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Apoiadores de Trump, incluindo Jake Angeli, membro do grupo conspiracionista QAnon, invadem o Capitólio dos EUA em 6 de janeiro
Apoiadores de Trump, incluindo Jake Angeli (com rosto pintado), membro do grupo conspiracionista QAnon, invadem o Capitólio dos EUA em 6 de janeiro.| Foto: Saul Loeb/AFP

Houve quem comparasse a baderna no Capitólio aos eventos que levaram a destruição da sede do Congresso em 1812, quando ingleses e canadenses tocaram fogo no edifício. Alguns mais alucinados viram um golpe de Estado e outros ainda mais desbaratados declaram ter havido uma insurgência. A tarde de infâmia que teve como palco a capital americana nem de longe sustenta as leituras mais fatalistas sobre o destino dos Estados Unidos. O resultado direto dos eventos de Washington foi a desmoralização completa de Donald Trump. A implosão da imagem do presidente repercutiu em qualquer um que o apoiou o apoie. A invasão ao Capitólio se transformou em uma mancha no trumpismo.

Há suspeitas de que os distúrbios possam ter sido provocados por infiltrados antifa. Um pequeno grupo capaz de inflamar a massa. Pura tática black bloc. Uma teoria que não é de todo sem pé sem cabeça considerando o fato de que os milhares de trumpistas que se reuniram em vários protestos pelo país jamais se comportaram como bandoleiros. Naquele mesmo dia, depois do discurso de Trump, que tem sido acusado como o gatilho da balbúrdia, eles percorreram os cerca de 2,5 quilômetros que separam a Casa Branca do Capitólio sem realizar nenhum tipo de distúrbio ou depredação.

Mas a teoria da infiltração não se explica sozinha. Se de fato isso ocorreu, só funcionou porque no seio do trumpismo há um perigoso processo de radicalização. Movimento tão crítico que pode explicar, por si só, a eclosão da violência, descartando a necessidade de um catalizador como a infiltração antifa.

O exemplo mais bem acabado deste processo é o QAnon. Q é pseudônimo de um suposto whistleblower que anonimamente (Anon) tem revelado as mais sombrias conspirações dentro do governo dos Estados Unidos e as mais horripilantes trapaças do establishment. Surgido em 2017, o fenômeno Q decolou depois de vários outros “Anons” que tentaram emplacar histórias tão malucas quanto em grupos de internet frequentados por jovens e adultos adeptos de teorias conspirativas ou psicologicamente perturbados.

Nas manifestações desta semana e em quase todas as que ocorreram em favor de Trump desde o início de seu governo bandeiras e camisetas com o Q eram uma constante. O movimento que ninguém sabe quem está por trás ganhou o DNA trumpista e virou sinônimo de luta contra as forças maléficas que se instalaram no coração e no poder na América.

A temeridade é tão profunda que os seguidores do Q podem estar agindo como marionetes de serviços de inteligência estrangeiros por exemplo. Ruminando as histórias malucas contadas Deus sabe por quem e transformando-as em verdades absolutas.

O Q surgiu como sendo um aliado de Trump e se demonstrou o seu maior inimigo.

Os membros do MAGA – movimento que leva as iniciais de Make America Great Again – andam tão enlouquecidos por terem a certeza de que foram roubados nas eleições passadas que têm aceitado como válido qualquer movimento aliado.

Este foi o backdoor que o Q, e quem está por trás dele, valeu-se para minar o trumpismo e transformar o movimento que não só emparedou o partido Democrata, mas os próprios republicanos.

A forma de menosprezar a força política que surgiu em torno de Trump era a ridicularização, caipirismo, fascismo, racismo e toda ordem de abjeções possíveis. Ou como disse Hillary Clinton, uns deploráveis.

Depois de quatro anos de fracassos, o QAnon conseguiu jogar cada um dos mais de 74 milhões de eleitores na lama. De certa forma, cada um deles apareceu trepado nas pareces do Capitólio, ou quebrando suas janelas. Todos viraram uns vândalos, apoiadores de um presidente egoísta que tocou fogo no país por simplesmente não aceitar que perdeu a eleição.

