O presidente dos EUA, Joe Biden, faz comentários sobre a economia nacional no State Dining Room da Casa Branca em 05 de fevereiro de 2021 em Washington, DC. Imagem ilustrativa.
O presidente dos EUA, Joe Biden, faz comentários sobre a economia nacional no State Dining Room da Casa Branca em 05 de fevereiro de 2021 em Washington, DC. Imagem ilustrativa.| Foto: Stefani Reynolds-Pool/Getty Images/AFP

A Casa Branca divulgou nesta semana as orientações “provisórias” para a estratégia de segurança nacional dos Estados Unidos. O Brasil não existe. O bom nisso é que, aos olhos dos americanos, não somos um problema. O péssimo é que os Estados Unidos parecem não terem percebido o papel estratégico do Brasil para os vários outros desafios que são citados no documento de 24 páginas. Segunda maior economia e democracia do continente, o Brasil não poderia ficar de fora de nenhuma equação que se defina estratégica e que foque a preservação de princípios próprios do Ocidente. Antes que alguém comece a papaguear a história nascida na Embaixada da China em Brasília de que tudo que dá errado no mundo é culpa da condução da política externa brasileira, o Brasil não está sozinho.

O primeiro documento da administração Biden, que trata de pontos chaves para o seu governo, a segurança dos americanos e a estabilidade dos Estados Unidos, ignora a América Latina. A única menção está na página dez. No último parágrafo. Em poucas linhas, a administração Joe Biden avisa que vai focar no México e América Central. Na realidade, nada surpreendente comparado com a estratégia que vinha sendo desenhada pelo antecessor. A Casa Branca fala em investir 4 bilhões de dólares na região para mitigar os efeitos da pobreza e da violência como forma de melhorar a vida dos centro-americanos e consequentemente reduzir a imigração ilegal para os Estados Unidos. Estratégia já tratada por esta coluna.

A Venezuela, de Nicolás Maduro e suas máfias, que foi uma pauta dominante na administração anterior – e, diga-se de passagem, daninha para América Latina – sequer aparece nas entrelinhas do documento. Cuba? Argentina, Chile ou Colômbia? Nada. Nada. Nada.

O tráfico de drogas que nutre os cartéis mexicanos e as gangues centro-americanas não aparece no documento. Como se a onda de imigração ilegal que tem produzido, entre os vários problemas advindos da fronteira sul, as caravanas, não fosse um efeito direto da violência que tem a cocaína como seu combustível.

O documento da Casa Branca parece ter saído de uma máquina do tempo. Repete a forma como o primeiro mandato de Barack Obama olhou (ou não) para a região. Por questão de justiça, George W. Bush deu o pontapé inicial no erro estratégico de negligenciar a América Latina, pensando que as fontes de todos os problemas do mundo eram o Oriente Médio, Saddam Hussein e os radicais do Taleban. Foi nesse descuido que a China avançou sobre a América Latina, desbancando os Estados Unidos da posição de liderança nas relações comerciais na região e aumentando, em seguida, o poder de influência e cooptação.

A administração Biden reconhece que China e Rússia são mais que as maiores ameaças aos interesses dos Estados Unidos, mas à estabilidade global. E neste ponto, o comunicado eleva o tom e a temperatura na relação com chineses e russos. Biden fala claramente em força militar para barrar as ações “assertivas” e “desestabilizadoras” de Pequim e Moscou. Para isso, ele citou o incremento do orçamento de Defesa e a modernização de leis e arsenal que permitam os Estados Unidos estarem de prontidão contra as novas ameaças. Para quem duvidava da Guerra Fria 2.0, o documento é uma oportunidade de revisão de conceitos.

O documento de segurança nacional menciona questões de igualdade racial, direitos LGBTQI, energias limpas e mudanças climáticas. Este último tema, por sinal, ocorre três vezes mais no documento que o terrorismo e sete vezes mais que os convulsionados Oriente Médio, Irã e Coreia do Norte.

