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Luciano Trigo

Luciano Trigo

Papudinha

Diminutivos

No Brasil, o diminutivo não é carinho: é anestesia moral. Ele suaviza crimes e abusos, normaliza injustiças e reduz a indignação coletiva. (Foto: Imagem criada utilizando Chatgpt/Gazeta do Povo)

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Os brasileiros têm uma relação curiosa — e reveladora — com a linguagem, por exemplo, no uso recorrente do diminutivo como forma de suavizar uma realidade incômoda. O sufixo “inho”, que indica tamanho reduzido ou expressão de afeto, ganhou entre nós uma função mais problemática: atenuar fatos graves, amortecer choques morais e tornar mais palatáveis situações que exigiriam clareza, enfrentamento e responsabilidade.

É como se, ao diminuir as palavras, diminuíssemos também o peso do que elas representam. O vocabulário passa a funcionar, assim, como uma espécie de anestésico moral. A realidade permanece dura, mas chega filtrada, arredondada, amaciada. Não é um detalhe irrelevante. A linguagem não apenas descreve o mundo; ela molda a forma como o percebemos e reagimos a ele.

Um exemplo eloquente desse fenômeno é a Papudinha. O nome sugere algo inofensivo e quase fofo, como um brinquedo Lego, quando se refere a uma prisão, o espaço de materialização máxima do poder de coerção do Estado.

Nada na Papudinha é fofo ou leve, muito menos para quem deveria estar em liberdade. Ainda assim, o diminutivo se impõe no discurso público, produzindo um efeito curioso: a prisão deixa de soar como prisão, perde o peso simbólico que deveria carregar. Alivia a consciência de quem vê arbitrariedades, mas prefere se acomodar. O vocabulário amortece o desconforto e facilita a assimilação de uma injustiça que deveria causar indignação ou constrangimento.

Não se trata de um capricho linguístico inocente. Ao chamar uma prisão pelo apelido fofo de Papudinha, suaviza-se simbolicamente a função da instituição. O cárcere, que deveria remeter à força da lei, à punição e, eventualmente, a abusos do Judiciário ou ao fracasso de políticas públicas de segurança, passa a integrar o imaginário cotidiano como algo trivial.

Esse expediente não se restringe às instituições. Ele aparece de forma recorrente no noticiário policial. No Brasil, traficantes violentos, chefes de facções e outros criminosos são frequentemente identificados por apelidos no diminutivo: Fernandinho Beira-Mar, Pedrinho Matador, Feinho, Bolota etc. Nomes que evocam uma relação de afeto quase familiar, em contraste absoluto com a gravidade dos crimes que cometeram.

Neste caso, o efeito simbólico do diminutivo é aproximar o criminoso do cotidiano. Ele deixa de soar como ameaça e passa a integrar o repertório informal do imaginário e do noticiário. O horror não desaparece, mas perde aspereza. Linguisticamente, o bandido se torna menor do que o crime que cometeu, da mesma forma que a prisão se torna mais suave do que ela é.

O diminutivo não absolve, mas acomoda. Não justifica, mas normaliza. Ao domesticar simbolicamente figuras centrais do crime organizado, o discurso público enfraquece a percepção da gravidade dos seus crimes e reduz a capacidade de indignação coletiva. O mesmo se aplica a prisões arbitrárias: estar na Papudinha torna a inaceitável prisão abusiva menos desconfortável, como se a suavização da linguagem tornasse a realidade menos urgente e dolorosa.

O Brasil é o país do cafezinho, da saidinha, do jeitinho, da Papudinha. Nada parece realmente grave quando cabe dentro de um diminutivo

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O mesmo padrão se repete em outras esferas da vida nacional. O Brasil é o país do cafezinho, do churrasquinho, da saidinha, do jeitinho, do errinho administrativo, da falhazinha técnica.

A recorrência desses termos não é neutra. Ela expressa uma tendência persistente a relativizar responsabilidades, diluir culpas e enquadrar problemas graves como desvios menores. O diminutivo funciona como um pedido implícito de compreensão: “Não é tão grave assim”. Crimes graves viram deslizes. Instituições falidas ganham apelidos simpáticos.

Nesse sentido, a Papudinha não é uma exceção, mas uma síntese. Ela cristaliza o impulso nacional de tratar realidades duras com palavras macias. A prisão, símbolo máximo da coerção estatal, transforma-se em algo trivial. Transformamos problemas estruturais em coisas “administráveis”, crimes graves em deslizes, e prisões em lugares simpáticos.

A linguagem resolve o problema antes mesmo que ele seja enfrentado — ou justamente para que não se precise enfrentá-lo.

O diminutivo, por si só, não é culpado. Trata-se de uma escolha cultural, de um hábito socialmente reforçado. O que o sufixo “inho/inha” revela é nossa dificuldade de lidar com realidades incômodas sem recorrer a eufemismos reconfortantes. A linguagem se torna mecanismo de acomodação. É um mecanismo eficaz para reduzir tensões imediatas, mas perigoso, porque contribui para a normalização do inaceitável.

O Brasil é o país onde problemas imensos são tratados com surpreendente leveza no discurso cotidiano. Corrupção endêmica, violência crônica e desigualdade persistente convivem com um vocabulário que teima em reduzir o tamanho das coisas. Como se encolher as palavras fosse uma forma de encolher a realidade.

A paixão nacional pelos diminutivos funciona como espelho cultural. Revela uma sociedade que, diante da gravidade de seus próprios dilemas, prefere suavizar o discurso a encarar o problema em sua dimensão real. Revela uma dificuldade crônica de encarar a realidade sem filtros, sem eufemismos, sem uma camada de açúcar retórico. Preferimos diminuir as palavras na esperança, quase mágica, de diminuir os fatos. Como se a linguagem tivesse o poder de reescrever a realidade usando sufixos.

A linguagem, é claro, não resolve os problemas. Mas pode — e no Brasil frequentemente consegue — escondê-los com surpreendente eficiência. Um país que chama uma prisão de Papudinha está confessando, ainda que sem perceber, sua dificuldade crônica de levar a sério aquilo que exige seriedade e resposta urgente.

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