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Da política à Covid-19, poemas ancorados em uma estranha realidade

  • Por Luciano Trigo
  • 05/10/2020 08:48
O poeta londrinense Rodrigo Garcia Lopes
O poeta londrinense Rodrigo Garcia Lopes| Foto: Divulgação

O escritor, compositor, tradutor e jornalista londrinense Rodrigo Garcia Lopes está lançando pela editora Iluminuras seu sétimo livro de poesia. Laboriosamente escrito desde 2015, “O enigma das ondas” reúne 91 poemas e se divide em quatro partes.

A primeira, “lingua”, reúne poemas metalinguísticos, que refletem sobre o ato criativo e o fazer poético, mas também sobre aspectos mais concretos da atividade literária, como a dinâmica social do meio e os caprichos do mercado, sempre pronto a exaltar mediocridades convenientes (“Em lugar de poesia eu trago a pose/ (o que você achou que fosse?)/ Não importa ter algo a dizer// Eu quero a poesia gourmet”).

São poemas que, de certa forma, registram o duplo embate do escritor com as palavras e com a realidade – poemas que nascem do atrito entre as duas (“O mundo passa/ pela janela da palavra/ para tocar a realidade”; “Saiam da frente, palavras” etc) e estabelecem pontes sempre efêmeras entre as duas. Brincam, também, com questões teóricas como a “morte do autor” (“Agora temos um problema:/ quem vai assinar este poema?”)

O poema de abertura, “Aéreo reverso” faz um uso inventivo (ainda que não exatamente original) do espaço da página para estabelecer um paralelo entre as atividades de surfar e escrever: a linguagem como mar, que exige habilidade, sorte e coragem. Já a série de epigramas reunidos em “Short cuts” demonstra o talento do autor para a sátira afiada em instantâneos repletos de ironia.

Na segunda parte, “pandemonium”, Rodrigo Garcia Lopes usa a poesia como comentário e crítica política sobre a realidade brasileira (“Para toda maioria silenciosa/ há uma minoria tagarela”), incorporando alguns poemas escritos após a eclosão (e na reclusão) da pandemia de Convid-19. São poemas que têm um sabor de crônica e um sentimento de urgência, ao mesmo tempo serenos e angustiados, como “Vontade de crer” (“Patifes e assassinos por toda parte/ Hipócritas ditam o que é correto./ Só nos resta o agora, esta arte:/ Tudo vai dar certo”) – ou o longo “Pandora”, inspirado pela pandemia e transcrito no final desta resenha.

A terceira e a quarta partes, “mentis” e “loci”, reúnem poemas mais introspectivos, reflexivos e oníricos, que dialogam com um vasto repertório de estilos e tradições poéticas e demonstram a habilidade técnica do autor. A propósito de sua aparente ausência de lealdade a um estilo, o autor declarou em entrevista recente: “Cada poema é uma aventura, a forma aparece no momento da escrita: a forma encontra o seu poema e o seu instante”.

A ilustração da capa evoca a gravura famosa do artista japonês do século 19 Kanagawa, que mostra uma onda monstruosa prestes a engolir alguns barcos. Essa expectativa de algo trágico congelada no tempo, no registro de um instantâneo da realidade, é um sentimento recorrente na leitura do livro. Embora apresente aqui e ali poemas mais fracos (porque mais fáceis), como “Mobydick” e “Tango”, que não fariam falta se excluídos do volume, “O enigma das ondas” traz poesia honesta e da melhor qualidade, com textos que ao mesmo tempo confrontam, afligem e atraem – como as efêmeras e concretas e enigmáticas ondas do mar.

Leia abaixo o poema “Pandora”, de Rodrigo Garcia Lopes:

Pandora

Pânico, pandemia, pandemônio:
é o inimigo invisível, é o novo demônio,
é a face coberta por um pedaço de pano,
é o humano reaprendendo a ser humano.
É uma carreata de caixões pelas ruas de Turim,
é o translúcido azul do céu de Pequim.
É o papa rezando na São Pedro deserta,
são as águas transparentes dos canais de Veneza.
Parece que faz tanto tempo que tudo aconteceu,
presos no labirinto com Minotauro e Teseu.
Legiões de desempregados em Teerã, São Paulo, Paris.
As calçadas de Guayaquil estão cheias de cadáveres.
Estão pregando tapumes nas fachadas.
Todas as fronteiras foram fechadas.
Os médicos e coveiros estão exaustos.
Os jornais nem noticiam mais o holocausto.
São pilhas de corpos-números cobertos por um véu,
São poemas que jamais sairão do papel.

Os confinados batem panelas, invocam os magos,
pumas invadem as avenidas de Santiago.
É uma vida pulsando entre a pedra e a espada,
é o prenúncio de uma economia global robotizada.
São velórios e shoppings vazios, praias desertas,
é o começo de um renascimento, é o fim de uma era.
É o silêncio ensurdecedor e o medo de morrer,
é o tempo pra ler toda a obra de Shakespeare,
é a chance de ser o maior experimento
de controle social de todos os tempos.
É um exército branco higienizando as cidades,
é um planeta em quarentena por toda a eternidade.

É um homem que saiu do isolamento e nunca mais foi visto,
são fanáticos gritando O Vírus é o Anticristo.
São anjos em polvorosa sobre os céus de Berlim,
são amantes aprendendo a amar enfim.
Já ninguém ouve o que os agonizantes urram,
os metrôs voltaram hoje a circular em Wuhan.
É solidão compulsória, é um estado de sítio,
são coiotes vagando livres por San Francisco,
É uma flor desabrochando durante a tempestade
(pois quando tudo acabar talvez seja tarde).
É a solidão futurista da Times Square,
é o suicida alcançando um revólver.
São navios de cruzeiro proibidos de atracar,
são hospitais abarrotados em Milão, Rio, Dakar.
Pássaros continuam voando, geleiras caindo,
há um pôr do sol distante, solitário e lindo.
É viver entre as paredes dos parênteses
em reticências que se alongam como meses.
É o mundo inteiro em stand-by,
é o corpo lutando por ar.

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