Encontre matérias e conteúdos da Gazeta do Povo
Luciano Trigo

Luciano Trigo

Eleições 2026

O fator Ciro

Ciro no PSDB pode reconfigurar a disputa de 2026, fragmentar a base de Lula e abrir espaço a uma terceira via em cenário polarizado. (Foto: Imagem criada utilizando Chatgpt/Gazeta do Povo)

Ouça este conteúdo

Ainda não bateram o martelo, mas a eventual candidatura de Ciro Gomes à presidência pelo PSDB pode ter um forte impacto no tabuleiro eleitoral, em um cenário marcado por polarização, fadiga da sociedade e crescente desconfiança institucional. Se for mesmo candidato, o ex-ministro e ex-governador cearense, com seu discurso nacional-desenvolvimentista e apelo popular enraizado no Nordeste, introduz uma variável que deve alterar os cálculos de todos os campos políticos.

Tentei fazer a reflexão a seguir de forma desapegada, sem endosso a qualquer candidatura, mas com clareza crítica em relação aos vícios estruturais do PT e do sistema de poder que o cerca. Estamos, é claro, no terreno da especulação: a fragmentação da esquerda, com o provável sangramento de votos de Lula; o surgimento de uma terceira via competitiva; e a possível reacomodação do sistema em torno de Ciro como “mal menor” ainda são apenas hipóteses.

O que parece certo é que a candidatura de Ciro representa um risco real de fragmentação da base petista. Historicamente, o PT construiu sua hegemonia eleitoral com base no voto popular do Nordeste e das periferias urbanas, sustentado por programas de transferência de renda e pela narrativa de inclusão social. Mas o desgaste acumulado em praticamente duas décadas de gestões petistas não foi pequeno: escândalos em série e gestão fiscal frouxa levaram muitos brasileiros comuns à percepção de que foram enganados.

Em um cenário bipolar, o estrago pode ser grande. Ciro, que já foi aliado e depois crítico ferrenho do PT, disputa um eleitorado parcialmente sobreposto ao de Lula. Seu discurso, que critica o que chama de “entreguismo” econômico, a ineficiência burocrática e a ausência de um projeto industrial consistente, dialoga com aqueles eleitores que ainda defendem um Estado forte, mas não aguentam mais o modelo petista de governar. Em um pleito apertado, mesmo a perda de um percentual pequeno dos votos no Nordeste e em capitais “sudestinas” pode ser decisiva para a derrota de Lula.

Mas o estrago não se limitaria à aritmética dos votos. Com seu estilo assertivo, Ciro pode fragilizar a candidatura petista no debate público, impedindo Lula de se apresentar como candidato de consenso dentro de seu próprio espectro ideológico. Isso porque Ciro tornará mais evidentes as fissuras e fragilidades estruturais do PT, especialmente a dependência do partido do carisma de um líder já bastante idoso e de uma engrenagem política associada a práticas clientelistas.

A questão é saber se Ciro Gomes conseguirá se firmar como alternativa real à polarização. Tentativas recentes de construção de uma terceira via fracassaram miseravelmente, porque se mostraram incapazes de mobilizar o eleitorado. Ciro, entretanto, apresenta alguns diferenciais: experiência administrativa, presença nacional consolidada e um programa econômico relativamente estruturado, ainda que controverso.

Mais relevante ainda é o contexto de rejeição elevada aos dois principais candidatos, Flávio Bolsonaro e Lula. Em um ambiente de saturação política, candidaturas podem crescer não por entusiasmo, mas por exaustão do eleitorado.

Nesse sentido, Ciro pode se beneficiar do voto negativo, capturando eleitores que rejeitam Lula, mas resistem a votar em Flávio, e vice-versa. É bem verdade que também se criou essa expectativa em 2022 – e nada disso aconteceu.

Se, em algum momento, a vitória de Flávio parecer inevitável, a movimentação do sistema será no sentido de tentar obter garantias em troca de apoio: este é o padrão recorrente nas disputas eleitorais no Brasil

VEJA TAMBÉM:

O comportamento do “sistema” — grandes veículos de mídia, instituições financeiras e setores do Judiciário — também será determinante, é claro. Embora esses atores não atuem de forma monolítica, eles tendem a reagir pragmaticamente a expectativas eleitorais, buscando estabilidade e previsibilidade. Caso se consolide a percepção de que Lula perdeu viabilidade, boa parte desses atores pode reavaliar suas preferências e aderir a Ciro como estratégia de sobrevivência e contenção.

Nesse contexto, Ciro poderia ser visto como uma opção intermediária: alguém com discurso desenvolvimentista, crítico ao PT, mas que não representaria um corte abrupto após o fim do ciclo lulopetista.

Para setores preocupados com estabilidade macroeconômica e governabilidade, essa combinação pode ser interpretada como um “mal menor” em comparação a Flávio, menos previsível e mais polarizador. Se Flávio continuar sua trajetória de alta nas intenções de voto, Ciro pode se apresentar como um candidato anti-Flávio mais eficaz que o próprio Lula.

Historicamente, o establishment brasileiro sempre demonstrou preferência por soluções de estabilidade controlada. Quando percebeu que Lula, em 2022, era a opção menos disruptiva para os mercados, parte significativa desse sistema – de forma explícita ou velada – facilitou o caminho. Agora, diante de um PT enfraquecido, o cálculo pode mudar, abrindo espaço para um candidato mais “administrável”: alguém capaz de vocalizar insatisfações populares sem romper com as estruturas existentes.

Por outro lado, Ciro tem um histórico de críticas duras ao sistema financeiro e à própria mídia, o que gera desconfiança nesses meios. Uma aproximação exigiria sinais claros de moderação e compromissos, o que aliás também se espera em relação a Flávio: se, em algum momento, a vitória do candidato do PL parecer inevitável, a movimentação do sistema será no sentido de tentar obter garantias em troca de apoio: este é o padrão recorrente nas disputas eleitorais no Brasil.

Por sua vez, a grande mídia, que já demonstrou farta capacidade de amplificar ou silenciar candidaturas conforme a conveniência do momento, encontraria em Ciro um personagem televisivo, polêmico e vendável – alguém que gera audiência sem colocar em risco o modelo de negócios altamente concentrado dos grandes meios de comunicação. O Judiciário, por sua vez, cada vez mais político, poderia se mostrar simpático a Ciro, caso ele se tornasse a condição para evitar o retorno do bolsonarismo.

Há ainda uma hipótese adicional, menos provável, mas politicamente plausível: uma reavaliação estratégica por parte de Lula. Se Ciro apresentar crescimento consistente e capturar uma parcela significativa do eleitorado de centro-esquerda, e se eventuais escândalos ampliarem o desgaste do governo, não se pode descartar a possibilidade de retirada da candidatura do incumbente. Trata-se de uma decisão extrema e ainda improvável, mas seria uma maneira de evitar uma derrota eleitoral dolorosa e com elevado custo simbólico.

Qualquer análise como esta parte, é claro, de uma premissa fundamental: a confiança na lisura do processo eleitoral. A legitimidade de uma eleição depende da percepção de imparcialidade e transparência. Se o eleitor enxerga interferências seletivas, se ele sente que o jogo está viciado antes mesmo de começar, todo o processo fica contaminado. A confiança da sociedade na democracia depende da convicção de que não há favorecimento ou prejuízo deliberado a qualquer candidatura.

Você pode se interessar

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.