| Foto: Karolina Grabowska/Pixabay
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Segundo Edmund Fawcett, no seu Liberalism, The Life of an Idea, que saiu pela Princeton University Press em 2018, o liberalismo se caracteriza pela crença positiva numa sociedade móvel, fruto da ruptura acumulativa industrial capitalista, a favor de mudanças sociais progressistas, e aderente à máxima “o desacordo constrói”. Uma sociedade “em debate”, sem ponto de chegada definitivo e sem vitorioso final. Para tal, há de se respeitar instituições que são fruto de processos legais de representação política.

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A (in)constância da democracia liberal estaria ligada ao seu caráter plástico de acomodação das mudanças em moto contínuo. Seu parceiro, o capitalismo, causador dessa mobilidade, seria o braço material de sustentação do modelo político liberal. Essa parceria garantiu a permanência do modo de produção capitalista na “linha”, regulando seus excessos de violência moral, econômica e política, emprestando a ele sua face supostamente democrática. Mas o vínculo entre os dois é mais contingente do que parece, vide o crescente sucesso da China.

Não há nenhuma opção ao capitalismo como forma de sustentação social

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Essa parceria teve altos e baixos, mas, até hoje, tem entregado um modo de vida mais ou menos funcional e sem concorrentes na praça depois da derrocada da utopia socialista. Chegaria o capitalismo ao fim, mesmo sem nenhuma utopia no horizonte para ninar as belas almas? É possível vislumbrar a derrocada do capitalismo como modelo de sustentação social e político, partindo de suas contradições, mas sem a contrapartida utópica de um socialismo lindo ao final? Para Wolfgang Streeck é o que está acontecendo. No Brasil, temos seu Tempo Comprado, A crise adiada do capitalismo democrático, pela Boitempo, de 2018.

Numa obra fruto de vários artigos, com originais em inglês e alemão, How Will Capitalism End?, publicada pela Verso em 2016, Streeck dá a dica: como não estou comprometido com nenhum negócio, não sou obrigado a ser otimista. Essa forma de liberdade de expressão é essencial diante dos “mercados”.

A verdade é que não há nenhuma opção ao capitalismo como forma de sustentação social. A esquerda que quer ter sucesso em algum negócio continua gozando de políticas empresariais de diversidade, por exemplo, que empregam agentes que supostamente criticam o capitalismo, mas que só querem vê-lo trabalhar para si. Por outro lado, ao dar emprego e sucesso a esses agentes, o capitalismo garante que o potencial crítico deles se torne inofensivo e que abracem o otimismo do marketing como modo de ação, última forma de alienação da fé no mercado.

Para Streeck, o duro de engolir é que, com a derrocada do capitalismo como sustentação social em escala global, capitaneado até então pelos agora perdidos Estados Unidos, o que deve se impor será um período semelhante à lenta queda do Império Romano. Um interregno caótico em que a sociedade perderá seu folego institucional, tomando seu lugar um vácuo com déficit de civilização evidente, lançando as pessoas à sobrevida micro, unicamente individual, sem horizonte de organização social e política investida de expectativas viáveis.

Sintomatologia? O capitalismo democrático não terá como empregar uma população que não compete com robôs e inteligência artificial. Ele entrega vida longa às pessoas, mas as demite cada vez mais cedo. A escravidão do networking como laço social. Não terá como garantir direitos porque perderá para o modelo chinês. As big techs destruirão os mecanismos representativos da democracia liberal em favor de populismos instáveis. O meio ambiente será destruído em meio a conferências intermináveis semelhantes aos concílios bizantinos. A corrupção como parte do negócio. A desigualdade será a regra e o Brasil, o modelo.

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Segundo Streeck, sobrará “coping, hoping, doping, shopping” – lidar com os problemas sem horizonte de solução, esperar pelo melhor inatingível, se dopar para suportar as demandas, consumir como loucos. O capital não acaba, o que acaba é a civilização que o liberalismo criou. O capitalismo apodrece por dentro, enquanto otimistas babam na gravata e no celular.

Infográficos Gazeta do Povo[Clique para ampliar]