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José Fucs

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Eleições

Um grande passo de Flávio para a vitória no segundo turno

Lula e Flávio durante debate TV Band TV Globo
O debate da TV Globo entre Lula e Flávio Bolsonaro será realizado nesta sexta-feira (23), a dois dias do segundo turno (Foto: Crédito: Renato Pizzutto/Band)

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Faltam cinco dias para o segundo turno no domingo, período que inclui o debate da TV Globo, marcado para sexta-feira – e muita coisa pode acontecer até lá. Mas é possível dizer, desde já, que o senador Flávio Bolsonaro deu um grande passo nos últimos dias para chegar à vitória no pleito, mesmo em meio à farta distribuição de “bondades” eleitoreiras pelo governo, que já chegam a quase R$ 300 bilhões em 2026, segundo a IFI (Instituição Fiscal Independente), ligada ao Senado, e até agora não foram barradas pela Justiça Eleitoral.

Com o bom desempenho no debate da Band, associado às manifestações realizadas em várias cidades, em especial a da Avenida Paulista, em São Paulo, que reuniu uma multidão de apoiadores que clamavam pela mudança nos rumos do país, Flávio chega à reta final da campanha em posição privilegiada para impor uma derrota histórica ao presidente Lula e ao PT.

Caso confirme sua vitória nas urnas, como apontam quase todas as pesquisas, que o mantêm numericamente à frente de Lula, ele promete recolocar o Brasil nos trilhos da prosperidade e da democracia plena. Ironicamente, sob a alegação de que era preciso defendê-la, ela foi relativizada pelo STF, à revelia da Constituição, dos códigos legais e dos ritos processuais, por meio da perseguição e da censura a lideranças e representantes da direita – em particular ao ex-presidente Jair Bolsonaro, a seus aliados mais próximos e a influenciadores e cidadãos comuns ligados ao seu grupo político.

Embora não tenha o carisma do pai e seja chamado de “miliciano” e menosprezado por Lula, pelo PT e por seus aliados, Flávio mostrou ao longo da campanha que é o mais articulado, o mais preparado e provavelmente o mais aceitável dos integrantes dos Bolsonaros para o eleitorado que não se identifica propriamente com o bolsonarismo, mas se opõe a “tudo isso que está aí”.

No debate da Band, que deve ter contribuído no mínimo para Flávio manter a dianteira na disputa, ele deu um nó em Lula, que se julgava imbatível em eventos do gênero. Ao se posicionar atrás do presidente durante as intervenções do petista, fazer gestos durante as falas dele, fugir de várias perguntas e usar o tempo da resposta para falar de assuntos incômodos para Lula, ele conseguiu desestabilizá-lo e pautou a discussão na maior parte do tempo.

Tom de voz

Com uma imagem jovial e cheio de energia, Flávio, de 45 anos, passou segurança para quem acompanhou o confronto na TV. Colocou-se de forma equilibrada em suas participações, com um tom de voz relativamente tranquilo e com desenvoltura para falar e se posicionar. Lula, ao contrário, mostrou-se envelhecido, cansado, nervoso, aparentemente surpreendido pela postura de seu oponente. Confuso em suas argumentações, engolindo palavras, perdido no palco e visivelmente irritado, ele vociferava como se estivesse numa assembleia de metalúrgicos nos tempos de sindicalista, arranhando os ouvidos dos telespectadores.

Mesmo que Flávio tenha deixado de aproveitar algumas oportunidades para contestar afirmações falsas ou distorcidas sobre o governo de seu pai e os abusos cometidos por ministros do STF, entre outras informações duvidosas divulgadas por Lula no programa, ele não cometeu grandes erros. Ao menos pelo que pude identificar.

Enquanto isso, Lula, que completa 81 anos no dia 27 de outubro, cometeu erros em série. Chamou Flávio de “malandro carioca”, o que foi interpretado como ofensa à população do Rio por ele, seus apoiadores e alguns analistas. Fez também um comentário misógino sobre a assessora econômica de seu adversário, Daniella Marques, e defendeu a tal “saidinha” dos presos. Reforçou, assim, a percepção de que ele e o PT se preocupam com os direitos dos bandidos e não com suas vítimas, o que certamente não vai ajudá-lo a engrossar os seus votos, num momento em que a segurança pública está no topo do ranking de preocupações da população.

