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O fosso americano
| Foto: Leonardo Coutinho

Trinta e cinco passos separam uma margem da outra da Avenida Wisconsin, que passa em frente ao hospital militar Walter Reed, no subúrbio de Washington, D.C.

E apenas trinta e cinco passos separavam a aglomeração de jornalistas que trabalhava na cobertura da internação do presidente Donald Trump de uma outra aglomeração bem animada, que do outro lado manifestava seu apoio a Trump.

Sob tendas e sentados em cadeiras, os repórteres observavam do outro lado um pessoal bem esquisito para os padrões washingtonianos: eleitores de Donald Trump. A capital americana é uma bolha democrata. Até 1961 seus moradores eram impedidos de votar para presidente. Em 1964 eles estrearam ajudando a eleger Lyndon Johnson. Desde então, nas treze eleições seguintes, os eleitores de Washington sempre votam nos candidatos do partido Democrata.

Para se ter uma ideia de como os republicanos são minoria na capital, o democrata que menos ganhou votos no Distrito de Columbia foi Jimmy Carter (1980), com 74,9% dos votos. Um massacre sobre seu oponente Ronald Regan que levou apenas 13,4% dos votos da capital, mas mesmo assim ganhou a eleição.

A preferência pelo partido de Joe Biden não parou de crescer e, desde a primeira vitória de Barack Obama (2008), com 92,5% dos votos, democratas nunca deixaram de receber ao menos 9 em cada 10 votos registados em Washington.

Mesmo na cidade de Nova York, onde os democratas reinam desde as eleições de 1928 vencendo todas as corridas presidenciais com vantagens colossais, há um pouco mais de diversidade; lá, nos últimos vinte anos, o partido Democrata obteve uma média de 76,7% dos votos.

Militar pelo partido republicano em Washington é absolutamente surreal. Fazer isso por Donald Trump é ainda mais esquisito. É quase coisa de alienígena.

Trinta e cinco passos separavam os repórteres dos apoiadores de Trump, mas quando estive lá, na portaria do Walter Reed, sai como a impressão que, se tratando do contexto local, algumas dezenas de passos são uma alegoria que representa uma fenda muito mais ampla e profunda.

Eram apenas trinta e cinco passos para os jornalistas aproveitarem a oportunidade de estar com aquela gente esquisita. Alguns com visual de cowboys, outros como o nome do presidente impresso no boné e camiseta. Muitos cobertos de adesivos e vários ordinariamente vestidos. Tão comuns que pareciam curiosos perdidos carregando seus filhos como quem passeia pelo zoológico. Como alguém pode votar e amar um ser tão desprezível como o presidente Trump? A resposta poderia começar a ser buscada logo ali, bastavam trinta e cinco passos. Mas o melhor é ver os malucos de longe. Bem de longe.

Em 2016, com a eleição no papo segundos os institutos de pesquisas, a então candidata Hillary Clinton abriu o coração e disse que metade dos eleitores de Trump eram pessoas deploráveis por serem, entre tantas coisas, repugnantes, nazistas, racistas e misóginos, exatamente como no vídeo de humor que virou viral na eleição passada e que voltou a circular neste ano para lembrar quem são os eleitores republicanos. Mas Trump venceu em 2016. Washington não entendeu. Os jornalistas não entenderam. Os democratas tampouco.

Os mesmos que não deram trinta e cinco passos para não se misturar com os trumplovers justificam terem feito o dever de casa ao percorrer a América esquecida que elegeu Donald Trump. Destinos bem decaídos como o pobre Estado de West Virginia ou o falido Cinturão da Ferrugem, ex-região industrial americana que virou pó com a transferência das cadeias de produção para China, a partir dos anos de 1980.

O mapa eleitoral do Estado de Nova York, por exemplo, mostra que em 2016 não era preciso ir muito longe de Manhattan para encontrar as respostas. Fora da ilha, o comportamento dos eleitores era muito diferente.

Se não fosse a pandemia da covid-19 Trump passearia tranquilamente pela campanha até a reeleição. Os efeitos sobre a economia e os equívocos do republicano custaram-lhe fatias importantes do apoio. A peste vitaminou a candidatura de Biden que, segundo todas os prognósticos, deve vencer.

A eleição de 2016, entretanto, mostrou que tais previsões não são lá tão precisas. Afinal elas são amadurecidas nas politicamente monolíticas Washington e Manhattan. E assim, “inexplicavelmente”, Hillary Clinton perdeu para uma América de gente esquisita e desprezível.

Chegamos a 2020 e a disputa não estão está resolvida. Em caso de vitória de Trump, boa parte do mundo, que enxerga os Estados Unidos por meio da mesma lente de 2016, vai novamente se assombrar. “Como é possível?”. Mas se Biden vencer, tudo bem. A vida volta ao normal. Os esquisitões continuaram lá esquecidos. Bem longe, distantes trinta e cinco passos.

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