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Primeira lição: pesquisas perderam influência – e a culpa é das pesquisas. Eleição após eleição, os principais institutos de pesquisa cometem erros absurdos, muito acima de qualquer margem aceitável, o que já bastaria para reduzir o impacto das suas previsões. Agrava o problema o fato de esses erros não serem politicamente neutros: eles beneficiam, quase sempre, os candidatos de esquerda ou aqueles aliados à esquerda. É razoável o cidadão comum pensar que não se trata apenas de incompetência.
O caso da eleição no Rio de Janeiro, para citar apenas um exemplo, não é menos que escandaloso: as últimas pesquisas mostravam ampla vantagem de Eduardo Paes (nove pontos, no Datafolha), sugerindo uma vitória no primeiro turno, e ele chegou quase sete pontos atrás de Douglas Ruas. Já escrevi mais de uma coluna sobre isso, incluindo “Os institutos de pesquisa vão fechar as portas?”, logo após o primeiro turno das eleições de 2022.
É hora de esses institutos demonstrarem humildade, pedirem desculpas à sociedade e fazerem uma revisão séria de suas metodologias. Ou perderão qualquer relevância.
O eleitor desconfia da grande mídia – e a culpa é da grande mídia
Costuma-se atribuir essa desconfiança crescente à maior circulação de ideias e informações promovida pelas redes sociais, o que é verdade. Mas isso só conta metade da história. Se a grande mídia tivesse sido mais isenta e rigorosa na análise dos acontecimentos desde a eleição de Jair Bolsonaro em 2018, ela teria conservado sua credibilidade junto ao conjunto da sociedade.
Preferiu, com honrosas exceções, a aliança clara com um campo político, do qual se aproximou por comunhão de gostos e interesses. Criou-se uma cumplicidade silenciosa: tudo era aceitável, desde que servisse ao objetivo de destruir o inimigo comum. Embarcando na narrativa da defesa da democracia, os grandes grupos de comunicação apoiaram um sem-número de medidas excepcionais, que agora começam a se voltar contra eles.
Como ocorre com os institutos de pesquisa, o maior patrimônio de um jornal é a confiança da sociedade – e este capital, depois de perdido, é muito difícil de recuperar.
Por outro lado, a grande mídia começou a corrigir o rumo: antes tarde do que nunca
Na comparação com a eleição de 2022, a cobertura da campanha deste ano foi, no conjunto, menos enviesada. Ainda existem analistas políticos que enxergam esta eleição como uma disputa entre a “extrema-direita” e o “campo democrático”: estes ou são cínicos ou ainda não entenderam nada – provavelmente um pouco dos dois.
Esta teimosia em desqualificar a direita – e, por extensão, os brasileiros comuns que se identificam com ela – é um dos fatores que fazem a direita crescer no país. Parece óbvio.
Mas é fato que os grandes jornais não se furtaram a criticar as interferências de ministros do STF no processo eleitoral, nem a noticiar episódios cabulosos envolvendo aliados próximos e até mesmo o filho do presidente. Os escândalos do Banco Master e do INSS não foram encobertos.
Mais que isso: nas últimas semanas, diversos editoriais dos grandes jornais foram exemplares no resgate do papel da imprensa na democracia – que eles próprios pareciam ter esquecido. Talvez tenham entendido que, se não acordassem agora, poderiam estar condenados a décadas de um sono induzido e profundo.
A interferência de ministros do STF foi um tiro que saiu pela culatra
O empenho de alguns ministros de interferir no processo eleitoral – a ponto de fazer a Rede Globo cancelar o tradicional debate às vésperas do primeiro turno – foi tão despudorado que estes ministros acabaram se tornando cabos eleitorais involuntários de Flávio.
Muitos eleitores isentões ou indecisos – e a própria grande mídia – ficaram assustados com os sucessivos atropelos, que transformaram em tema central da campanha a pergunta: o que vai acontecer se Lula for reeleito e indicar mais quatro ministros para o Supremo?
O avanço da Juristocracia não é um fenômeno recente nem exclusivo do Brasil, como já escrevi. Mas atingiu entre nós uma dimensão extrema: não há tema ou polêmica que escape à atenção do Supremo, o que torna o Legislativo e o próprio Executivo seus coadjuvantes – e seus reféns.
