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A sensação de solidão e desamparo
| Foto: Kleiton Santos/Pixabay

A vida, em seus aspectos individuais, coletivos, econômicos, políticos e sociais, é resultado da ação humana. O indivíduo age movido por duas finalidades principais: uma, para satisfazer suas necessidades vitais (alimento, abrigo, repouso, proteção ao corpo), sem as quais ele morre; outra, para satisfazer vontades e desejos próprios da constituição física, mental e espiritual do animal humano.

Ação humana pode ser definida como o emprego de meios para atingir fins. O trabalho é um dos meios, entendido como toda ocupação útil. Utilidade é atributo derivado da vontade do autor, seja a ação legal ou ilegal, moral ou imoral. O ser humano age segundo seu julgamento individual de valor, que é diferente de pessoa para pessoa e, também, para a mesma pessoa em diferentes momentos.

O homem se revelou um ser social, propenso à cooperação e à solidariedade, primeiro no seio da família, depois no comércio e nas atividades comunitárias, e a vida tornou-se dependente das relações com os outros humanos

Na luta para sobreviver, o homem evoluiu, seu instinto de reprodução foi aperfeiçoado, pais e filhos passaram a viver juntos, e o processo produtivo levou à divisão do trabalho e à especialização de tarefas. Nasceu daí um mecanismo de trocas (o mercado), sobretudo após o surgimento da agricultura, há 10 mil anos, e as relações sociais foram ampliadas e deram origem às comunidades.

O homem se revelou um ser social, propenso à cooperação e à solidariedade, primeiro no seio da família, depois no comércio e nas atividades comunitárias, e a vida tornou-se dependente das relações com os outros humanos. A criação do Estado e do governo resultou da vida em comum baseada na especialização profissional, na divisão do trabalho e na necessidade de bens e serviços coletivos, bem como para regular e administrar as regras de convivência entre os membros da comunidade.

O ser humano sente necessidade de conviver e contar com seu semelhante, no âmbito familiar e no âmbito social. O mundo evoluiu, a expectativa de vida aumentou, a velhice ficou longa e novas necessidades surgiram, principalmente os meios para garantir alimento, moradia e assistência à saúde. As soluções coletivas para certos problemas individuais cresceram e, com elas, cresceu o aparelho de Estado e de governo.

Esses dois anos de pandemia e isolamento impuseram sofrimento e, para muitos, a sensação de solidão e desamparo. No livro O Século da Solidão, Noreena Hertz trata do tema com detalhes. A autora afirma que solidão não é apenas o sentimento de falta de amor, companhia e intimidade; é também sentir-se ignorado, não visto e não cuidado pela família, amigos e vizinhos. Mas ela vai mais longe e diz que a solidão vem também de nos sentirmos não apoiados e não cuidados por nossos concidadãos, empregadores, nossa comunidade e nosso governo.

A história humana é um percurso de evolução, divinização do indivíduo, valorização da vida, ampliação das relações sociais e, para grande parte da humanidade, crença numa vida após a morte. Foi assim que o homem foi colocado no centro do universo e na razão maior da existência terrestre.

Mas, uma vez alçado ao centro do universo, o ser humano foi humilhado três vezes. Primeiro, Copérnico (1473-1543) tirou este mundo do centro do universo ao revelar que é a Terra que orbita em torno do Sol, não o inverso, como até então se acreditava. A Terra gira em torno do Sol e nem tem a exclusividade dessa prerrogativa; outros planetas também fazem o mesmo movimento.

Noreena Hertz diz que a solidão vem também de nos sentirmos não apoiados e não cuidados por nossos concidadãos, empregadores, nossa comunidade e nosso governo

Segundo, após ter aprendido que Deus criou o homem como um ser especial, dotado de linguagem, consciência e livre arbítrio, vem Charles Darwin (1809-1882) e diz que biologicamente o homem é apenas um macaco que evoluiu. O homem e o chimpanzé teriam se separado do tronco ancestral comum há coisa de 4 milhões a 7 milhões de anos e ainda hoje o DNA de ambos é 98% igual. Ao tirar o homem de sua natureza divina e dar-lhe uma natureza de macaco, Darwin humilhou aquele ser que se considerava único e o colocou no nível de um chimpanzé melhorado.

Terceiro, o filósofo Artur Schopenhauer (1788-1860) dá outra porretada no orgulho humano, e diz que nossas crenças e sentimentos não são uma construção de nossa razão e inteligência, mas derivam de nossa genética. “Todos somos escravos em nossa própria morada”, disse ele. Mais adiante, Sigmund Freud (1856-1939) confirma Schopenhauer e diz que a maior parte de nossos pensamentos e sentimentos vem de nosso inconsciente. Não bastasse isso, Friedrich Nietzsche (1844-1900) grita ao mundo que “Deus está morto!”, e leva uma parcela da humanidade, os que não acreditam na existência de Deus, a reforçar o desencanto.

O coronavírus colocou-se na companhia desses personagens da história e aprofundou a solidão e a sensação de desamparo para parte da humanidade. Voltarei a esse tema em outro texto.

Conteúdo editado por:Marcio Antonio Campos
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