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Romeu Zema, governador de Minas Gerais
Romeu Zema, governador de Minas Gerais| Foto: Reprodução Instagram

Pela segunda vez em poucas semanas, o governador de Minas Gerais, Romeu Zema, está sendo bombardeado pela grande mídia por ter postado um pensamento alheio.

Zema, vale lembrar, é um potencial candidato a presidente na eleição de 2026. A depender da situação do país, e se Bolsonaro estiver mesmo fora do páreo – neste país nunca se sabe; basta lembrar que até outro dia era o atual presidente que estava inelegível – as chances do político mineiro não serão desprezíveis.

Nesse contexto é curioso o empenho precoce da mídia em sabotá-lo: a mesma mídia que teve lado em 2022 continuará tendo lado em 2026, ao que tudo indica.

Pois bem, no início do de julho Zema postou em numa rede social uma frase do ditador italiano Benito Mussolini: "Fomos os primeiros a afirmar que, quanto mais complexa se torna a civilização, mais se deve restringir a liberdade do indivíduo”, seguida de um irônico “Bom dia”.

Para qualquer pessoa intelectualmente honesta e com um mínimo de discernimento, era evidente que Zema não estava endossando a declaração de Mussolini, e sim citando o líder fascista italiano como um alerta para o Brasil – país onde se testemunha um preocupante processo de relativização das liberdades individuais, começando pela liberdade de expressão.

Não foi esta, contudo, a interpretação da grande mídia e da militância virtual que afirma defender a democracia. Não sei se por má-fé ou mera dificuldade de interpretação de texto, ambas caíram de pau no político mineiro, acusando-o, nas entrelinhas, de defender o fascismo.

A reação à postagem foi tão barulhenta que Zema precisou se explicar: “Aquilo ali é mais um alerta porque me parece que nós temos, por parte de algumas pessoas, uma tendência aqui no Brasil de achar que o Estado pode tudo e o Estado resolve tudo. E, definitivamente, não é a minha opinião”, afirmou em uma entrevista na TV. “Eu gosto muito de frases e pensamentos, e a publicação dessa frase foi muito mais um alerta que quis dar, porque quem conhece o meu posicionamento sabe que a última coisa que eu sou é alguém no estilo do Mussolini, que é alguém que acreditava num Estado onipotente.”

Mais claro que que isso, só desenhando, explicando o desenho e desenhando a explicação. Aliás não é Romeu Zema (nem é a direita, nem são os liberais) quem defende hoje no Brasil um Estado forte, como Mussolini defendia (um de seus lemas era “Tudo no Estado, nada contra o Estado e nada fora do Estado”). Ou estou enganado?

Mas o truque (ou a falta de vergonha na cara) se repetiu. Desta vez o crime de Zema foi postar uma frase de James Madison (1751-1836), um dos pais fundadores dos Estados Unidos (e seu quarto presidente) e um dos principais redatores da Constituição norte-americana: “Democracia é o direito de as pessoas escolherem o próprio tirano”.

Por óbvio, Madison não estava atacando a democracia nem defendendo a tirania – nem tampouco Romeu Zema, ao citá-lo. Mas as manchetes são as seguintes:

“Zema faz postagem ligando democracia a tirania” (Folha de S.Paulo);

“Em nova frase polêmica, Romeu Zema associa democracia a tirania” (Estadão);

“Zema publica frase ligando democracia à escolha de tiranos” (Poder360);

“Zema associa em frase democracia à escolha de tiranos” (O Globo);

“Em postagem, Romeu Zema associa democracia a tirania” (“O Dia);

“Nas redes, Zema faz postagem associando democracia com escolha de tiranos” (Carta Capital);

É este o nível do jornalismo que se pratica hoje.

James Madison, um dos pais fundadores da democracia norte-americana
James Madison, um dos pais fundadores da democracia norte-americana

James Madison foi um importante teórico da separação dos Poderes e um defensor do pluralismo. Defendia a dispersão e o compartilhamento do poder como fator essencial de uma democracia: quando diferentes grupos competem em condições de igualdade, nenhum deles consegue ser dominante, tornando o sistema mais equilibrado.

Ele alertou para dois perigos que ameaçavam e continuam ameaçando a democracia: a imposição da vontade da maioria que viola os direitos da minoria e a imposição da vontade da minoria que viola os direitos da maioria.

Em um e outro caso – tirania da maioria e tirania da minoria – já não estaríamos em uma democracia. Mas, para Madison, a tirania da maioria representava um perigo ainda maior que a tirania da minoria.

Por isso, afirmava, um dos um dos papéis da República era construir mecanismos institucionais que impedissem que uma maioria sobrepujasse os direitos políticos e econômicos das minorias, “evitando, prevenindo as causas ou corrigindo os efeitos de um comportamento faccioso”.

Sem esses mecanismos institucionais, sem pluralismo, sem oposição autorizada e sem o respeito à separação de Poderes, a democracia pode facilmente descambar para a eleição de tiranos. Foi isso que Madison afirmou no final do século 18, antecipando aliás o que aconteceria algumas vezes nos séculos 20 e 21.

Mas comportamento faccioso é o que não falta no país do “nós contra eles”. E, por ser identificado com a direita conservadora, por ser um crítico do atual governo e por ter declarado voto em Bolsonaro na última eleição, Zema faz parte do “eles”.

Nesta condição, e ainda mais se sua popularidade aumentar, não importa o que ele diga ou poste, será sempre um alvo. Talvez por isso uma citação de James Madison cause tanto horror quanto uma citação de Benito Mussolini. Ambas foram mal compreendidas. Esperemos que tenha sido apenas por dificuldade de interpretação de texto.

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