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Leonardo Coutinho

Leonardo Coutinho

Brasil, América Latina, mundo (não necessariamente nesta ordem)

O rastro químico da cocaína

Colômbia: um país envenenado

Laboratório de processamento de folhas de coca no Vale de Guamuez, na Colômbia. (Foto: Carlos Ortega/EFE)

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A defesa da legalização da cocaína costuma nascer de uma premissa cruel: a de que o consumo seria apenas uma escolha individual. Um adulto decide o que faz com o próprio corpo, o Estado regula, arrecada impostos, os traficantes perdem mercado e a violência desaparece. A teoria parece perfeita. A realidade, não.

O presidente da Colômbia, Gustavo Petro, já disse que a cocaína não seria pior que o whisky. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em uma frase da qual depois tentou se explicar, afirmou que traficantes seriam vítimas dos usuários. As duas declarações partem do mesmo erro: tratam a droga como se ela fosse apenas uma substância consumida por alguém, e não uma cadeia de destruição que começa muito antes da venda e continua muito depois do uso.

O estudo “Contaminação Invisível”, do Center for a Secure Free Society, organização que dirijo em Washington, D.C., traz alguns elementos incômodos para os defensores da liberação das drogas. Nossa pesquisa analisou amostras de água coletadas em doze cidades colombianas e encontrou traços de cocaína na água após tratamento nas principais cidades colombianas.

A cocaína foi detectada em Bogotá, Cali, Cartagena, Popayán e Quibdó. Também apareceram nos resultados acetona, metanol, amônia, diesel e gasolina em diferentes pontos de coleta.

A água que milhões de colombianos estão ingerindo é um coquetel químico que sai das zonas de refino, viaja por centenas de quilômetros de rios e chega ao copo de milhões de pessoas

Não se trata de epidemia de envenenamento agudo. A gravidade está justamente em outro ponto: a presença desses compostos revela uma exposição involuntária, residual, contínua e difusa. É a química do narcotráfico entrando na rotina de pessoas que nunca escolheram participar dela. A cocaína não deveria estar presente na água.

O estudo oferece números que desmontam qualquer tentativa de romantizar a cocaína como produto recreativo. A produção potencial colombiana chegou a 2.664 toneladas métricas em 2023, segundo a ONU. Para cada quilo de cocaína, estima-se a geração de aproximadamente 320 litros de rejeitos químicos. Só de gasolina, um dos insumos centrais na obtenção da pasta base das folhas de coca, o cálculo conservador usado pelo relatório aponta para 284 litros por quilo produzido.

Projetado sobre a produção potencial colombiana, isso significaria cerca de 756 milhões de litros de gasolina mobilizados em um ano pela economia da cocaína. Essa gasolina é misturada com ácido sulfúrico, solventes, acetona, metanol, amônia, cal, cimento, permanganato e outros compostos descartados sem tratamento em solos, rios e córregos.

A Colômbia já sabia, ou deveria saber, que esse problema existia. Estudos oficiais do IDEAM, órgão ambiental do próprio governo colombiano, já haviam tratado os cultivos ilícitos e a transformação da coca como fontes relevantes de pressão sobre a qualidade da água. O Estudo Nacional da Água de 2022 estimou, com base em dados de 2020, o uso de 326 mil toneladas de substâncias químicas nos processos de transformação da coca, quase todas formadas por solventes orgânicos.

Isso significa que a contaminação não é uma hipótese alarmista de laboratório. É uma pressão ambiental reconhecida pelo Estado, agora confirmada por medições que chegaram até a água consumida pela população.

Os resultados por cidade tornam a abstração ainda mais incômoda. Na capital Bogotá, a água pós-tratamento apresentou cocaína, metanol, acetona e amônia acima dos valores toleráveis. Em Medellín, a amônia livre no pós-tratamento também apareceu acima dos parâmetros. Em Montería e Florencia, o metanol superou o valor de referência.

