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O secretário-geral da ONU, António Guterres, brinca com um grupo de crianças durante ato em comemoração dos cinco anos do acordo de paz entre as Farc e o governo colombiano, em Bogotá
O secretário-geral da ONU, António Guterres, brinca com um grupo de crianças durante ato em comemoração dos cinco anos do acordo de paz entre as Farc e o governo colombiano, em Bogotá| Foto: EFE/Mauricio Dueñas Castañeda

As Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia Exército do Povo (Farc) surgiram nos anos 1960 com o objetivo de tomar o poder na Colômbia e implantar por lá um regime comunista.

As Farc se originaram no mesmo caldo de cultivo no qual se multiplicaram as organizações de esquerda armada que se alastraram na América Latina, inclusive no Brasil. Mas as Farc atingiram dimensões superlativas. Capitalizada pelo controle do tráfico de cocaína, sequestros e extorsões, a organização tomou dimensões de um exército e partiu para guerra.

A organização chegou a ter o controle de cerca de 40% do território colombiano e os seus atos de terrorismo e conflitos deixaram um saldo de mais de 260 mil mortes. Em 2016, o grupo assinou um acordo de paz e nos meses seguintes iniciou um processo de desmobilização. Entregou as armas, trocou de nome para Força Alternativa Revolucionária do Comum, mantendo, assim, o mesmo acrônimo Farc. O ex-presidente Juan Manuel Santos ganhou um Nobel da Paz.

Nesta semana, a imprensa americana postou relatos de fontes do Congresso dos Estados Unidos que afirmam que a Casa Branca enviou para o Senado um pedido para que as Farc sejam retiradas da lista de organizações terroristas. Algo que ainda carece de confirmação, mas faz todo sentido dentro da política de esforços da administração Biden de virar as páginas. Veja o caso do Afeganistão, às vésperas do 20º aniversário dos atentados de 11 de Setembro.

Biden escolheu outra efeméride: o quinto ano de assinatura dos acordos de paz na Colômbia. O que em tese faz todo sentido. Se as Farc entregaram as armas e são hoje um partido formal na Colômbia, não há por que ter o nome deles na lista. Mas a realidade coincide com a vontade?

Mas as Farc deixaram de existir? A resposta mostra o descompasso entre Inteligência e política. Algo que tem se demostrado crônico no mundo e potencialmente explosivo, como se comprovou na trágica saída dos Estados Unidos do Afeganistão.

As Farc nunca deixaram de existir. Elas evoluíram para um nível muito mais eficiente de luta. Depois de meio século tentando conquistar o poder por meio da força, se viram diante de uma ameaça real à sua existência. Estavam prestes a perder militarmente. Em 2012, a área de cultivo de coca sobre o controle das Farc havia sido reduzida à metade do medido 12 anos antes e a produção de cocaína havia caído 75%, apesar de todo o apoio que o então presidente venezuelano havia dado para reequipar e ajudar a distribuir a droga colombiana pelo mundo.

Antevendo o fracasso, as Farc se jogaram em um acordo de paz no qual elas deram as cartas. A principal delas foi exigir do governo Santos o fim da erradicação forçada de cultivos de coca e a aspersão de desfolhantes sob o argumento de que o químico polui rios e o solo. O governo colombiano mordeu a isca. Em 2016, quando selaram a paz, apenas quatro anos depois, as áreas com plantações de coca tiveram um crescimento de 141%.

As Farc foram formalmente para política, ocupando cadeiras no parlamento e até concorrendo à presidência, deixando as engrenagens do negócio lubrificadas. Rodando com perfeição nas mãos do que convenientemente é chamado de “dissidências” por todas as partes envolvidas no plano de paz.

Sem disparar um tiro, as Farc foram para a política formal e mantiveram o negócio – em tese nas mãos de uns radicais que não aceitaram a paz.

A retirada do nome das Farc da lista de organizações terroristas tem um efeito simbólico. Os Estados Unidos, principais aliados da Colômbia, estariam finalmente atestando o fim da organização. Algo importante, mas com o potencial de dar às novas Farc, as que se apresentam como partido, mais instrumentos para operar de forma ostensiva em seus planos que nunca foram abandonados, que são o de conquistar o poder e conduzir a Colômbia ao comunismo.

E esqueça o blá-blá-blá de paranoia. As Farc são o que são e se definem assim. Goste-se ou não.

São donas de uma verdadeira fortuna, que jamais voltou para os cofres públicos colombianos ou foi devolvida para as vítimas das pilhagens do grupo. Estimativas de 2013 indicavam mais de US$ 10 bilhões. Sem as restrições legais que advêm de uma designação como organização terrorista, as Farc terão um espaço infinito para operar com impacto não só na Colômbia, mas em toda a região.

As chamadas dissidências controlam a produção de cocaína e de maconha que abastece o Norte e parte do Nordeste brasileiro. Elas trabalham diretamente com o provimento de drogas para organizações como a Família do Norte (criada no Amazonas) e o Comando Vermelho.

Como consequência do novo modelo de negócio, as Farc promoveram uma redução significativa de seus efetivos. Com o fim dos confrontos com o Estado colombiano, seus combatentes ficaram desempregados e se converteram em uma massa com carência financeira e proficiência superlativa para ser cooptada pelo crime organizado não só dentro da Colômbia, mas no Brasil.

Há uma carência de estudos sobre o impacto dos ex-combatentes na mudança no padrão de violência na região, mas já são conhecidas as suas marcas sobretudo nos estados amazônicos, onde o crime foi redesenhado pela luta de facções e pela presença desses órfãos das Farc.

É difícil prever os impactos da medida do governo americano. Mas os sinais não dão esperança de que serão positivos. Não há a menor chance.

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