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A imprensa militante, claro, não é uma exclusividade do Brasil. Essa onda destruidora do jornalismo se instalou há muitos anos em todo o mundo. Contra os fatos, os acontecimentos, abriram mão da apuração profunda e equilibrada, abandonaram o princípio fundamental de ouvir “todos os lados da história”. Quem precisa de debate, de ponto e contraponto, de argumento e contra-argumento? O mundo real foi sendo sufocado, foi virando peça de ficção, mal embalado em narrativas esdrúxulas. Foi assim na época da Covid, quando se estabeleceu um acordo criminoso para exterminar perguntas, qualquer tipo de pergunta. Tem sido assim também quando o assunto é meio ambiente, e só há um discurso permitido: “o planeta vai acabar depois de amanhã, e a culpa é toda dos seres humanos”. Tem sido assim na defesa do globalismo, como se todos os países devessem se submeter a um governo mundial, de mãos dadas e cantando Imagine, do John Lennon.
A imprensa se entregou a uma inversão de papéis. Fascistas – adoradores do Estado e intolerantes raivosos – viraram antifascistas. Conservadores foram transformados em extremistas de direita, radicais dispostos a tudo, golpistas. No Brasil, as ameaças à democracia, segundo a maior parte dos jornalistas, vêm sempre de quem defende o cumprimento das leis, as liberdades, menos Estado. Aqueles que aceitam “excessos” e “heterodoxias” da Justiça – os termos corretos, “arbítrio”, “abuso” e “ilegalidade”, nunca são usados – juram que é tudo para “salvar a democracia”. Até houve lampejos da verdadeira imprensa, quando as relações entre o ministro do STF Alexandre de Moraes e o banqueiro Daniel Vorcaro foram expostas inapelavelmente. Alguns jornalistas até ensaiaram um mea culpa, pareceram compreender, finalmente, a perseguição política que haviam autorizado por mais de sete anos. Até que veio o segundo turno da eleição presidencial, e a imprensa brasileira foi para um lado, o errado, e a estrangeira para outro.
As diferenças na abordagem jornalística de veículos nacionais e internacionais sobre o que aconteceu na eleição brasileira são gritantes
É verdade que faltou à imprensa de outros países descrever os crimes eleitorais cometidos pela campanha de Lula: abuso de poder político, abuso de poder econômico, uso da máquina pública num nível até então impensável. A última edição da revista britânica The Week até fala do que foi empenhado de dinheiro dos pagadores de impostos em medidas e promessas do Lula para comprar votos: R$ 354 bilhões. Só que, apesar disso e do título da matéria – “A feia eleição do Brasil” –, o texto é bem raso. E a imprensa brasileira também caminhou assim, fez tímidos relatos sobre as práticas da campanha petista que deveriam levar à cassação da chapa Lula-Alckmin, e nada mais. Cobranças ao Tribunal Superior Eleitoral foram descartadas, assim como as ações do Partido Novo, o único a não reconhecer o resultado oficial do segundo turno, que pediu ao TSE a cassação daqueles que levaram a eleição.
As diferenças na abordagem jornalística de veículos nacionais e internacionais são gritantes. O ponto central dessa disparidade está na inédita decisão do ministro Cristiano Zanin, do STF, que determinou a extensão do horário de votação por supostas “falhas” no transporte público. A imprensa brasileira não viu nada de mais nisso, enquanto a estrangeira fazia os questionamentos necessários, num tom cético. O diário britânico Financial Times e a agência de notícias Reuters pontuaram que a alteração de última hora gerou um clima caótico nas seções eleitorais, levantando dúvidas sobre a estabilidade institucional. O jornal argentino La Nación publicou crônicas sobre a confusão gerada por Zanin, ex-advogado pessoal de Lula. O espanhol El País focou no impacto dessa ingerência jurídica sobre o equilíbrio da campanha. Sem falar dos americanos Washington Post e Wall Street Journal, e do alemão Die Welt... Todos falaram que a percepção de lisura era impraticável. E a pergunta foi feita: o Brasil ainda é um Estado de Direito? Em contrapartida, a imprensa brasileira embarcou na historinha de “preservação institucional e pacificação nacional”, para aceitar imediatamente a estranha virada de Lula. E, assim, os brasileiros decentes se viram mais uma vez abandonados por aquele que já foi chamado de quarto poder e agora autoriza, de certa forma, a destruição total do país.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

Luís Ernesto Lacombe é jornalista há 38 anos. Trabalhou nas principais emissoras de televisão do Brasil. Recebeu o Troféu Imprensa e, por duas vezes, o Prêmio Comunique-se. Hoje, produz conteúdos diários para suas redes sociais, que reúnem quase 10 milhões de pessoas. É autor best-seller, com cinco livros publicados, de gêneros variados: poesia, literatura infantil, romance e crônica. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