Se o lema da Itália de Mussolini era "Tudo no Estado, nada contra o Estado, nada fora do Estado", o lema do Brasil pode se tornar muito em breve "Tudo no Supremo, nada contra o Supremo, nada fora do Supremo" – independentemente de quem ocupar o Palácio do Planalto. A maioria da sociedade não quer isso.
O Senado precisa resgatar sua altivez
A mensagem da maioria da sociedade foi clara. A bandeira do impeachment de ministros do Supremo ajudou a eleger senadores em estados do norte ao sul do país.
O Senado tem o dever e a missão histórica de recuperar sua altivez e colocar em votação as propostas engavetadas – são mais de 100, segundo o próprio presidente da Casa. Não faltam motivos
O que está em jogo não é apenas o destino de alguns ministros, mas o equilíbrio entre os Poderes. Ao longo dos últimos anos, o Supremo ocupou espaços que pertencem ao Congresso. Cabe agora ao Senado decidir se continuará aceitando essa transferência silenciosa de poder ou se voltará a exercer, com independência, as prerrogativas que a Constituição lhe confere.
A economia real importa mais que os números oficiais
Um marciano que acompanhasse o Brasil com base apenas nos indicadores econômicos pensaria que a situação do povo está maravilhosa: baixa inflação, baixo desemprego, crescimento razoável. É o que dizem os números oficiais.
A realidade é muito diferente. Para o brasileiro que trabalha e paga boletos e impostos, o poder de compra diminuiu brutalmente. Da classe média para baixo, todos estão sentindo isso na pele, todos os dias. Não é que os números sejam manipulados: é que a metodologia não reflete o cotidiano do cidadão comum.
Números positivos rendem excelentes manchetes para o governo, mas não dizem nada para quem está endividado, apesar de trabalhar muito. Agrava essa sensação a percepção de que os ricos e poderosos fazem o que querem: viagens de jatinhos, modelos norueguesas, uísque Macallan e festas que custam milhões de reais frequentadas por autoridades. É muita desfaçatez.
A corrupção continua importando
Desde o desmonte da operação Lava-Jato, esforços não faltaram para relativizar a gravidade da corrupção no país, como se fosse um problema menor ou mesmo um mal necessário. Não é. O recado aqui também foi claro: a maioria da sociedade apoia quem denuncia os desvios, não quem os acoberta.
As revelações em série do escândalo do Banco Master – que ainda estão longe de terminar – alimentaram a sensação de que as instituições estão podres por dentro – começando por aquelas responsáveis por investigar e julgar. Neste sentido, a melancólica sessão do STF do último dia 15 de setembro foi um ponto de inflexão.
Na percepção de muitos brasileiros, era uma chance de o Brasil oficial mostrar que a lei ainda funciona minimamente para todos. Ainda que nada tenha sido decidido naquela sessão, o sentimento generalizado foi de tristeza por mais uma expectativa frustrada.
Mas a vitória de uma ala no curtíssimo prazo teve um custo elevadíssimo na percepção da sociedade – e certamente influenciou o voto de muita gente.
Não existe democracia de um lado só
Lula poderia ter aproveitado seu terceiro mandato para tentar realizar um governo de conciliação. Preferiu alimentar a polarização do país. A intenção era destruir o bolsonarismo por todas as vias possíveis, inclusive a judicial.
O plano falhou miseravelmente. Uma parcela crescente da sociedade, incluindo não bolsonaristas, passou a se perguntar que democracia é esta na qual apenas um lado tem o direito de se expressar – e na qual manifestar determinadas opiniões é perigoso?
Apenas quem já apoiava Lula – e mesmo na própria esquerda houve quem discordasse dos métodos empregados – apoiou essa estratégia.
O brasileiro comum não gosta de injustiça. Este é, aliás, um dos traços mais nobres do caráter nacional: o impulso de ficar do lado de quem está sendo injustamente perseguido.
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Metodologia da pesquisa citada
2.010 entrevistados pelo Datafolha em 2 e 3 de outubro de 2026. A pesquisa foi contratada pela Folha de S. Paulo e pela Rede Globo. Nível de confiança: 95%. Margem de erro: 2 pontos percentuais. Registro no TSE sob o nº RJ-01334/2026.

Luciano Trigo é jornalista e escritor, autor de "Guerra de narrativas - A crise política e a luta pelo controle do imaginário" (2018) e "O ano em que a Terra parou - Polarização da política e a escalada da insanidade" (2021). **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.




