Ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo. Imagem ilustrativa.
Ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo. Imagem ilustrativa.| Foto: Itamaraty/Divulgação

Na semana passada, esta coluna tratou de guerras. Tipos de conflitos negligenciados que, por não serem travados no campo convencional, quase nunca são percebidos. A tão falada assimetria, conceito já carcomido pelo mau uso, já não explica sozinha as modalidades de conflitos e como eles se desenvolvem e como podem nos afetar. O não entendimento da natureza dos conflitos atuais e a negligência diante deles são fatais. São a maior fragilidade que um país pode ter sobre um oponente. Seja ele interno, ou externo. Por causa desse vazio, talvez seja útil informar uma coisa: nós estamos em guerra.

Por coincidência (tendo a crer que foi só uma coincidência), quando Hugo Chávez chegou ao poder em 1999 inaugurando um período de instabilidade e conflito constantes sem precedentes na história recente da América Latina, os militares chineses publicaram um livro que é interpretado como uma espécie de manual para a estratégia de poder e influência da China. O título já diz tudo: “Guerra sem limites”. Os militares chineses apresentaram uma rota que a China percorreu para chegar até aqui e ir além.

Seus autores são explícitos em preconizar que para compensar o atraso chinês em relação aos seus concorrentes e adversários, o regime deveria abolir qualquer coisa que pudesse vir a ser um limite estratégico. A principal barreira é o fim da diferenciação dos objetivos civis e militares, bem como a total fusão dos recursos civis e militares. Na China que emergiu há vinte anos não há separação absolutamente sobre nada. O poder central exercido em consonância com os interesses do Partido Comunista não rompeu todas as barreiras em prol de um objetivo comum. As ambições chinesas.

Em Guerra sem limites, os autores Qiao Liang e Wang Xiangsui prescrevem os tipos de guerras que eles recomendam como sendo fundamentais para serem combinadas contra os inimigos: “guerra atômica, guerra diplomática, guerra financeira, guerra convencional, guerra comercial, guerra bioquímica, guerra de inteligência, guerra de recursos, guerra ecológica, guerra psicológica, guerra econômica, guerra espacial, guerra tática, guerra regulatória, guerra eletrônica, guerra de contrabando, guerra de sanção, guerra de guerrilha, guerra de drogas (narcotráfico), guerra de meios de comunicação social, guerra de terror (terrorismo), guerra virtual (dissuasão), guerra ideológica”. Como se vê, em nenhum momento eles falam em soldados marchando sobre o território inimigo.

Por favor, releia a lista de modalidades de guerra prescritas. Reconhece alguma coisa que possa estar sendo empregada justamente agora contra o Brasil?

Qiao e Wang deixaram claro que nenhuma dessas modalidades necessariamente tem de ser adotada em separado. Elas podem (e devem) ser combinadas entre si de acordo com as necessidades estratégicas ou as condições do momento. Como a China não é uma democracia, o Partido Comunista Chinês pode simplesmente tudo e a receita de Guerra sem limites cai como uma luva. O regime não tem amarras de poderes independentes. Não existe Legislativo ou Judiciário que equilibre as ações do Estado, ou do poder central.

Ou como certa vez disse o presidente chinês Xi Jinping: “Por que a China pode manter a estabilidade a longo prazo sem o caos? A razão fundamental é que sempre aderimos à liderança do Partido Comunista”. Na China, nada acontece em desacordo com os interesses do partido. Como ninguém enche o saco, a harmonia é garantida.

Imagine como seria fácil a vida de qualquer um dos presidentes dos Estados Unidos ou até mesmo do Brasil sem Legislativo e Judiciário para vetar, apontar problemas ou simplesmente sabotar. Imagine como seria uma belezura apenas notícias positivas na imprensa? Pode parecer o cenário ideal, mas não é. Isso se chama totalitarismo.

Por total ausência de freios, a China faz o que quer. O regime pode se comportar como uma organização terrorista, um cartel de drogas, uma organização hacker ou máfia (para citar apenas alguns exemplos) sem oxidar a sua imagem de país formalmente constituído, reconhecido e poderoso. Muito poderoso.

A China (ainda) não é a maior economia do mundo, tampouco a principal potência militar. Mas, sem dúvida, pela total ausência de limites em suas ações, a China já é a maior força em ação no mundo. Um rolo compressor contra o qual o Ocidente, principalmente os Estados Unidos, e seus check and balances são incapazes de fazer frente.

