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A forma com a qual muitas pessoas buscam utopias como resposta para a vida me espanta. Como não perceber que a expectativa utópica é uma forma infantil de olhar para a realidade?

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No plano pessoal, em alguma medida, ainda seria possível planejar um sucesso na vida, uma "lenda pessoal", como diz a autoajuda. Mas, no plano histórico, a utopia é uma versão recente das expectativas milenaristas: o mundo vai acabar no reino da felicidade.

Isso não significa que não haja nada a fazer, sempre há, e, aliás, é o que temos feito desde a pré-história: enfrentar os elementos naturais, sociais e psicológicos que põem nossa vida em risco.

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Aliás, o modo enxame de agir da humanidade, aquele que qualquer um pode enxergar quando olha para as redes sociais e percebe como elas, de modo constante, destroem o mundo com a falsa promessa de que as pessoas sabem o que estão fazendo quando agem, é já um dado sociológico irrefutável.

A imensa maioria não tem nenhuma noção das consequências de seus atos e não vão muito além do modo abelha de refletir e agir sobre mundo.

Proponho hoje a leitura da obra do escritor contemporâneo francês Michel Houellebecq como terapia filosófica. Muitos o conhecem pelo "Submissão", publicado no Brasil pela editora Alfaguara. Há outros títulos dele traduzidos no Brasil. O autor francês nunca foi aceito pela aristocracia editorial brasileira. Ele é considerado um niilista. Se você nunca o leu, comece por "Partículas Elementares" da editora Sulina.

O sociólogo alemão Wolfgang Streeck o considera um dos melhores intelectuais na descrição da sociedade pós-capitalista liberal democrática em que vivemos hoje.

Em obras como "Submissão" (2015) e "Partículas Elementares" (1998), entre outras, Houellebecq descreve um mundo devastado pelo déficit de instituições confiáveis, pela banalidade da vida afetiva em retração, pelo consumo automático sem gozo, pelos conflitos étnicos intermináveis sem nenhuma expectativa de solução no horizonte, tudo isso na Europa.

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Mas, hoje, quero falar para você de outra obra dele, esta, infelizmente, ainda sem tradução no Brasil, creio eu. "En Présence de Schopenhauer", editora L'Herne, 2017. Este pequeno ensaio trata da sua descoberta da obra de Schopenhauer (1788-1860) e como o filósofo alemão, para Houellebecq, seria leitura obrigatória para quem queira pensar o mundo.

Por quê?

Para o autor francês, o alemão Schopenhauer teria captado a intuição essencial do "mistério" da vida: uma vontade louca, cega, irascível, sem descanso e sem objeto definitivo, em movimento criativo e destrutivo infinito. O filósofo Schopenahuer oferece ao escritor Houellebecq a ontologia que combina com suas descrições sociológicas e psicológicas.

É a inexistência de qualquer finalidade maior na vida das espécies que encanta o escritor. Por exemplo, na passagem em que Schopenhauer no seu "Mundo como Vontade e Representação", de 1819, descreve a ilha de Java e a descoberta de esqueletos de tartarugas ali é inesquecível. As tartarugas saem da água para desovar e são cruelmente devoradas por cães selvagens que as viram de costas, sem a proteção dos seus cascos, e as comem vivas. Houellebecq recomenda fatos como estes aos ecologistas que tomam a natureza como um ser sábio e generoso.

O ensaio segue comentando trechos da obra máxima do filósofo, com tradução do próprio Houellebecq. Outro trecho significativo é quando ele reconhece que num cenário terrível como este, Schopenhauer tem ousadia intelectual ao dizer, mesmo noutras obras, o que é indizível: precisamos de piedade, amor, sabedoria, felicidade, todas experiências improváveis.

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O impacto é ver como hoje em dia se fala dessas experiências com fórmulas falsas e esquemáticas, quando na verdade, tais experiências são quase incompreensíveis para seres dominados pela vontade cega, entediada e irascível.

Nossa vida é tomada pelos conflitos das paixões e dos desejos que não encontram harmonia. Vagamos, mais do que nunca, para ambos os autores, entre o sofrimento e o tédio. Fugimos de um, caímos no outro.