Os Estados Unidos viveram uma onda de barbárie e destruição em meios aos protestos que ocorreram em decorrência da morte de George Floyd. A reboque veio o pessoal do Black Lives Matter (BLM) que recebeu uma espécie de salvo-conduto para o vandalismo.

Sem se tratar de justificar os erros dos apoiadores de Trump, eles podem ser considerados umas crianças no jardim de infância quando comparados com a ferocidade dos movimentos “antifascistas”.

O ponto central foi o ataque ao símbolo. O Capitólio.

Não faltou vontade aos antifas de tocar fogo na Casa Branca ou no Congresso. Eles não o fizeram porque as autoridades não deixaram. Contiveram os baderneiros com gás lacrimogêneo e os afastaram com barricadas e muita polícia.

E, ao contrário do que o senso comum diz, as autoridades não fizeram isso porque eram manifestantes negros. O cerco pesado foi um favor imenso para eles. Pois se o Capitólio tivesse sido tratado como qualquer uma das instalações que os simpatizantes do BLM invadiram, aí sim 1812 teria se repetido. E seria duro seguir passando a mão na cabeça do BLM.

Os seguidores do QAnon se transformaram em um rebanho fácil de manejar por quem os criou. Mas algo cada vez mais complexo de controlar e neutralizar por quem precisa urgentemente entender que a radicalização é um instrumento imprevisível e perigoso.

Nos anos de 1980, a Rússia implantou no mundo uma fake news que até hoje alimenta a mente de gente mal informada ou puramente conspirativa. Construiu minuciosamente a narrativa que o mundo acreditasse que o vírus da Aids era uma criação dos Estados Unidos. Uma arma biológica.

Q é algo do tipo. Uma invenção meticulosamente bem construída, operada por quem sabe o que faz. Plantada no coração de um movimento ao mesmo tempo poderoso e incompreendido. Movimento que levou à eleição de Trump em 2016 e dá sinais de que tem vida própria para além do partido que o hospedou.

Q deve servir de alerta para os outros países e em especial para o Brasil, devido às semelhanças do processo político, das disputas e das fraturas existentes. Trump tem responsabilidade pelos seus erros. Mas foi o Q – uma armação sem tamanho – que abduziu uma parte de sua base.

Os elementos são claríssimos e as chances que eles se repitam no Brasil são certas. Identificá-los e combatê-los não só poderá salvar o presidente Jair Bolsonaro de ser canibalizado pelos próprios apoiadores – e isso não significa ser atitude de bolsonarista – como protegerá o processo democrático brasileiro dos efeitos devastadores desse tipo de ação que surge nas trevas do anonimato.

Recentemente, o Brasil viu uma aglomeração de desajuizados sob o nome de “Os 300 pelo Brasil”. Uma encenação horrorosa liderada por Sara Giromini. Uma militante com nome e rosto conhecidos.

No Brasil há terra fértil suficiente para operações como a do QAnon. O processo de radicalização da direita brasileira, aos moldes do trumpismo só interessa a quem quer validar a tese de que quem não votou em Fernando Haddad em 2016 e não votar no anti-Bolsonaro que for apresentado em 2022 é o mesmo tipo de radical que marcha com tochas em frente ao Supremo.

As manifestações das autoridades brasileiras e os textos que se propuseram a refletir a triste tarde de 6 de janeiro em Washington, D.C. tratavam os Estados Unidos como um bananal a ser evitado. O exemplo de que o Brasil pode vir a se tornar muito em breve.

As cenas tristes da invasão ao Capitólio são um soluço da democracia americana. Os americanos viveram algumas horas do que o Brasil é todo dia. Só faltaram shows de funk e axé no Brazilian Day desta semana.

No quesito invasão do Congresso, o Brasil é autoridade mundial. O histórico inclui sem terras, índios, professores, policiais grevistas, sindicalistas. Em 2013, quando milhares de manifestantes se apinharam sobre o prédio do Congresso Nacional, ninguém viu assalto às instituições democráticas.

Mas nos Estados Unidos?

É esta a questão chave. Justamente por acontecer nos Estados Unidos que o problema chama a atenção. Se até a democracia mais longeva e as instituições mais sólidas do planeta se tornaram vulneráveis, imagine as demais.

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