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Na quinta-feira passada, um estudante de História apareceu no campus da UFRJ usando uma camiseta da banda britânica Death in June, conhecida por reapropriar, de maneira ambígua e provocativa, símbolos associados ao nazismo. Há controvérsias.
Um colega não gostou da camiseta, teve início uma discussão e, em seguida, um espancamento coletivo. Vídeos viralizaram mostrando o jovem cercado, levando socos e pontapés. O caso está sendo investigado pela polícia e pela universidade. As versões sobre o que cada um teria dito são contraditórias.
Se usar uma camiseta de uma banda configura crime de apologia, que se investigue e se aplique a legislação apropriada. Mas, sobre um segundo crime, as imagens não deixam dúvida: o linchamento de um estudante por outros estudantes. Isso nos corredores de uma universidade federal.
Usar uma camiseta, por repulsivo que seja o simbolismo a ela associado, autoriza um grupo a espancar quem a veste? A resposta deveria ser óbvia. Não.
A ironia é que, ao transformar uma condenação moral em licença para a violência, os agressores reproduziram precisamente a lógica autoritária que imaginavam combater. Ignoraram a fronteira entre a indignação e a violência, rudimentar na sociedade civilizada.
Um linchamento começa antes do primeiro soco. Começa quando alguém deixa de ser percebido como indivíduo e passa a existir apenas como categoria moral — fascista, genocida, inimigo. A partir daí, o que esse indivíduo diz ou faz já não importa. Ele já foi declarado moralmente impuro, e tudo que se fizer contra ele se torna justificável. O grupo assume – com orgulho – a função do promotor, do juiz e do policial.
É o fascismo virtuoso: uma forma de autoritarismo que não se reconhece como tal porque está convencida de agir em nome do bem. Certas pessoas seriam tão abjetas que não mereceriam as mesmas regras aplicadas aos demais.
Espancar em grupo um homem sozinho não é uma demonstração de coragem política, nem de militância antifascista. É uma demonstração de covardia coletiva
O autoritário contemporâneo não precisa defender abertamente a censura ou a violência. Basta alegar que está protegendo a democracia, combatendo a intolerância ou defendendo uma minoria. A licença para negar ao outro os direitos que exige para si mesmo nasce da certeza de estar do lado certo. Quem acredita deter o monopólio da virtude deixa de enxergar a divergência como parte da vida democrática e passa a tratá-la como desvio moral.
Nas universidades, esse fenômeno aparece com frequência em setores da militância progressista que passaram a tratar a política menos como disputa entre ideias do que como um sistema de classificação moral entre pessoas puras e impuras. Acusações capazes de destruir reputações e carreiras são feitas sem qualquer responsabilidade. Quem se afasta do esquadro ideológico autorizado é automaticamente transformado em pária. Uma vez estabelecido que os direitos dependem da qualidade moral atribuída ao outro, desaparece qualquer limite objetivo para o poder do grupo.
A lei existe, entre outras coisas, para substituir a vingança e impedir que a força determine quem tem razão. Quando essa barreira é relativizada, abre-se um precedente perigoso. O verdadeiro teste de uma sociedade democrática não está na forma como ela trata aquele de quem se gosta: está na forma como trata aquele que julgamos desprezível. Defender a liberdade apenas para quem pensa como nós não é defender a liberdade. Exigir garantias jurídicas apenas para os membros do próprio grupo não é defender a justiça.
Espancar em grupo um homem sozinho não é uma demonstração de coragem política, nem de militância antifascista. É uma demonstração de covardia coletiva. Quando um grupo se arroga o direito de decidir quem merece apanhar, pouco importa o nome que dê ao gesto. Podem chamá-lo de justiça social, combate ao fascismo ou defesa da democracia. Continua sendo um linchamento.

Luciano Trigo é jornalista e escritor, autor de "Guerra de narrativas - A crise política e a luta pelo controle do imaginário" (2018) e "O ano em que a Terra parou - Polarização da política e a escalada da insanidade" (2021). **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.




