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Platão (à esquerda) e Aristóteles (à direita), ao centro de detalhe do afresco “A Escola de Atenas”, de Rafael Sanzio.
Platão (à esquerda) e Aristóteles (à direita), ao centro de detalhe do afresco “A Escola de Atenas”, de Rafael Sanzio.| Foto: Wikimedia Commons

Uma prática estimulante é a busca de saber como era o mundo na antiguidade e como o ser humano e a sociedade evoluíram nos últimos 3 mil anos. Em tempo de existência de nosso planeta, 3 mil anos é um período curto, mas longo o suficiente para o ser humano ter evoluído desde a vida animalesca de racionalidade primária até o que somos hoje, com a complexidade da vida física, mental, econômica, política e social.

Se considerarmos que há apenas 200 anos não existiam anestesia, antibiótico, eletricidade, rádio, telefone, automóvel, avião, televisão, computador, internet... e que o primeiro trem de passageiros surgiu somente em 1825, a diferença entre o que é a vida humana hoje e o que era há 2 mil ou 3 mil anos é gigantesca, jamais imaginada pelo homem até recentemente.

Há duas perguntas sugestivas: 1. Como a humanidade entendia e explicava os acontecimentos e fenômenos naturais há 3 mil anos? 2. Como e quando se deu a forma científica de conhecer e explicar esses mesmos fenômenos? De forma meio simplista e sem precisão de data, até 2,6 mil anos atrás, os eventos do mundo – como o dia e a noite, o sol e a chuva, a luz e a escuridão, o frio e o calor, os ventos, os relâmpagos, as tempestades etc. – eram explicados pela mitologia.

A diferença entre o que é a vida humana hoje e o que era há 2 mil ou 3 mil anos é gigantesca, jamais imaginada pelo homem até recentemente

Mitologia é narrativa que explica eventos, fatos ou fenômenos atribuindo sua ocorrência a causas sobrenaturais, portanto, impossíveis de comprovação. Os mitos eram a prática de atribuir aos deuses ou entidades desconhecidas e invisíveis tudo o que há no mundo e nele ocorre. O mito não tem fundamento nem justificativa; logo, não se presta à crítica ou questionamento: é mera crença.

Foi por volta do ano 600 antes de Cristo que os gregos introduziram o pensamento filosófico-científico. A Grécia é o berço da ciência, isto é, a tentativa de entender a natureza, a vida e seus eventos pelo conhecimento sobre os próprios objetos observados ou sentidos. A ciência pressupõe o abandono das explicações mitológicas baseadas em entidades sobrenaturais criadas pela imaginação humana.

Esse movimento de conhecer a natureza observando e estudando a própria natureza teria começado no século 6.º antes de Cristo pelo filósofo Tales de Mileto. Porém, a sistematização da investigação filosófico-científica evoluiu fortemente com Platão (428-348 a.C), que se dedicou a organizar o problema do conhecimento por meio de quatro questões: Sobre a possibilidade do conhecimento: é possível conhecer o mundo e sua realidade? Sobre o método: quais passos e procedimentos levam ao conhecimento seguro? Sobre os instrumentos do conhecimento: o uso dos sentidos e da razão. E sobre o objeto do conhecimento: o mundo exterior, suas estruturas e funcionamento.

Sendo assim, é lícito dizer que, como esquema de estudar a natureza por experimentos e testes para conhecer sua lógica e os fenômenos naturais, a ciência é uma invenção grega. Aristóteles (384-322 a.C), no rastro de seu professor Platão, promoveu espetacular avanço na prática de observar, investigar e conhecer a natureza, seus fenômenos e manifestações.

Atribui-se a Giordano Bruno (1548-1600) a frase “se quer conhecer a natureza, consulte a natureza, não os deuses”. Se Bruno disse isso, ele repetiu Aristóteles quando este afirmou que a chave para a compreensão da realidade natural encontra-se na própria realidade, e não fora dela. Aristóteles tem um lugar especialíssimo no palco dos grandes gênios da humanidade ao organizar o discurso lógico racional e dar forma à teoria do argumento.

Um argumento é uma conclusão, afirmativa ou negativa, derivada de premissas. Se a conclusão guarda uma relação lógica e certa com as premissas, a conclusão está correta, é um argumento correto, embora isso não quer dizer que seja verdadeiro. O critério de “correção” é apenas a relação entre lógica entre premissas e conclusão. Porém, embora lógico, o argumento pode ser falso.

Se queremos melhorar o nível intelectual e cultural de nossos descendentes, a educação na família e na escola não deve abandonar a verdadeira filosofia e a ciência para dar lugar a invencionices que não substituem o ensino clássico que fez a humanidade progredir

Não custa repetir a primeira lição de iniciação à lógica. Se digo “todos os homens são mortais; Pedro é homem; logo, Pedro é mortal”, Há uma relação lógica entre a conclusão e as premissas, logo, a conclusão está correta e também verdadeira porque as premissas são verdadeiras. Mas se digo “todas as cobras voam; sucuri é uma cobra; logo, sucuri voa”, a conclusão está correta, porque se liga logicamente às premissas. Mas é uma conclusão falsa, pois a primeira premissa é falsa: cobras não voam.

Ano passado, assisti ao curso Filosofia do Direito, do professor Dalton Oliveira (são 20 aulas de 15 minutos cada, disponíveis no YouTube gratuitamente), relacionei suas aulas com os ensinamentos da filosofia vinda da Grécia desde 400 anos antes de Cristo e pensei na beleza do pensamento científico que ali começou e chega até nossos dias estampado nos feitos das várias ciências.

Ao mesmo tempo, pensei também na angústia dos intelectuais (como o professor Dalton) e no atraso cultural resultante da falta de lógica e da pobreza de argumentos lançados em nossa face todos os dias por variadas instâncias políticas e institucionais, na voz de seus atores. Se queremos melhorar o nível intelectual e cultural de nossos descendentes, a educação na família e na escola não deve abandonar a verdadeira filosofia e a ciência para dar lugar a invencionices que não substituem o ensino clássico que fez a humanidade progredir.

Conteúdo editado por:Marcio Antonio Campos
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