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Aiatolá Khamenei, o presidente Hassan Rouhani e o novo chefe das Forças Quds Esmail Gaani em cerimônia em homenagem ao general Qasem Suleimani em Teerã, Irã, 9 de janeiro de 2020
Aiatolá Khamenei, o presidente Hassan Rouhani e o novo chefe das Forças Quds Esmail Gaani em cerimônia em homenagem ao general Qasem Suleimani em Teerã, Irã, 9 de janeiro de 2020| Foto: Khamenei / AFP

Na semana que vem, os argentinos relembrarão o quinto aniversário do assassinato do procurador federal Alberto Nisman, que era o chefe das investigações do atentado cometido contra a Associação Mutual Israelita de Buenos Aires (Amia), em 1994. O corpo sem vida de Nisman foi encontrado por sua mãe no chão do banheiro, sobre uma poça de sangue já coagulado que vertera do orifício provocado por uma projétil calibre .22 que entrou em um ângulo descendente por trás da orelha dele e ficou alojado em seu cérebro.

Quatro dias antes de sua execução – em um operação complexa, que jamais poderia ter sido executada sem a participação de profissionais ou do Estado ou de Estados (como me descreveu um oficial argentino) – Nisman apresentou à Justiça de seu país uma denúncia contra a então presidente Cristina Kirchner. O procurador acusou-a de fazer parte de uma conspiração que tinha por objetivo encobrir as responsabilidades do Irã no atentado terrorista que resultou na morte de 85 pessoas e deixou mais de 300 feridos.

Segundo as provas reunidas por ele, Buenos Aires e Teerã formalizaram um acordo de cooperação para investigar a explosão da entidade como fachada para livrar a cara do regime dos aiatolás e de seus agentes neste que fora o maior atentado terrorista islâmico nas Américas, até a carnificina de 11 de setembro de 2001.

Mesmo contra as evidências, as autoridades argentinas bancaram a tese de que Nisman havia se matado, até o fim do governo de Cristina. Somente na gestão de Maurício Macri, o caso foi federalizado e as novas perícias constataram o óbvio. E a denúncia de Nisman que tinha sido descaradamente engavetada foi reaberta e resultou no pedido de prisão de todos os envolvidos. Inclusive o da ex-presidente. Cristina só não foi parar na cadeia porque, assim como no Brasil, a imunidade parlamentar salva! Recentemente empossada como vice-presidente de seu país, ela ocupava uma cadeira no Senado, quando das denúncias.

O que levou Nisman a ser assassinado? Evidentemente, ele é a 86º vítima da Amia. Morreu em decorrência de suas investigações. Mas por que demorou tanto para morrer? Ao longo de uma década de investigações, ele infernizou a vida do regime iraniano. Conseguiu colocar cinco autoridades do país na lista dos mais procurados pela Interpol, entre eles um presidente. Demonstrou que apesar das negativas, Irã e seu braço armado no exterior, o Hezbollah foram os responsáveis pelo atentado.

A minha hipótese não interessa, mas não custa compartilhar. Nisman morreu não por ter dado um passo a mais em direção aos responsáveis pelos atentados. Ele foi assassinado por ter entendido que as ruínas e dezenas de corpos esfacelados naquela manhã de 18 de julho de 1994 não foram o ponto final das ações do Irã em seu país e possivelmente o governo que se instalou por lá em 2003 e só viria a ser substituído depois da morte dele estaria em conluio com os planos nucleares de Teerã.

Nas semanas seguintes ao seu assassinato, eu me reuni com fontes nos Estados Unidos e na Argentina que desenham um quadro assombroso que era de conhecimento do procurador. Os argentinos haviam sofrido assédio do Irã e da Venezuela para traficar segredos nucleares violando as sanções dos Estados Unidos. A publicação dessa informação levou-me a ser intimado pela Justiça Argentina para testemunhar no mesmo processo que decretou a prisão de Cristina. Isso foi o que eu disse ao procurador federal que me interrogou: Nisman voltou os olhos para Argentina.

