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Lorenzo Carrasco

Lorenzo Carrasco

Energia solar

China: um “tiro solar” no pé

A Torre de Energia de Sal Fundida de 50 MW em Hami, localizada na região de Xinjiang, China. (Foto: Csp.guru/Wikimedia Commons)

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A China enfrenta um maiúsculo problema de superprodução na sua indústria de painéis solares, o qual ameaça provocar uma devastação no setor. Um artigo publicado no sítio Xataka Brasil (16/06/2026), baseado em um artigo do colunista do Financial Times, Adam Tooze, aponta a dimensão do problema: mais de 40 empresas falidas, demissões em massa e preços abaixo do custo de produção, colocando em xeque a era dourada das trombeteadas energias “de baixo carbono”.

O artigo cita Tooze: “Energia limpa, numa escala que teria parecido utópica na época do Acordo de Paris, em 2015, agora está ao nosso alcance. O preço dos painéis solares despencou. E, no entanto, as fábricas estão paralisadas.” E acrescenta: “Isso não é retórica. É um diagnóstico.”

Ambos os autores lamentam o que consideram um colossal descaso global com a perspectiva da “energia limpa barata” alegadamente proporcionada pela supercapacidade chinesa. Ambos se mostram incapazes de atinar com a cada vez mais evidente inadequação das fontes intermitentes, como a solar e a eólica, para o fornecimento de eletricidade nos sistemas de base “despacháveis”, que hoje causam grandes problemas em todos os países que apostaram alto em tais fontes.

Diz o texto:

“Após um aumento maciço nos investimentos desde 2020, as empresas chinesas atingiram uma capacidade de produção de 1.000 gigawatts (GW) de painéis solares por ano. Para colocar isso em perspectiva: em 2023, a demanda global era de apenas 451 GW, segundo a Energy News. A produção de células solares da China naquele ano — 588 GW — já dobrou a demanda internacional. E eles continuaram construindo.

“O resultado foi o que os economistas chamam de ‘devolução’: uma espiral de competição destrutiva em que as empresas se destroem mutuamente sem que nenhuma delas saia vitoriosa. Mais de 40 fabricantes chineses faliram, foram adquiridos ou deixaram de ser negociados na bolsa. Um terço da força de trabalho das cinco maiores empresas sobreviventes foi demitido. A JinkoSolar, a maior fornecedora mundial, registrou uma queda de 29% na receita, um despencar de 86% no lucro bruto e prejuízos líquidos de 4,45 bilhões de yuans em 2025.

“Assim, em junho do ano passado, mais de 30 fabricantes concordaram com um pacto nos moldes da OPEP para estabilizar os preços e conter a oferta. Seis meses depois, o resultado foi um desastre: longe de se estabilizar, a produção atingiu níveis recordes, as instalações triplicaram e os prejuízos continuaram a aumentar.”

A crise forçou o governo chinês a intervir, convocando “esforços conjuntos” para acabar com a guerra de preços: controle de capacidade, preços indicativos mínimos, fusões e aquisições e proteção da propriedade intelectual.

Na prática, afirma o Xataka, é “o Estado chinês orquestrando um resgate ordenado do setor que ele mesmo impulsionou a um crescimento ilimitado”. Em outras palavras, “um cartel para estancar a sangria”

Apesar dos problemas internos, as exportações de tecnologias solares da China seguem em expansão para quase todos os países, com exceção dos EUA. Além disso, os fabricantes chineses estão integrando baterias aos sistemas solares para minimizar os efeitos da intermitência dessas fontes.

Entretanto, o recurso ao armazenamento de eletricidade, tecnicamente chamado de Sistemas de Armazenamento de Energia em Baterias (BESS, sigla em inglês), é o pretenso pulo do gato para o problema da intermitência das fontes solares e eólicas, mas, por sua vez, ele apresenta uma série de problemas que abordarei em uma próxima coluna.

Por enquanto, fiquemos com a sintética conclusão do Dr. Lars Schernikau, respeitado economista especialista em energia, em seu recente estudo “Can Solar and Wind + Batteries Really Provide 24/7/365 Electricity?”:

“A questão fundamental não é se as fontes solares e eólicas mais baterias podem gerar eletricidade. Claramente, podem. A questão é se elas podem proporcionar o nível de confiabilidade requerido pelas economias modernas sem impor custos econômicos, ambientais e sistêmicos sempre crescentes. Claramente, não podem.”

Voltando à China, os problemas não são apenas de superprodução, mas também de supercapacidade instalada, que já acarretam problemas idênticos aos verificados em outros países “solares”. De novo, o Xataka:

“O excesso de capacidade de produção não é o único problema. A China também instalou tantos painéis solares que gera mais eletricidade solar do que consegue armazenar ou transmitir. A infraestrutura de redes e armazenamento não cresceu no mesmo ritmo que a instalação de painéis — na verdade, as regulamentações provinciais chinesas que obrigavam a instalação de baterias por lei resultaram em sistemas pouco utilizados devido à falta de incentivos no mercado de eletricidade. O resultado: energia limpa gerada, mas desperdiçada por falta de espaço para armazenamento. Um paradoxo dentro de outro paradoxo.”

Esse é um problema bem conhecido do Brasil, com a concentração de centrais solares e eólicas no Nordeste, que têm desperdiçado cerca de 20% da eletricidade gerada e impossível de ser aproveitada no Sistema Interligado Nacional, sob risco de provocar apagões como o de 15 de agosto de 2023, que deixou a maior parte do país às escuras durante horas.

Ao final, mesmo depois de expor os efeitos do tiro solar no pé dado pelos chineses, o Xataka faz um prognóstico que parece mais inspirado por wishful thinking do que por uma análise racional do seu próprio texto:

“O setor solar não vai desaparecer. As empresas chinesas são grandes demais e eficientes demais para falir. A consolidação está em curso, os preços subirão um pouco e a demanda — tanto interna quanto para exportação — aumentará. A transição energética virá. Mas virá mais tarde, de forma mais cara e caótica do que poderia.”

Durante anos, a China inundou o resto do mundo com a sua superprodução de tecnologias de geração intermitente, cujas limitações técnicas e econômicas estão escancarando os equívocos da mal denominada “transição energética”. Agora, ela parece estar atingindo os seus próprios limites. E é de todo conveniente que outros países — Brasil inclusive — prestem a devida atenção.

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