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Há um fenômeno mais interessante do que a contradição entre a narrativa do militante petista e os problemas do governo que ele apoia: o processo psicológico pelo qual ele aprende a conviver com essa contradição. Fechar os olhos começa como um gesto excepcional, diante de algum episódio particularmente incômodo. Repetido muitas vezes, vira hábito. O hábito, com o tempo, vira segunda natureza. Já não é preciso se convencer de que não viu. Ele simplesmente desvia o olhar. “Passar pano” deixa de ser exceção e se transforma em disciplina.
Isso ajuda a explicar a indiferença resignada do militante diante da presença, no entorno de Lula, de personagens que até outro dia eram vistos como cúmplices do golpe contra Dilma Rousseff. Ou o seu silêncio diante das recorrentes denúncias de corrupção envolvendo governos e dirigentes petistas.
Não chega a ser absurdo que políticos que apoiaram a “ruptura democrática” de 2016 hoje integrem a base aliada de Lula. Pode-se argumentar que é o preço do presidencialismo de coalizão que vigora no país. O que causa estranheza é outra coisa: a facilidade com que a militância coloca entre parênteses o ódio que dedicava aos “golpistas” em um passado recente. O pragmatismo pode explicar a aliança, mas não explica a mudança da régua moral.
Funciona assim: o voto do adversário de hoje é prova de seu caráter; o voto do adversário de ontem e aliado de hoje é explicado pela conjuntura. A contradição do inimigo revela sua essência; a do companheiro exige contexto, prudência e compreensão. Quando um antigo adversário se aproxima do PT, é porque amadureceu. Quando um antigo aliado se afasta, vira inimigo.
Com as denúncias de corrupção, o mecanismo é similar. Diante de uma acusação contra um adversário, a suspeita basta para confirmar tudo o que já se pensa dele. Diante de uma acusação contra alguém do próprio campo, aparecem os argumentos da presunção de inocência, da necessidade de provas e do devido processo legal. O problema está na seletividade. A régua que deveria servir para todos passa a funcionar como escudo partidário.
Se a realidade entra em choque com uma crença importante, é possível mudar a crença ou reinterpretar a realidade. A segunda alternativa costuma ser emocionalmente mais barata. Se o governo decepciona, é mais fácil atribuir a decepção ao Congresso, à imprensa, ao mercado, à oposição, às instituições, à herança recebida ou à conjuntura internacional.
O relativismo moral deixa de ser uma escolha consciente e passa a funcionar no modo automático. O que ontem provocaria indignação hoje provoca uma explicação
Em Massa e Poder, Elias Canetti examinou a força psicológica do pertencimento. A massa oferece ao indivíduo uma identidade maior que a sua, reduzindo a sensação de vulnerabilidade e produzindo a segurança de estar entre iguais. A militância política, quando se transforma em identidade total, oferece algo semelhante. O petista não defende apenas um partido ou um programa; defende a imagem de si mesmo como alguém que está do lado certo da História. Quando essa identidade está em jogo, o custo emocional de reconhecer qualquer erro se torna muito alto. É preciso sempre dobrar a aposta.
O militante experimenta, assim, uma espécie de ressentimento às avessas. Sendo governo, deveria se sentir vitorioso e feliz, mas se sente amargo. É compreensível: depois de cinco mandatos e meio do PT no poder, a distância entre promessa e entrega deveria produzir frustração até no eleitor mais fiel de Lula. Mas o militante desloca essa frustração para o adversário. Quanto menos satisfatória a realidade, mais necessária se torna a existência de um inimigo suficientemente ameaçador para justificar qualquer passada de pano.
Apontar o dedo é reconfortante. Sentir-se moralmente superior compensa a frustração política. O militante convence a si mesmo de que sua escolha continua sendo virtuosa porque “a alternativa é pior”. O adversário deixa de ser apenas alguém a ser derrotado nas urnas: é transformado em ameaça existencial, alguém a ser deslegitimado, exposto, eliminado da política e, se possível, preso. Daí o prazer sádico com que o militante grita “Sem anistia!”
O militante não precisa estar feliz com o próprio governo; precisa apenas acreditar que o outro lado é pior. Mas, para continuar enxergando virtude no próprio campo, precisa mudar os critérios pelos quais julga os fatos. Quem passa anos treinando a consciência para não enxergar determinadas coisas perde, pouco a pouco, a capacidade de reconhecê-las. O relativismo moral deixa de ser uma escolha consciente e passa a funcionar no modo automático. O que ontem provocaria indignação hoje provoca uma explicação; o que ontem exigiria punição hoje pede cautela; o que ontem seria prova de corrupção hoje é tratado como desinformação.
Nesse ponto, a militância se transforma em uma forma de fuga: fuga da frustração com um governo que prometeu muito mais do que entregou, fuga da responsabilidade de rever escolhas, fuga da dúvida e, acima de tudo, fuga da possibilidade incômoda de que o inimigo não seja tão monstruoso quanto a sua narrativa exige — nem os amigos tão virtuosos.
Aí está a armadilha: enquanto aponta o dedo, ostenta sua virtude e se sente protegido pela certeza de estar do lado certo, o militante não percebe que a energia gasta para combater o adversário está servindo para evitar uma pergunta difícil. E se o problema não estiver apenas no outro lado?

Luciano Trigo é jornalista e escritor, autor de "Guerra de narrativas - A crise política e a luta pelo controle do imaginário" (2018) e "O ano em que a Terra parou - Polarização da política e a escalada da insanidade" (2021). **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.