Amônia, metanol e hidrocarbonetos podem impor uma carga química crônica sobre fígado, rins, sistema nervoso e infraestrutura de distribuição de água. O risco não é o espetáculo da intoxicação fulminante. É a normalização de uma pressão metabólica desnecessária, silenciosa e permanente, na qual crianças são as mais vulneráveis.

Quando deparamos com esses números, a comparação que o presidente Petro fez entre o whisky e a cocaína desaba. Uma garrafa legal de bebida alcoólica pode gerar dependência, acidentes e danos à saúde pública. Mas ela não exige, para chegar ao consumidor, a tomada armada de territórios, o descarte clandestino de solventes em rios, o financiamento de grupos que desafiam o Estado, a captura de comunidades inteiras e a construção de redes transnacionais de precursores, lavagem de dinheiro e corrupção.

A pergunta não é se a cocaína mata mais ou menos que outra substância. A pergunta é quantas pessoas, ecossistemas e instituições precisam ser sacrificados para que ela chegue ao nariz de alguém. A resposta para isso não está na legalização. A droga seguiria sendo feita nas mesmas condições para atender às demandas e manter o preço.

O caso colombiano também não é isolado. No Brasil, estudos já identificaram cocaína e benzoylecgonina — que vem a ser o resultado da metabolização da droga — no Rio Negro e em igarapés urbanos de Manaus, além da Baía de Santos. Pesquisadores da Fiocruz detectaram cocaína e seu metabólito em tubarões capturados na costa do Rio de Janeiro. Na Suécia, estudo recente com salmões do Atlântico indicou alterações de movimento em peixes expostos à cocaína e à benzoylecgonina.

A droga não desaparece depois do consumo. Ela continua circulando no esgoto, nos rios, no mar, nos animais e, em alguns casos, na água que volta para a mesa

Por isso, a tese da “livre escolha” é incompleta e moralmente preguiçosa. O usuário muitas vezes não é livre; é refém da dependência, da dor, do abandono ou da degradação social. Mas a sociedade também é vítima quando cartéis transformam essa vulnerabilidade em impérios armados e químicos.

O traficante não é vítima do usuário. É empresário da destruição. E a cocaína não é apenas o produto de um mercado ilegal. É a síntese de uma cadeia que contamina territórios, compra autoridades, destrói comunidades e agora deixa marcas até na água potável.

A legalização promete tirar o poder dos criminosos. Antes de repetir esse dogma, porém, seus defensores precisam responder a perguntas que quase sempre evitam. Quem produzirá a cocaína? Em quais territórios? Com quais químicos? Sob qual fiscalização ambiental? Como impedir que mercados legais e ilegais convivam, como já ocorre em tantas economias reguladas e capturadas? Quem pagará pela descontaminação dos rios, dos solos e dos sistemas de abastecimento? E que autoridade moral terá o Estado para transformar em mercadoria aquilo que já deixou uma pegada química na água de milhões?

“Contaminação Invisível” mostra que o narcotráfico é uma agressão difusa. Não atinge apenas quem compra, vende ou consome. Ele entra no solo, nos rios, na comida, na infraestrutura urbana e no organismo de pessoas que jamais participaram dessa escolha. Quando uma criança bebe água com cocaína, não há liberdade individual em jogo. Há uma população inteira pagando a conta de uma indústria criminosa global.

O estudo mapeia ainda a complexa rede de precursores químicos, que são os ingredientes sem os quais não seria possível fazer a cocaína. A maior parte dos insumos é produzida na China, que se abstém de aplicar os controles necessários para fiscalizar as vendas. Na outra ponta, aqui deste lado do mundo, países como Brasil, Venezuela e Equador funcionam como portos de passagem para ocultar as redes logísticas que abastecem os cartéis. Esquentam a operação, provendo a cobertura necessária para o fluxo dos químicos que depois serão exportados, formalmente ou não, para a Colômbia.

Por trás de cada grama aspirada de cocaína ou fumada em forma de crack há um rastro de contaminação que os ambientalistas não veem, os países produtores ignoram e ao qual pessoas que jamais pensaram um dia ter contato com a cocaína estão expostas.

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