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José Fucs

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Tecnologia

O viés de esquerda e o mito da neutralidade das plataformas de IA

Caberá às Big Techs, portanto, calibrar melhor seus modelos para equilibrar o conteúdo que oferecem aos usuários e evitar que a opinião pública seja moldada apenas com base na visão de mundo da esquerda. (Foto: Imagem criada utilizando Open AI/Gazeta do Povo)

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Com o desenvolvimento e a popularização das plataformas de inteligência artificial, que se tornaram rapidamente a principal fonte de informação para milhões de pessoas, o viés ideológico das respostas dadas aos usuários – em especial nas questões com implicações políticas – passou a ocupar o centro do debate sobre o papel da tecnologia na formação da opinião pública.

Não é preciso ser um nerd nem um usuário assíduo das plataformas de IA para se dar conta de que boa parte do conteúdo que elas geram carrega uma clara visão de esquerda sobre a história e os acontecimentos no Brasil e no mundo. Qualquer um com um mínimo de discernimento pode perceber isso logo na largada, em suas primeiras interações, independentemente de suas inclinações ideológicas.

Essa tendência, que já vinha sendo apontada por estudos realizados por pesquisadores americanos, ganhou um reforço de peso recentemente com um levantamento realizado pelo jornal The Washington Post – um veículo de evidente viés esquerdista, apesar de ser controlado pelo megaempresário Jeff Bezos, que também controla a Amazon e a Blue Origin, empresa de prestação de serviços aeroespaciais.

O jornal testou as principais plataformas com 30 perguntas com implicações políticas, pedindo respostas de no máximo 30 palavras, destinadas a uma pessoa com formação de nível médio. O resultado mostrou que há variações consideráveis entre elas, mas no geral detectou um enfoque majoritariamente de esquerda nas respostas.

Alternativas conservadoras

Como já seria previsível, para quem está mais acostumado a lidar com as ferramentas de IA, a plataforma que apresentou o maior viés de esquerda, pelos critérios adotados pelo jornal, foi a ChatGPT. A ferramenta, que detém cerca de 50% do mercado, gerou 80% das respostas apenas com visões de esquerda. Em seguida, veio a chinesa DeepSeek, com 70%.

Até plataformas que se propõem a ser alternativas conservadoras, como a Arya, ligada ao site Gab, e a xAI, de Elon Musk, apresentaram 50% e 40%, respectivamente, de respostas com um ponto de vista esquerdista. O mesmo aconteceu com a Claude, da Anthropic, que busca oferecer uma visão mais equilibrada aos usuários, mas ainda gerou 43% do conteúdo com prisma de esquerda.

De acordo com o estudo do WP, a Gemini, do Google, foi a que apresentou o maior equilíbrio, disponibilizando os dois lados das questões em 93% do total das respostas. O segundo colocado no quesito de neutralidade foi a Claude, com 57%, e o terceiro, a Arya, com 43%.

Embora a xAI tenha gerado grande parte de seu conteúdo com viés de esquerda, apresentou 33% das respostas com inclinações de direita, o maior índice do estudo neste campo. Todas as demais plataformas ofereceram menos de 10% de conteúdo com viés conservador, inclusive a Arya.

A ChatGPT endossou a abolição do Colégio Eleitoral nos Estados Unidos, em favor da escolha do presidente só pelo voto popular, o aumento de impostos para os mais ricos e atendimento médico e hospitalar gratuito e universal. Além disso, a plataforma, assim como a DeepSeek, posicionou-se contra a pena de morte, que é apoiada pela maioria dos americanos há décadas, segundo pesquisas do instituto Gallup.

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Guerra cultural

Conhecendo a origem do conteúdo disponibilizado pelas plataformas, não é de estranhar que o estudo do WP tenha chegado a essa conclusão. O material que as alimenta inclui pesquisas acadêmicas impregnadas por ideias “progressistas”, páginas da Wikipédia, cujas inclinações de esquerda vêm sendo criticadas há anos por Larry Sanger, cofundador da empresa, e artigos e reportagens de veículos de comunicação tradicionais, cujas redações são dominadas por jornalistas da sinistra.

De acordo com a professora Ceren Budak, da Universidade de Michigan, mencionada na reportagem do jornal, as informações que alimentam as plataformas tendem a refletir os valores das pessoas do Ocidente, com alto nível de escolaridade, modernas, ricas e democráticas. Ou, em outras palavras, elas tendem a refletir a visão das elites progressistas, que têm vergonha de ser ricas e defendem o aumento de impostos para elas mesmas em nome da “justiça social”, a “energia limpa”, o wokismo e as cotas de inclusão e diversidade, além da política de portas abertas para imigrantes ilegais.

Como a esquerda costuma levar vantagem na guerra cultural, parece improvável que ocorram mudanças significativas na Wikipédia, na academia e na grande mídia, ao menos no curto prazo. Caberá às Big Techs, portanto, calibrar melhor seus modelos para equilibrar o conteúdo que oferecem aos usuários e evitar que a opinião pública seja moldada apenas com base na visão de mundo da esquerda, como se ela representasse a verdade absoluta e as virtudes da humanidade.

Isso ganha ainda mais relevância quando se leva em conta que, hoje, para os estudantes de todos os níveis – fundamental, médio e universitário – que estão formando suas ideias e suas percepções da realidade, as plataformas de IA fazem parte do dia a dia e são a fonte principal de informação para a realização de trabalhos escolares.

É difícil dizer, porém, se as Big Techs estarão à altura do desafio. O que cada um de nós deve fazer desde já, para não se deixar levar pelas lentes enviesadas das ferramentas de IA, seja qual for o viés, é desconfiar das primeiras versões apresentadas para as questões que propomos e fazer perguntas adicionais para os aspectos que nos pareçam inverossímeis ou deturpados nas respostas iniciais.

Mais que tudo, talvez, é escolher a plataforma que tenha o maior rigor e o maior comprometimento com a precisão das informações e que apresente pelo menos dois lados envolvidos nos diferentes temas. Pode ser que, por ora, isso ainda não esteja claro para muitos usuários, mas, com o tempo, o próprio uso das ferramentas vai apontar o melhor caminho a seguir. Estudos como os realizados pelo Washington Post certamente oferecem uma contribuição inestimável para a gente poder navegar com mais segurança pelo maravilhoso (e traiçoeiro) mundo da IA.

Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

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