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Lorenzo Carrasco

Lorenzo Carrasco

O gargalo da energia global

As finanças verdes e a crise do Estado

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Navio petroleiro atravessa o Estreito de Ormuz, ponto estratégico do comércio global de energia, em meio a tensões geopolíticas que elevam o risco de bloqueios e afetam cadeias econômicas em todo o mundo. (Foto: Ali Haider/EFE/EPA)

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Na coluna anterior, comentei algumas repercussões da guerra dos EUA e Israel contra o Irã para a economia brasileira, com ênfase no setor agropecuário, destacando a dependência nacional das importações de insumos cruciais, como diesel, querosene de aviação, fertilizantes e defensivos agrícolas.

Como já havia ocorrido durante a pandemia de Covid-19, o virtual bloqueio do Estreito de Ormuz, onde, em tempos normais, trafegam entre 20% e 30% do petróleo, gás natural, ureia, enxofre e hélio consumidos no planeta, evidencia as grandes vulnerabilidades da financeirização das economias, ensejada pela globalização iniciada na década de 1990, principalmente a precariedade das cadeias internacionais de suprimentos, bastante sensíveis a quaisquer interrupções ou gargalos fora da “normalidade”.

No Brasil, a adoção acrítica da cartilha ideológica da globalização, controlada pela alta finança internacional, foi uma decisão estratégica das elites dirigentes da época, refletida em uma emblemática entrevista do então presidente Fernando Henrique Cardoso à Folha de S. Paulo, de 13 de outubro de 1996. Nela, ele admitiu que o seu governo estava “rearticulando o sistema produtivo do Brasil... dando possibilidade a que os setores mais avançados do capitalismo tenham prevalência”, em prejuízo das classes médias, “que ficaram desligadas desses processos”.

Evidentemente, não foram apenas as classes médias que ficaram “desligadas” ou foram fortemente afetadas pela agenda globalista de FHC, essencialmente mantida e até aprofundada por seus sucessores. Ela também atingiu grande parte dos setores produtivos da economia, inclusive a indústria, que, desde então, experimenta um acentuado processo de retração de sua participação no PIB — tendência que, se não for revertida, coloca em xeque qualquer possibilidade de que o País possa deixar o pântano de estagnação e perda de perspectiva de futuro no qual insiste em permanecer.

E nem mesmo a agropecuária escapou, apesar dos grandes saldos comerciais obtidos nas últimas décadas, tornando-se vulnerável às importações de insumos, à precariedade da infraestrutura viária e de armazenamento e às oscilações do crédito bancário, influenciadas pela política de juros altos (13% a 15% na média de 1995 a 2025), ficando cada vez mais dependente da influência dos grandes cartéis alimentícios internacionais.

Assim, não admira que não poucos produtores e entidades representativas do setor tenham se voltado otimisticamente para um dos elementos mais insidiosos da agenda globalista: as finanças “verdes”, organizadas em torno da pretendida “descarbonização” da economia mundial. No caso, trata-se da conversão dos biomas brasileiros, principalmente a Amazônia e o Cerrado, em colaterais para a atração de investimentos rotulados como sustentáveis, com os chamados créditos de carbono.

Agenda que, bem antes da guerra, já se mostra em franco recuo, como tenho ressaltado nesta coluna.

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O Brasil está diante da necessidade de rever o grave equívoco das elites da Nova República de abandonar a estrutura de planejamento do Estado, tratada como um “entulho” do governo militar e, de resto, considerada anacrônica na era globalista, e de deixar a condução geral da economia nas mãos dos mercados privados. Ficou para trás a sinergia positiva entre o Estado e a iniciativa privada nacional e estrangeira, que, com seus altos e baixos, proporcionou o período áureo do desenvolvimento nacional entre 1930 e 1980.

Como me referi ao caso da Petrobras na coluna anterior, limito-me aqui ao exemplo do setor elétrico. O Brasil tinha um dos sistemas mais bem planejados de todo o mundo, otimizando ao máximo a hidreletricidade gerada em bacias com regimes hidrológicos diferentes por usinas interligadas. Sua expansão, planejada e supervisionada pela Eletrobrás, era orientada pelas projeções de crescimento da economia, proporcionando tarifas comerciais e residenciais que estavam entre as mais baixas do mundo.

Porém, o cenário mudou com a conversão da eletricidade em commodity, a partir da década de 1990, e a transferência do controle de grande parte do setor a interesses privados diversos e até a empresas estatais estrangeiras (entre outras, uma estatal chinesa controla hoje mais de um terço das linhas de transmissão do País).

Desde então, a expansão do sistema tem seguido critérios de maximização de resultados financeiros, às vezes disfarçados por alegados favorecimentos ambientais, como ocorre com a rápida proliferação de usinas eólicas e solares intermitentes, cuja incorporação à rede de base tem gerado problemas técnicos em todos os países que as adotaram, com frequência causando grandes blecautes, inclusive aqui no Brasil.

É a mesma agenda “verde-indígena” que passou a demonizar usinas hidrelétricas com grandes reservatórios, que permitem o armazenamento de água para assegurar a geração em períodos secos.

Sem falar nas tarifas, que passaram para o extremo oposto do ranking mundial, disputando o pódio das mais altas.

Deixando claro que não estou aqui sugerindo uma reestatização generalizada do que foi privatizado ou desestatizado, salta aos olhos que o Estado brasileiro, independentemente dos governos de turno, precisa recuperar sua capacidade de pensar o futuro do País, com a plena mobilização de suas forças criativas, para assegurar uma inserção favorável em um cenário mundial crescentemente turbulento e imprevisível.

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