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Luciano Trigo

Luciano Trigo

Terrorismo

O preço da percepção de leniência com o crime

Tratar PCC e Comando Vermelho como terroristas fortalece o combate ao crime e expõe o desgaste da esquerda na segurança. (Foto: Imagem criada utilizando Chatgpt/Gazeta do Povo)

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A decisão de Donald Trump de classificar como organizações terroristas o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital produziu um debate que vai muito além da discussão jurídica. A reação do governo brasileiro (e do sistema que o apoia) expõe um problema que acompanha os governos do PT há décadas: a percepção de leniência, de excessiva tolerância diante do avanço do crime organizado no país. Em ano eleitoral, essa percepção pode ter um custo altíssimo.

Quem é contra a medida afirma que o CV e o PCC não se enquadram na definição legal de terrorismo por não terem motivação ideológica, religiosa ou política. Este pode até ser um argumento juridicamente defensável. O problema é que, para a imensa parcela dos brasileiros que mora em territórios dominados pelo crime, este é um detalhe sem a menor importância.

Para o cidadão que convive diariamente com tráfico armado, extorsão, execuções, domínio territorial de facções e medo constante, pouco importa se os criminosos agem em nome de uma causa política ou meramente em busca do lucro. O resultado é o mesmo: comunidades submetidas ao terror, autoridades intimidadas e o Estado perdendo espaço para organizações criminosas, que impõem suas próprias regras à população local.

O PCC e o CV já deixaram de ser simples quadrilhas. Hoje, são estruturas transnacionais que movimentam bilhões, operam rotas internacionais de drogas, participam de sofisticados esquemas de lavagem de dinheiro e exercem forte influência política. Em muitas regiões do país, seu poder já rivaliza com a própria autoridade estatal.

É nesse contexto que a iniciativa americana deve ser vista. O crime organizado contemporâneo já não respeita fronteiras. Combatê-lo exige instrumentos igualmente globais. A classificação como organização terrorista não significa qualquer ameaça concreta à soberania brasileira ou a possibilidade realista de intervenção militar. Os precedentes internacionais mostram outra realidade. No caso dos cartéis mexicanos, por exemplo, a principal consequência foi o fortalecimento de mecanismos financeiros, investigativos e de cooperação internacional voltados ao combate às organizações criminosas.

O verdadeiro impacto da medida ocorre no sistema financeiro global: amplia sanções, facilita bloqueios de ativos, endurece punições e aumenta a capacidade de rastrear recursos utilizados pelas facções. Ou seja, atinge diretamente aquilo que sustenta o crime organizado moderno: o dinheiro.

A sociedade enxerga hoje uma desconexão entre a narrativa progressista e a realidade vivida por quem enfrenta diariamente a insegurança

Ainda assim, a reação do governo brasileiro foi predominantemente defensiva. Em vez de destacar as oportunidades de cooperação internacional no enfrentamento às facções, o foco recaiu sobre preocupações diplomáticas e questionamentos conceituais acerca do uso da palavra “terrorismo”. Politicamente, essa postura produz um efeito problemático, sobretudo em ano eleitoral. Ela reforça a percepção de que a esquerda sempre demonstra desconforto quando o tema é o endurecimento do combate ao crime.

Essa percepção não surgiu do nada. Ao longo das últimas décadas, narrativas que relativizam políticas de endurecimento penal, críticas frequentes à atuação policial, mesmo em cenários de violência extrema, e interpretações que parecem atribuir a criminalidade exclusivamente a fatores sociais e econômicos se tornaram rotineiras. Embora essas posições possam ter fundamentos humanitários legítimos, o desgaste político é inegável em um país no qual a maior parte da população vive com medo.

O fato é que a sociedade enxerga hoje uma desconexão entre a narrativa progressista e a realidade vivida por quem enfrenta diariamente a insegurança. A sensação amplamente disseminada é a de que a esquerda está mais preocupada com os direitos dos criminosos do que com os direitos das vítimas.

É evidente que pobreza, exclusão social e ausência de oportunidades influenciam os índices de criminalidade. Mas reduzir organizações como PCC e Comando Vermelho a meros produtos da desigualdade social significa ignorar sua natureza atual. Essas facções são conglomerados criminosos altamente organizados, movidos por interesses econômicos, dotados de capacidade logística sofisticada e responsáveis por níveis extremos de violência, que atingem principalmente a população mais pobre.

Em política, percepções costumam importar mais do que detalhes técnicos. A imagem que se consolida é simples e facilmente assimilável pelo eleitorado: de um lado, quem defende o endurecimento máximo contra as facções; de outro, um governo preocupado em discutir definições jurídicas e levantar objeções diplomáticas.

São duas visões distintas sobre segurança pública. Uma encara o crime organizado como consequência de fatores sociais e enfatiza as causas estruturais do problema. A outra reconhece que organizações criminosas alcançaram tamanho poder econômico, territorial e militar que passaram a representar ameaças estratégicas ao próprio Estado. A realidade aproxima cada vez mais o cidadão comum da segunda visão.

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