Assim como a causa que consumiu a vida de Nisman, o seu assassinato muito provavelmente ficará sem solução. E sendo 100% irresponsável, pois o que direi aqui é a mais pura suposição, o Irã jamais assumirá o seu papel neste crime, como nunca assumiu em todas as outras operações nas quais esteve envolvido. Este é o estilo de matar que o falecido Qasem Soleimani impôs aos seus comandados e aos seus proxies ao redor do globo. Uma tática de dissimulação que os diverte e os protege, enquanto cumprem seus objetivos estratégicos fora do Irã.

Um ex-aluno do clérigo Mohsen Rabbani, denunciado pela Justiça argentina como o principal operador local do atentado contra a Amia, que o professor-terrorista é reverenciado em seu país pelo atentado que cometeu. Rabbani e seus chefes de turbante sempre negaram a ação. Aliás, chegam ao disparate de dizer que os judeus foram vítimas do Estado de Israel que teria montado o atentado para culpar o Irã.

Para entender o "método iraniano", vale recordar o plano de assassinato do então embaixador da Arábia Saudita em Washington, Adel al-Jubeir. Em 2011, as autoridades americanas frustram o atentado graças a um agente infiltrado da DEA (a agência antidrogas dos Estados Unidos) no cartel mexicano Los Zetas. O general Soleimani havia contratado os serviços dos mexicanos para estacionar um carro bomba em frente a um badalado restaurante da capital americana, quando Al-Jubeir estivesse almoçando em seu interior.

Até as pedras de Meca saberiam que o crime seria obra do Irã, mas como diplomatas de diversos países também seriam alvo e o terrorista seria um traficante, os aiatolás poderiam festejar quietinhos. Sem que a fatura alguma lhe fosse apresentada. Mas como o plano e as conexões foram descobertas. Os Estados Unidos não só expuseram o envolvimento de Teerã como aplicaram sanções aos Quds e ao seu comandante Soleimani.

No final do ano, o Irã planejava fazer o mesmo. Usou seus laranjas para atacar a embaixada americana. Montaram um cenário de caos e violência que, por pouco, não alcançou as dimensões trágicas de 2012 quando o consulado dos Estados Unidos foi invadido em Benghazi e resultou na morte do embaixador na Líbia e outros três americanos. Soleimani foi ao Iraque nos dias seguintes, apostando na impunidade que sempre o protegeu. Pela primeira vez deu errado para os aiatolás.

No dia 29 de dezembro, quando ainda Soleimani mandava e desmandava nas operações militares do regime dos aiatolás no exterior, Alí Qomi – genro e braço direito de Mohsen Rabbani (o clérigo que comandou localmente o atentado contra a Amia, em 1994), subiu uma mensagem no Youtube. Qomi é um importante operador do Irã na América Latina, sendo responsável por enviar a mensagem "cultural e religiosa" para os grupos vinculados ao seu sogro que vive escondido no Irã.

No video, Qomi protesta contra os humoristas do Porta dos Fundos e a empresa de streaming Netflix por causa do polêmico e patético "A primeira tentação de Cristo". No canal, onde divulga suas aulas, sermões e mensagens para comunidade islâmica na América Latina, o clérigo lamentou a falta de coragem dos cristãos em defender Jesus. Em alguns momentos ressalta que a violência não deve ser a resposta. Em outro, entretanto, cita a fatwa emitida pelo aiatolá Ruhollah Khomeini (1902-1989) contra o escritor indiano Salman Rushdie, autor do livro "Os versos satânicos", que enfureceu o regime de Teerã. A sentença, ainda vigente, pede o assassinato do autor por blasfemar contra o livro sagrado do Islã, o Corão.

Ser genro de um terrorista não faz de Qomi automaticamente um. Mas o círculo de relações dele está repleto do que há de mais radical na política e religião iranianas. Por sinal, elementos indissociáveis naquele país. Bem ao estilo iraniano, o clérigo dá mil e uma piruetas para enviar a sua mensagem sem se comprometer. Parece apostar em um maluco tupiniquim que possa lhes fazer o favor de vingar a imagem de Isa ibn Maryam (Jesus, filho de Maria), como os muçulmanos se referem ao profeta que pavimentou os caminhos de Mohammad, o fundador da religião deles, e também abrirá as portas do paraíso dando início ao Juízo Final. Soleimani morreu, mas o Irã segue exatamente igual.

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