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José Pio Martins

José Pio Martins

Capitalismo e socialismo

A filosofia da miséria e a miséria da filosofia

proudhon miséria
Proudhon reconhecia méritos do capitalismo, mas o criticava por não ter erradicado a miséria. (Foto: Imagem criada utilizando Google Flow/Gazeta do Povo)

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O filósofo anarquista francês Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865) publicou, em 1846, o livro Filosofia da Miséria, no qual ele analisa o capitalismo e reconhece que esse sistema é eficiente para criar riquezas (bens materiais e serviços), mas apresenta, ao mesmo tempo, uma face ruim refletida em pobreza e desigualdade.

Proudhon usa a expressão “miséria” para se referir à pobreza extrema que naquela época atingia parte expressiva da população. Porém, o autor não deu o devido destaque para o fato de que a pobreza e a miséria eram a condição natural antes do aparecimento do capitalismo.

Em realidade, na época em que o livro de Proudhon foi publicado, o capitalismo era um sistema incipiente, que mal havia surgido e, estando em seus primórdios, ainda não tivera tempo de mostrar todos seus aspectos – os bons e os ruins – como sistema econômico alternativo ao feudalismo que o precedeu. 

Para uma ideia sobre a “juventude” do capitalismo, a semente primeira surgiu com o motor inventado por Thomas Newcomen, em 1712, usado para bombear água em minas de carvão. Foi somente a partir da década de 1770 que a máquina a vapor, aperfeiçoada por James Watt, começou a ser usada na indústria em escala ampla.

Proudhon não deu o devido destaque para o fato de que a pobreza e a miséria eram a condição natural antes do aparecimento do capitalismo

O trem de ferro sobre trilhos só viria a fazer sua primeira viagem, de apenas oito quilômetros, em 1804. A primeira linha com locomotiva a vapor apareceu somente em 1825, na Inglaterra. Vale mencionar que a primeira linha comercial de transporte de cargas e passageiros em longa distância somente foi conhecida em 1830, fazendo o percurso entre as cidades inglesas de Liverpool e Manchester, apenas 16 anos antes do livro de Proudhon, há 195 anos apenas.

Na época em que o livro de Proudhon foi lançado, Karl Marx (1818-1883) já era um agitador, bom teórico de política, mas pouco versado em economia. Marx entrou em choque com as ideias de Proudhon e publicou um livro chamado Miséria da Filosofia, em 1847, como resposta à “filosofia da miséria” de Proudhon.

Nessa obra, Marx faz uma afirmação que à primeira vista parece fazer sentido, mas olhada em retrospecto é absurda, um erro completo, apenas um jogo de palavras sem fundamento teórico algum. Em resumo, Marx criticava Proudhon dizendo que o lado bom do capitalismo era resultante do lado mau desse sistema, que seria a exploração do trabalhador e a miséria dela derivada.

O erro de Marx foi não reconhecer que o mundo acabara de atingir 1 bilhão de habitantes em 1830 e que, antes mesmo do surgimento da máquina a vapor e do trem de ferro, a miséria e as más condições de vida já existiam no campo e nas cidades, portanto, antes dos primórdios do capitalismo.

Com o crescimento populacional, as famílias começaram a emigrar do campo para as cidades, as populações urbanas aumentaram, houve expansão dos pequenos comércios e pequenos serviços e, embora já surgindo uma geração de empregados nas cidades, não se falava em exploração do trabalho.

O sistema capitalista, que se iniciara a partir da máquina a vapor e do trem de ferro, explodiu em invenções tecnológicas e, em poucas décadas, ofereceu ao mundo o domínio da eletricidade, o motor a combustão interna, o automóvel, a indústria do petróleo e uma lista enorme de máquinas, equipamentos e utensílios.

Foi assim que, ao publicar o primeiro livro de O Capital em 1867, com o subtítulo O Processo de Produção do Capital, o próprio Marx reconheceu o dinamismo do capitalismo de livre mercado e sua enorme capacidade de inventar e inovar, a ponto de alertar que o socialismo não deveria ser tentado em país atrasado.

Assim, conquanto o capitalismo não seja perfeito, foi a partir dele que o desafio de alimentar a população mundial foi vencido e suportou o crescimento acelerado do número de habitantes, que dobrou em apenas 100 anos e atingiu 2 bilhões em 1930.

Pobreza e miséria sempre existiram e, dado o crescimento da população, ambas teriam aumentado mais ainda se não fosse o capitalismo de livre mercado

Quando da publicação do primeiro livro de O Capital, nem o mais renhido antimarxista negava a existência de pobreza e miséria. Mas elas sempre existiram e, dado o crescimento da população, ambas teriam aumentado mais ainda se não fosse o capitalismo de livre mercado.

Dando um salto no tempo, coube ao economista norte-americano Arthur Okun (1928-1980) estudar as causas da pobreza no mundo pós-Segunda Guerra, ao que ele respondeu com o índice de miséria, um indicador resultante da soma da taxa de inflação com a taxa de desemprego.

Para Okun, a ocorrência simultânea de inflação e desemprego tem efeito devastador sobre a renda média da população, destrói a capacidade econômica das pessoas e causa mais pobreza e mais miséria.

Diferentemente de Marx, que debitava todo o mal ao capitalismo, Okun debitava ao Estado e ao governo a responsabilidade pela inflação, que invariavelmente destrói o sistema de preços, reduz a produção e gera aumento do desemprego.

O estudo de Okun se destinou a descobrir a partir de qual resultado da soma do índice de inflação com a taxa de desemprego a população é empurrada para a miséria, e ele concluiu que esse índice total é 12; quanto maior o número, maiores serão a pobreza e a miséria.

Outro exercício de Okun foi identificar qual taxa de aumento do Produto Interno Bruto (PIB) faz o desemprego diminuir um ponto porcentual. Embora seja difícil saber o valor preciso, a Lei de Okun diz que o PIB tem de crescer em torno de dois pontos porcentuais acima do crescimento potencial da economia.

No caso brasileiro, estima-se que o crescimento potencial do país gire em torno de 1,5% ao ano; logo, seria necessário crescimento de 3,5% do PIB para o desemprego ser reduzido em um ponto porcentual em relação à população economicamente ativa (aquela em condições de trabalhar).

O problema é que, dado o avanço da tecnologia, o mundo tem capacidade de aumentar a produção sem adição de mais trabalhadores, principalmente nestes tempos de máquinas ultramodernas e inteligência artificial. Sendo assim, é preciso continuar filosofando sobre a miséria para entendê-la e trabalhar para reduzi-la.

Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

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