Estamos perdendo a guerra contra a China (reafirmo: há uma guerra em curso) pelo simples fato de que estamos batalhando em uma guerra errada.

No Brasil, a desenvoltura com que os chineses caminham entre os poderosos é a maior prova.

Lá atrás, quando o esforço era nos conquistar por exportações de soja e carne, o Brasil era visto – mais do que isto, se comportava – como uma grande fazenda. Foram dez anos. Exatos dez anos como maior parceiro comercial do Brasil para sacar da manga a “posição estratégica” para o “pode tudo” vigente no Brasil.

Jair Bolsonaro, ainda na campanha, ameaçou arrefecer a relação com a China. Falou, falou, falou. Os chineses não esperaram para ver. Fizeram. Vieram para cima, mudando o tom da abordagem. Conquistaram os think-tanks, uma dúzia de acadêmicos e políticos. Quando o filho do presidente comparou corretamente, mas de maneira inadequada, Wuhan com Chernobyl, a China encontrou o momento adequado para dar o bote.

Embalada pelo antibolsonarismo, a estratégia chinesa tomou dimensões superlativas. Não precisa muito treinamento ou boa-vontade para identificar os seus porta-vozes que logo emergiram para defender o grande parceiro que nos tiraria do caos. A quantidade de diplomatas aposentados, colunistas e acadêmicos escalados para o pelotão de frente já mostrava que a batalha não era para ser entregue aos recrutas.

O chanceler Ernesto Araújo, que pode ter a cabeça entregue em uma bandeja de prata na SES Avenida das Nações, Quadra 813, Lote 52, em Brasília, passou os dois últimos anos se desgastando em uma luta que ele escolheu como sendo prioritária para as relações externas do Brasil, que era a vitória contra o globalismo.  Enquanto se distraia com o inimigo errado, o que os militares de Nicolás Maduro já chamavam em seus ensaios militares de força multipolar avança conquistando espaços estratégicos e minando o governo. A tal “força multipolar”, ensinam os venezuelanos, é um verdadeiro rolo compressor composto por países e organizações com interesses comuns que, por conveniência, se unem para alcançar seus objetivos.

Araújo não é o único. Ele virou o bode expiatório de um governo inteiro. Enquanto mirava o Foro de São Paulo como problema, o Palácio do Planalto parece não ter entendido que os velhotes da esquerda brasileira são proxies. Peças de uma estratégia hoje liderada e financiada pela China e seus aliados com o objetivo de fincar para sempre a sua bandeira na região.

O Foro de São Paulo não existe? Não é isso. O que o governo Bolsonaro não entendeu é que o FSP não era o inimigo, apenas uma frente “guerrilheira”.

A China sabe que o Brasil pode ser muito mais que uma fazenda. E por isso colocou em prática seu avanço silencioso sobre o Brasil. Neste paper de 2019, há um pouco de informação sobre esta conquista.

Com as aspirações pelo 5G parece que tudo ficou mais claro. Mas ainda não. Com as portas fechadas nos Estados Unidos, Japão, Coreia do Sul, Austrália, Reino Unido e possivelmente na Itália e Alemanha, a Huawei parece não ter saída a não ser jogar pesado na terra onde tudo dá.

E tem dado. Dado certo.

Em janeiro, a China descaradamente usou a CoronaVac como instrumento de chantagem para tirar da gaveta o edital das redes 5G garantindo a participação de sua empresa, a Huawei. Ainda ganhou a visita de ministros estrelados, sob a liderança de Fábio Faria, do PSD, o mesmo partido de Gilberto Kassab, conhecido entusiasta dos chineses e divulgador de sua tecnologia 5G.

Deu tão certo que resolveram pedir mais. Seus emissários têm enviado mensagens ao governo pedindo declarações e gestos favoráveis em troca de vacinas e sossego.

Os chineses podem tudo. Mas só estão podendo porque tem dois tipos de ajuda. O governo Jair Bolsonaro cometeu erros seriais. Ou não entendeu a guerra que estava lutando ou foi para batalha com informações intencionalmente manipuladas entregues por traidores. Perdeu terreno. Abriu flancos. Ficou encurralado. O outro tipo de ajuda. Pois bem, acho que que só o RH da Embaixada da China em Brasília tem a dimensão completa.

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