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A linguagem não é apenas uma ferramenta de comunicação. Ela é também um instrumento de poder. O poder que emana da palavra e sobretudo do conjunto delas, expressado em frases afirmativas, interrogativas e imperativas, sempre foi o instrumento das formas de poder que dominaram o mundo ao longo dos tempos.
Uma das experiências de maior uso da palavra como ferramenta para mentir, enganar e dominar as pessoas e suas vidas se deu no chamado “Experimento Soviético e a Manipulação da Percepção”, pelo qual um grupo de cidadãos soviéticos foi submetido a um experimento linguístico sem que eles soubessem do que estavam sendo vítimas.
A coisa começou com o governo determinando que certas palavras deviam desaparecer do vocabulário cotidiano e serem substituídas por outras, cujo fim era produzir reações diferentes. Por exemplo, foram banidas palavras como “crise”, “fome” e “desigualdade”. Ali, o uso da linguagem a serviço da ditadura alcançou elevado nível de sofisticação.
Em jornais, publicações várias e discursos feitos pelo partido, a palavra “fome” foi substituída por “dificuldades temporárias no abastecimento”. Os gulags (prisões terríveis, desumanas, locais de torturas) passaram a ser chamados de “centros de treinamento profissional”. As execuções políticas viraram “ajustes para a estabilidade do povo”.
A manipulação da linguagem pelo abandono de certas palavras ou expressões e a introdução de outras em seu lugar obscurecem a mente das pessoas
O resultado desse experimento foi apavorante e aterrador. No caso da fome, quando pesquisadores soviéticos foram às ruas perguntar às pessoas se havia “fome” na URSS, muitos respondiam que não e diziam: “estamos apenas com algumas dificuldades”.
Comprovava-se ali que a manipulação da linguagem havia produzido o efeito de alterar a percepção do povo sobre a realidade, ainda que seus estômagos estivessem vazios. Com a palavra “fome” deixando de fazer parte do discurso, das leis e dos documentos públicos, o conceito começava a desaparecer na mente das pessoas.
Após pesquisas e estudos com método e experimentos práticos, a psicologia e a neurociência avançaram no entendimento de como funciona a mente humana. Não é por acaso que foi na Rússia, após a revolução socialista de 1917, onde mais essa prática foi adotada e mais a psicologia se desenvolveu.
Uma das conclusões é que a manipulação da linguagem pelo abandono de certas palavras ou expressões e a introdução de outras em seu lugar (sempre um eufemismo para minimizar ou substituir fatos) obscurecem a mente das pessoas e as levam a perder a dimensão da realidade e suas consequências.
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Mesmo em países com ditaduras menos truculentas, há dúvidas se o que as pessoas pensam, valorizam e acreditam ser justo ou injusto é construção da reflexão e análise individual ou é definido pelo governo, pelas leis e pela mídia, por meio da linguagem e das narrativas impostas.
Não é por acaso que o primeiro território que as ditaduras e os regimes opressores conquistam não é o físico: é o dicionário, as palavras e seu significado. Antônio Gramsci (1891-1937), filósofo comunista construtor da guerra cultural, dizia que a guerra pelo poder e dominação se ganha com as armas da cultura e dos argumentos, não dos fuzis.
Gramsci foi um mestre na arte de ensinar aos ditadores comunistas que eles deveriam dominar pela paciência e pelo convencimento por meio da palavra e dos argumentos incutidos na mente do povo. Um exemplo interessante dessa tática de Gramsci foi sua oposição à proposta de extirpar a igreja e a religião.
Quando propuseram que a religião fosse abolida e as igrejas fossem fechadas, Gramsci disse: “Não, não vamos acabar com a igreja. Vamos ingressar nela, esvaziá-la de seu conteúdo espiritual e religioso e transformá-la em porta-voz de nossa mensagem política revolucionária”.
O primeiro território que as ditaduras e os regimes opressores conquistam não é o físico: é o dicionário, as palavras e seu significado
Para tanto, Gramsci tinha toda uma teoria sobre a guerra cultural e sua estratégia, especialmente na construção das narrativas e da propaganda política. Neste ponto entra outra questão: o terrorismo semântico, que difere da simples manipulação da linguagem.
Para começar, é preciso definir semântica. De forma simplificada, semântica é uma parte da linguística que estuda o significado das palavras e a interpretação das frases e dos enunciados, bem como a evolução do sentido das palavras e símbolos usados na comunicação humana.
O terrorismo semântico difere da manipulação da linguagem por ser a prática deliberada de modificar o significado das palavras a fim de distorcer os conceitos e as realidades que elas representam, com o objetivo de influenciar a opinião das pessoas.
A manipulação da linguagem consiste em ajustar a narrativa, selecionar palavras estratégicas, disfarçar os fatos e usar eufemismos sem, entretanto, destruir toda a estrutura do pensamento e da conclusão derivada das palavras.
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Por sua vez, o terrorismo semântico é um artifício radical e demolidor dos significados pela destruição total da interpretação atual de determinada palavra ou conceito. Não se trata de esconder os fatos, mas reprogramá-los, inclusive reescrevendo e reeditando sua história, principalmente em relação a pensamentos abstratos.
Conceitos de liberdade, paz, justiça, trabalho, democracia, família e, mais recentemente, os conceitos de homem e mulher foram vítimas do terrorismo semântico. Essas palavras foram esvaziadas de seu significado original e preenchidas até mesmo com seu oposto, conforme os interesses da ideologia e do poder dominante.
Um exemplo perturbador de terrorismo semântico e reprogramação de conceitos fundamentais se deu com a palavra “mulher”, que durante séculos não precisou de explicação. A palavra “mulher” sempre teve seu significado óbvio para todo mundo como sendo um ser humano adulto do sexo feminino.
Indo mais direto ao ponto, nunca houve dúvida a respeito: se nasce com pênis, é homem; se nasce com vagina, é mulher. E isso nada tem a ver com a opção sexual, que é uma questão de foro individual de cada ser humano, que deve ser respeitada.
O terrorismo semântico, do jeito que está posto, tornou-se uma tirania moral que não requer canhões nem prisões, mas apenas dicionários
Nos últimos tempos, o terrorismo semântico vem tentando esvaziar a palavra “mulher” de seu significado, para transformá-la num conceito fluido, maleável, subjetivo e de difícil definição precisa.
Ficou famoso o caso de 2014 em que uma lutadora transgênero de MMA causou uma concussão e uma fratura na face de sua oponente. Ora, a constituição física, a força e os músculos da lutadora trans eram de homem; portanto, não era uma luta em igualdade de condições.
Conceitos históricos de palavras como justiça, paz, guerra, escravidão, liberdade, democracia, ciência, governo e Estado passam por grande confusão de significados, e isso nos tem levado ao erro de julgar o passado com palavras adulteradas pelo presente.
George Orwell disse que “quem define as palavras define o mundo”. O terrorismo semântico, do jeito que está posto, tornou-se uma tirania moral que não requer canhões nem prisões, mas apenas dicionários. E quem quiser simplesmente debater o assunto é logo vítima de ataque.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

José Pio Martins é economista. Atuou como Secretário do Planejamento de Londrina, Diretor Geral da Secretaria da Fazenda do Paraná, Vice-Presidente do Banco do Estado do Paraná, Presidente da Banestado Crédito Imobiliário e outros, professor de Macroeconomia, Microeconomia, Finanças Empresariais e Filosofia. É autor dos livros “Educação Financeira ao Alcance de Todos” e “Seu Futuro”. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



