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Câmara dos Deputados

Caso Master ameaça mandato de Hugo Motta, mas rede de proteção pode impedir cassação

Hugo Motta conta com apoio do governo contra investigações
Hugo Motta conta com apoio de Lula contra movimento que ameaça mandato e comando da Câmara. (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

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A associação do nome de Hugo Motta (Republicanos-PB), com o banqueiro Daniel Vorcaro, investigado na operação Compliance Zero, pode dar margem para a cassação do presidente da Câmara dos Deputados, especialmente com o possível aprofundamento das investigações da Polícia Federal. Mas as revelações até o momento ainda não produziram o movimento político necessário para ameaçar de forma concreta o comando do deputado paraibano.

A comparação com o ex-deputado Eduardo Cunha (Republicanos-MG), cassado por quebra de decoro parlamentar em 2016, é inevitável nos corredores da Casa em Brasília. Ele foi acusado de mentir à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Petrobras, quando disse que não tinha contas no exterior, o que acabou desmentido por autoridades da Suíça. Mas os analistas políticos são unânimes: o cenário hoje é outro, e o tempo joga a favor de Motta.

Atual presidente da Câmara, Motta conta com o apoio das lideranças do Centrão e, ao contrário do que ocorreu com Cunha, também do governo Lula. A leitura predominante entre especialistas é que, em ano eleitoral, ninguém no Congresso tem interesse em abrir uma crise de grandes proporções.

O nome de Motta entrou nas investigações da Compliance Zero a partir de mensagens encontradas no celular de Vorcaro. Segundo relatórios da PF, com sigilo derrubado pelo STF, as conversas indicam que o presidente da Câmara teria solicitado ao banqueiro a liberação de um empréstimo de R$ 22 milhões para uma empresa ligada à cunhada dele.

Questionado, Motta não confirmou ter solicitado o empréstimo, mas sustentou que a operação foi regular. "O empréstimo está dentro da legalidade", defende. A polícia investiga se houve contrapartida parlamentar, o que, se confirmado, configuraria em corrupção e quebra de decoro. Ele também esteve em uma degustação de uísque em 2024 em Londres, com outras figuras públicas, que custou quase US$ 641 mil (pouco mais de R$ 3 milhões no câmbio à época).

Para o cientista política Antônio Testa, o destino político de Motta depende diretamente do ritmo e dos resultados da investigação. Se a troca de favores for comprovada, a proteção do governo tende a evaporar. "O governo Lula já está desgastado demais. Os episódios de Jaques Wagner e Motta aprofundariam a crise ainda mais", afirma.

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Regimento interno da Câmara abre caminhos para cassação

O regimento interno da Câmara não prevê rito diferenciado para o presidente da Casa: o processo de cassação começa com uma representação partidária à Mesa Diretora, que, se reconhecer a admissibilidade, autoriza o Conselho de Ética e Decoro Parlamentar a abrir a investigação. No entanto, o presidente da Câmara comanda a Mesa Diretora e dificilmente conduziria um processo contra si.

O precedente de Eduardo Cunha ilustra bem o impasse. Em 2016, o STF precisou intervir para afastá-lo do cargo antes que o processo fosse ao Conselho de Ética. No caso de Motta, o caminho seria semelhante, e igualmente tortuoso.

O cientista político Sérgio Praça, da Universidade Federal de Alfenas (Unifal), avalia que a probabilidade de um movimento político organizado contra Motta é baixa, mas não descarta mudanças no cenário político caso as investigações avancem. "Pode ser que amanhã surja alguma coisa a mais e mude essa realidade. Por enquanto, o Legislativo prioriza o que precisa ser votado, rapidamente, até o início de agosto para focar nas eleições", avalia.

O cientista político Antônio Testa reconhece que um partido sem vínculos com o esquema investigado poderia protocolar o pedido de cassação, mas pondera sobre os custos políticos do movimento. "Na prática, o que está em jogo são as eleições. Tirar Motta do comando da Câmara mudaria todo o tabuleiro, mas não sei se algum grupo político conseguiria", opina.

A operação Compliance Zero não tem prazo de encerramento definido e, mesmo que chegasse a uma conclusão imediata, o rito entre a denúncia da Procuradoria-Geral da República (PGR) e o julgamento final no STF levaria até dois anos. Na Câmara, o processo de cassação de Eduardo Cunha consumiu mais de sete meses no Conselho de Ética e foi ao plenário somente após 11 meses do início da tramitação.

O cenário político de hoje, segundo Testa, é estruturalmente diferente daquele que derrubou Cunha. O ex-presidente da Câmara brigou com o governo e o PT, e acabou ficando isolado. Motta, ao menos por ora, tem o oposto: uma base ampla, um Executivo que precisa dele e uma investigação ainda em curso. "Os partidos que fazem parte da base do governo foram os responsáveis por pedir a saída de Cunha do comando da Câmara", lembra.

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