Ao ser perguntado por Flávio sobre as relações de seu filho Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, com a lobista Roberta Luchsinger, investigados pela Polícia Federal sob suspeita de envolvimento nas fraudes bilionárias do INSS e em outras falcatruas, mencionadas por ela em entrevista concedida à CNN Brasil no dia anterior, o presidente deu uma “miguelada” e respondeu com outra pergunta: “Quem?”. Para completar, disse nas considerações finais que, se for eleito para um quarto mandato, “a gente vai dizer ‘o Brasil acabou’”.

No fim do debate, contrastando com a animação de Flávio e sua turma, as expressões desoladas da primeira-dama Janja da Silva, de Sidônio Palmeira, ministro-chefe de Comunicação Social licenciado do cargo para se dedicar à campanha, e do deputado André Janones (Rede), que organizou um grupo de apoiadores de Lula no WhatsApp com mais de quatro milhões de participantes, no qual se multiplicam as fake news, falavam mais do que mil palavras. Até Lula reconheceu que sua performance deixou a desejar. “Podia ter sido melhor”, disse em entrevista após o evento.

Caciques do PT

Diante do evidente sucesso da estratégia de Flávio e de sua superioridade no embate, os caciques do PT, a tropa de choque do partido e a mídia amiga procuraram depreciá-lo nas análises e avaliações que se seguiram ao programa.

No day after, um jornalista de um dos maiores portais do país chegou a chamá-lo de “moleque”, ecoando uma narrativa propagada por aliados do presidente. Um parlamentar e ex-ministro do PT preferiu vitimizar Lula, acusando Flávio de ter “desrespeitado” o presidente da República. Numa publicação feita nas redes sociais, uma ex-senadora petista afirmou que “é muito triste ver um estadista igual a Lula, que já debateu com grandes líderes do Brasil, debater com um traste deste”.

Muitos analistas criticaram também a baixaria do encontro e a falta de discussão de propostas concretas para o país por parte dos dois candidatos, enquanto o PT, obviamente, procurou jogar a culpa no representante da oposição. Resumindo o sentimento predominante numa parcela da população, um jornalão publicou um editorial cheio de indignação, com o título “Debate digno da pior campanha da história”.

Flávio, é certo, limitou-se a falar de suas propostas para a segurança, como a redução da maioridade penal, o aumento das penas e a castração química de estupradores, e do estímulo que pretende dar ao empreendedorismo entre os beneficiários do Bolsa Família, especialmente as mulheres. Falou, ainda, da saída que poderá adotar para reduzir o endividamento recorde da população e das empresas, por meio do refinanciamento das dívidas com prazo de carência para a realização do pagamento da primeira parcela, e da possível queda do valor devido com a esperada queda dos juros que deverá ocorrer se ele confirmar a vitória.

Lula, por sua vez, se ateve principalmente às medidas eleitoreiras anunciadas recentemente, como o fim da escala 6x1 e a proibição das bets, além do aumento do teto dos MEIs e da proposta de envio de um Pix de R$ 5 mil para os empreendedores da categoria. Em seu empenho para citar suas próprias realizações, chegou a se apropriar da criação do Simples, que, na realidade, foi implementado em 1996, no governo FHC.

Com o futuro do país em jogo, é até compreensível que haja uma grande preocupação com as propostas efetivas dos candidatos. Mas, como acontece em qualquer encontro do tipo no mundo, trata-se de uma expectativa que nunca ou quase nunca é atendida.

Como afirmou nas redes sociais o vereador de Curitiba Guilherme Kilter, eleito deputado federal pelo partido Novo no Paraná, “proposta se lê no plano de governo”. Em sua visão, que parece bem realista, “debate é para desmentir narrativas, mostrar a realidade e expor o adversário ao ridículo” – uma missão que Flávio conseguiu cumprir com louvor, enfurecendo os petistas, e que deverá se refletir, ao menos, na consolidação de sua liderança nas pesquisas que ainda devem ser divulgadas nesta semana.

Apesar da chiadeira do “exército de Lula” nas redes sociais e fora delas e de seus porta-vozes na mídia, Flávio entrou na última semana de campanha com “a mão na taça”, como se diz no mundo esportivo. Só não pode agora baixar a guarda e subir de novo no salto, como ocorreu logo após o primeiro turno.

Desesperados pela dificuldade em reverter o resultado obtido na etapa inicial do pleito, e mordidos pelo desempenho sofrível de Lula no debate da Band, o presidente, o PT e suas milícias digitais devem promover um vale tudo nos dias finais de campanha que fará o das últimas semanas parecer fichinha.

Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

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