – quanto agora.

A coisa está tão feia que Lula já andou dizendo que ainda não sabe se será candidato no pleito de outubro, para “não comprometer sua trajetória vitoriosa”, nas palavras de seus aliados, com uma derrota humilhante para algum de seus adversários.

Mesmo assim, Lula ainda se acha na posição de dar conselhos políticos, como fez na semana passada com o ministro Alexandre de Moraes, do STF, a quem chamou de “companheiro”, rebaixando o magistrado à condição de correligionário de sindicato ou de partido. Fora isso, ainda sugeriu a Xandão que se declare impedido de julgar o caso do Banco Master, com a clara intenção de se descolar do escândalo, que vem arranhando sua imagem e afetando seu desempenho nas pesquisas eleitorais.

Em vez de cuidar da biografia de Moraes, Lula deveria se preocupar com a sua própria – a real, não a do desfile de escola de samba

“Eu disse ao companheiro Alexandre de Moraes – e vou dizer para vocês exatamente o que disse para ele: ‘É o seguinte, você tem uma biografia histórica desse país com o julgamento do 8 de janeiro. Não permita que esse caso do [Daniel] Vorcaro [controlador do Master] jogue fora a sua biografia’”, disse Lula, em entrevista ao portal ICL.

“Se a sua mulher estava advogando, diga: ‘A minha mulher estava advogando, minha mulher não tem de pedir licença para mim. Eu só prometo que, aqui na suprema corte, eu me sentirei impedido de votar qualquer coisa’”, acrescentou.

Em vez de cuidar da biografia de Moraes, porém, Lula deveria se preocupar com a sua própria. Não aquelas produzidas por sua claque, em livro, em filme ou em desfile de carnaval na Marquês de Sapucaí, nas quais costuma aparecer como “herói” do povo brasileiro – versões que só mostram o lado “dourado” de sua trajetória política e deixam de lado os seus podres. Mas com a sua real biografia, a “não autorizada”, que será produzida por autores que não lhe rendem vassalagem e que vão mostrar o seu “lado escuro” que sua turma e ele próprio tentam apagar da história.

Embora às vezes possa parecer o contrário, a memória da corrupção petista, que marca seus governos e na qual ele parece estar envolvido, de um jeito ou de outro, continua viva na memória da população. E os escândalos do Banco Master e das fraudes do INSS – cujas investigações apontam o envolvimento de seu filho Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, e de seu irmão José Ferreira da Silva, o Frei Chico – estão aí para nos lembrar todos os dias da bandalha que prospera nos governos petistas.

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Ainda que o jornalista William Bonner tenha dito a Lula, durante entrevista à TV Globo na campanha de 2022, que ele “não deve nada à Justiça”, a realidade dos autos é outra. Ninguém até hoje refutou as provas que o levaram à prisão em 2018, por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Suas sentenças foram referendadas por três instâncias da Justiça, antes de serem anuladas por questões processuais – e não por mérito – pelo STF.

Na verdade, é preciso dizer, a volta de Lula ao Palácio do Planalto se deveu muito mais ao frentão montado contra o ex-presidente Jair Bolsonaro e seu grupo político, em nome de uma alegada “defesa da democracia”, do que a um apoio incondicional a ele e à embolorada agenda petista, resgatada no atual governo. A população sabe bem “o que ele fez no verão passado”, como se diz por aí.

O petrolão (propinoduto em escala industrial que prosperou na Petrobras a partir de seu segundo mandato) e o mensalão (compra de apoio no Congresso ocorrida em sua primeira gestão) levaram a corrupção no país a um novo patamar.

A memória da corrupção petista, que marca seus governos de Lula e na qual ele parece estar envolvido, de um jeito ou de outro, continua viva na memória da população

A compra da refinaria de Pasadena, no Texas (EUA), que deixou um rombo bilionário para a Petrobras, e o projeto megalomaníaco da refinaria Abreu e Lima, desenvolvido em parceria com a PDVSA, a estatal petrolífera da Venezuela, em meio a acusações de corrupção, já seriam suficientes para manchar a reputação de qualquer um – mas tem mais, muito mais.

Também não dá para deixar de fora da lista a tentativa de sua nomeação como ministro da Casa Civil pela então presidente Dilma Rousseff, em 2016, para que ele ganhasse foro privilegiado e fosse blindado da ordem de prisão iminente. Foi quando vazou o famoso áudio da conversa telefônica de Dilma com Lula, na qual ela diz que o atual advogado-geral da União, Jorge Messias, o “Bessias”, recém-indicado pelo presidente para o Supremo, iria lhe levar o “termo de posse” para ele assinar e ser usado “em caso de necessidade”.

Não se pode esquecer, ainda, da tentativa de expulsão do jornalista americano Larry Rohter, do The New York Times, em 2004, autor de uma reportagem intitulada “Hábitos etílicos de Lula tornam-se preocupação nacional”, que deixou Lula furioso. Nem do caso da Gamecorp, em que a extinta Telemar (atual Oi) fez um aporte milionário na empresa de Lulinha.

Tampouco se pode passar ao largo da relação íntima que ele manteve com Rosemary Noronha, ex-chefe do escritório da Presidência em São Paulo, que se aproveitou de sua proximidade com Lula para realizar tráfico de influência e obter vantagens pessoais, quando dona Marisa ainda era viva e estava casada com Lula.

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Por fim, para completar com “chave de ouro” sua biografia “não autorizada”, não dá para ignorar sua ligação com ditadores “amigos”, como o cubano Fidel Castro (1926-2016) e seu sucessor; o ex-presidente da Venezuela Nicolás Maduro e seu antecessor Hugo Chávez, morto em 2013; e o presidente da Nicarágua, Daniel Ortega. O mesmo se pode dizer em relação à sua aproximação com o regime tirânico dos aiatolás do Irã e com grupos terroristas islâmicos como o Hamas e o Hezbollah.  

Esses são apenas alguns episódios que deveriam fazer parte de qualquer roteiro sobre sua vida. Provavelmente, há muitos outros, como seu voto contrário à Constituição Cidadã de 1988, quando era deputado constituinte, e sua atuação decisiva para que o PT votasse contra o Plano Real, que acabou com a hiperinflação no país, em 1994, e contra a Lei de Responsabilidade Fiscal, em 2000. Mas não farão muita diferença no conjunto da obra.

Com uma biografia dessas, recheada de manchas excluídas das versões que retratam de forma dócil sua trajetória, é muita pretensão de Lula acreditar que tem autoridade para dar conselhos a Xandão sobre como cuidar da própria imagem.

Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

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