Entre as várias referências às mudanças climáticas, os americanos falam em cooperar para enfrentar os efeitos regionais. E aqui se encontra o Brasil. Especificamente a Amazônia.

Biden e sua vice, Kamala Harris, nunca esconderam o que pensam sobre a floresta e o que querem fazer. Em um debate com o então presidente Donald Trump, Biden ameaçou o Brasil com sanções caso não parasse a devastação da floresta. No mesmo evento, ele falou em um fundo bilionário para financiar a tal preservação.

Em Brasília, a fala do então candidato gerou indignação. Agora, que Biden e sua intenção de pressionar o Brasil pela Amazônia são uma realidade, o governo acena positivamente para receber a fortuna para proteger a Amazônia. Um engano que tem potencial de repetir em escala superlativa o equívoco que foi o “Fundo Amazônia”.

O mundo anda maluco e, portanto, nada mais é impossível. Mas é extremamente improvável que os Estados Unidos entregarão o dinheiro para o governo brasileiro fazer o que bem entender para montar um projeto de preservação e desenvolvimento da maior floresta tropical do planeta e onde vivem cerca de 30 milhões de pessoas.

A história ensina que vem aí mais um fundo para financiar o mais do mesmo que foi realizado na Amazônia. Desenvolvimento sustentável baseado em extrativismo e a miragem da remuneração por desmatamento evitado. Posso estar errado. Torço por isso.

A mesma história nos conta que recursos provenientes de fundos predominantemente irrigam as contas de ONGs que usam o dinheiro para manter projetos que em mais de três décadas de movimento socioambiental não foram capazes de barrar o desmatamento e melhorar os indicadores sociais da região, que estão entre os mais baixos do Brasil.

Não há fundo no mundo capaz de competir com a remuneração proporcionada pela atividade econômica. O Brasil, ao invés de embarcar em mais uma iniciativa placebo, que em muitos casos banca campanhas contra o próprio Brasil, deveria chegar à mesa de negociações com outra mentalidade. Convidar os americanos a fazerem parte de um profundo programa de mudança da matriz econômica da região.

O extrativismo de que ser mantido como atividade de nicho, para populações tradicionais que realmente queiram viver da coleta e da produção florestal. A Amazônia precisa de CNPJs, empresas limpas, produção de tecnologia e biotecnologia. Parques industriais repletos de indústrias sem chaminés. Não há salvação para a Amazônia que não passe pelo bem-estar dos amazônidas.

O que nos impede de ao invés de pedir dinheiro sugerir a Biden que nos ajude a atrair empresas para região. Por exemplo, a Intel tem uma fábrica de chips na China. A Microsoft produz seus celulares por lá. Ambas as empresas possuem fundações que destinam dinheiro para ONGs que operaram na região. Imagine a diferença que fariam se parte desta produção se desse na Amazônia? O Brasil pode se esforçar para isso. Biden pode ajudar com isso. Mas seguimos acreditando em fundos.

A floresta em pé tem um limite na sua capacidade de geração de riquezas. Por esta razão, ela precisa ser esquecida como tal e preservada. Há na região terra nua suficiente para expandir a produção. Energia elétrica, rios navegáveis, portos e aeroportos quase abandonados.

Não adianta o Brasil esperar uma estratégia para solução de seus problemas desenhada a partir de Washington. Nem a Casa Branca nem a maioria dos lobistas e ativistas das ONGs que dão as cartas a partir da capital americana têm a menor ideia do inferno que é viver na precariedade amazônica ou a vontade de olhar a região para além de seus serviços ambientais. A política de Segurança Nacional dos Estados Unidos é uma amostra de como ainda somos invisíveis em nossas necessidades e no tabuleiro global. Ou o Brasil é propositivo agora, ou o Brasil, mais uma vez, vai embarcar em mais um mito amazônico.

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