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O episódio durou apenas alguns segundos. Na semana passada, na transmissão de um jogo da Copa, o ex-jogador da seleção brasileira Roberto Carlos apareceu usando um iPhone revestido de ouro. Bastou esse gesto para que as redes sociais fizessem o que fazem melhor: transformar um detalhe em acontecimento. Houve quem enxergasse apenas uma demonstração de mau gosto, quem visse uma extravagância inofensiva e quem aproveitasse a cena para condenar a desigualdade brasileira.
O verdadeiro protagonista daquela cena talvez nem fosse Roberto Carlos. Era o Brasil olhando para ele.
Objetos de luxo raramente são apenas objetos. Um relógio de centenas de milhares de reais não serve apenas para marcar as horas, assim como um celular de ouro não melhora chamadas nem acelera aplicativos. Seu verdadeiro valor está na mensagem que transmitem: tornam visível uma posição social.
Essa mensagem silenciosa desperta emoções contraditórias porque toca em uma das ambiguidades mais persistentes da sociedade brasileira. Gostamos de nos definir como uma sociedade sensível às injustiças da desigualdade, e nossa política está repleta de discursos sobre inclusão, redistribuição de renda e combate aos privilégios.
Ao mesmo tempo, poucas coisas capturam tanto a atenção do brasileiro comum quanto a exibição do luxo: as mansões de artistas, os carros de jogadores, os relógios de empresários ou as bolsas das influenciadoras.
Criticamos o excesso, mas consumimos avidamente sua encenação. A riqueza se converte em espetáculo, e para esse espetáculo nunca falta plateia
É tentador explicar a ostentação como um defeito de caráter, uma manifestação de vaidade ou narcisismo. Mas, para pessoas que experimentaram uma ascensão social extraordinária, especialmente quando partiram de condições muito modestas, certos objetos cumprem uma função que vai muito além do consumo. Eles ajudam a consolidar uma nova identidade.
A biografia de Roberto Carlos é uma história clássica de mobilidade social. Ele não nasceu cercado de privilégios. Tornou-se um dos maiores laterais da história do futebol graças a um talento excepcional, demonstrado em alguns dos maiores clubes do mundo. Mas subir economicamente não significa, necessariamente, sentir-se plenamente instalado em um novo universo simbólico. O dinheiro muda de endereço mais depressa do que a percepção que temos de nós mesmos. É possível enriquecer rapidamente. Muito mais difícil é deixar de se sentir pobre.
É aí que o celular de ouro ganha significado. Pode parecer um gesto de arrogância, mas também revela algo menos evidente: a necessidade permanente de confirmar uma conquista que, embora objetiva, nunca deixa de parecer improvável para quem conhece a própria origem. Ostenta-se não porque se duvide da opinião dos outros, mas porque ainda se tenta silenciar a voz interior que insiste em lembrar de onde se veio.
Não é por acaso que o economista Thorstein Veblen descreveu, ainda no século XIX, o consumo ostensivo como uma forma de comunicação social. Alguns bens são comprados porque podem ser vistos. O valor está menos na utilidade do objeto do que naquilo que ele anuncia sobre seu proprietário.
As redes sociais radicalizaram essa lógica. Durante boa parte da história, a riqueza era patrimônio; hoje ela também é conteúdo. Há restaurantes em que o prato esfria enquanto o celular procura o melhor ângulo para a fotografia. A viagem parece começar pela postagem, não pelo embarque. A economia da atenção transformou a visibilidade em ativo. Mostrar parece tão importante quanto possuir.
Um celular dourado deixa de ser um simples telefone para se transformar em um artefato narrativo. Cada pessoa projeta nele seus desejos, ressentimentos, admirações ou frustrações. Mas seria um erro imaginar que esse mecanismo pertence apenas às celebridades. Ele atravessa toda a sociedade brasileira.
O Brasil sempre atribuiu enorme importância aos sinais visíveis de posição social. Em países onde as fronteiras entre as classes são menos rígidas, a riqueza costuma ser exibida com relativa discrição. Aqui ocorre o contrário: o consumo funciona como um idioma de reconhecimento. Roupas, carros, relógios e viagens ajudam a responder, antes mesmo que alguém pergunte, quem ocupa qual lugar na hierarquia social. Isso revela a nossa dificuldade em separar o sucesso de seus adornos.
Essa necessidade de sinalização se torna ainda mais intensa quando a ascensão é recente. O dinheiro compra patrimônio imediatamente, mas pertencimento leva muito mais tempo. Quem enriquece continua carregando consigo hábitos, referências e inseguranças formadas ao longo de décadas. Não surpreende que muitos recorram justamente aos símbolos mais visíveis da prosperidade para reduzir essa distância. É uma tentativa de acelerar o processo.
Cenas como essa provocam tanto debate porque funcionam como testes de personalidade coletiva. Alguns reagem com admiração, outros com indignação, outros ainda com humor, mas ninguém permanece indiferente. A verdadeira notícia nunca foi o aparelho. Foi a intensidade das reações que ele provocou. Porque, no Brasil, a desigualdade não organiza apenas a distribuição da renda. Ela também organiza a imaginação. E é por isso que, às vezes, um celular consegue revelar mais sobre um país do que uma biblioteca inteira de estatísticas.









