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Ética extemporânea
| Foto: Clem Onojeghuo/Unsplash

Extemporâneo é o contrário de contemporâneo. Nietzsche gostava desse termo. Às vezes, ser extemporâneo pode ajudar você a atravessar as horas.

Hoje em dia é sinal de possível saúde mental e noção de ridículo, já que ser contemporâneo pode significar fazer coisas ridículas achando que está abafando. Vejamos alguns exemplos dessa ética extemporânea negativa.

Não brigar na fila da vacina porque você, infectologista amador, com diploma do WhatsApp, só aceita a vacina da Pfizer. E, antes de tudo, não achar que ela é um trunfo epidemiológico. Jamais bater no peito e dizer "tomei a Pfizer!". Se for o caso, guarde para si o que, no país corrupto em que vivemos, tornou-se um suposto privilégio.

Aliás, o "guarde para si" aqui me lembrou um outro imperativo categórico fundamental em nossos dias. Você não sabe o que é um imperativo categórico? Seja humilde e olhe no Google.

Não faça marketing digital de si mesmo. O termo com evidente significado na área profissional, quando retirado da sua especificidade, soa brega.

Nada pior do que fazer selfies com vista para o mar. Não diga coisas como "por que não fazemos um marketing do bem?", achando que sacou algo que ninguém mais sacou.

Qualquer profissional honesto da área sabe que "marketing do bem" soa como "matar em nome da vida".

Não poste no Instagram textos dizendo que as pessoas são livres para terem o gênero que quiserem e que a sociedade é opressora. Melhor sair logo do armário. Aliás, "sociedade opressora" é uma expressão que já virou cafona, não?

Tem gente por aí rezando para o filho ser trans e assim poder posar de pai ou mãe de filho trans nas redes sociais. Nada mais contemporâneo.

Não use gênero neutro. O ridículo aqui se soma à equivocada ideia de que você está sendo revolucionário, que, aliás, nada mais significa do que ser disruptivo no mundo do marketing.

E, acima de tudo, não fique horas discutindo formas alternativas de medicina ou alimentação. Não fale frases como "minha nutricionista disse isso". Todos saberão que você não faz sexo há muito tempo. Ainda bem que a peste chegou, assim você não precisa mais fingir que gosta de sexo.

Não defenda a alimentação para humanos baseada em alpiste. Não diga frases do tipo "animais são amigos e não comida". Frases assim traem sua ignorância acerca da natureza.

Não coma insetos como fonte de proteína, como alguns europeus malucos estão fazendo. E, acima, de tudo, não confie nos europeus tanto assim, lembre o que fizeram ao longo de anos, apesar de serem chiques.

Não entre no comitê de pais da escola seriamente preocupado com a política de açúcar para as crianças. Não discuta o colesterol do seu filho de quatro anos achando que você seja uma pessoa bem informada por causa disso. Aliás, seja corajoso e confesse que considera criança um saco em vez de dizer que o planeta está superpovoado.

Não use expressões do tipo "pessoas não binárias", "crianças cristais" ou "quero deixar um legado". Não diga que as crianças hoje nascem mais evoluídas e por isso ensinarão aos pais como viver. Dizer coisas assim atestam que você é um equivocado sobre a ordem das coisas.

E, por falar em crianças, se puserem você no grupo de WhatsApp de pais da escola do seu filho, saia sem dizer nada, em silêncio, como pessoas educadas –raça em extinção– faziam antigamente.

Algumas rapidinhas. Fotógrafo de comida? Ruim, não?

Acreditar que fazer cerveja artesanal seja um estilo de vida natural é bem bobo, não?

Se você praticar crossfit, não deixe ninguém saber, afinal, ninguém é perfeito, né?

Se você fizer parte daquelas hordas de gente que anda de bike na rua, não fique gritando, afinal, as pessoas têm o direito de não querer ouvir a sua voz, não? Se você gostar de música ruim, guarde seu mau gosto para si, não aumente o som do seu carro, okay?

Se acordar de manhã com uma vontade irresistível de ser ativista de alguma causa, procure ajuda profissional. Pode ser uma boa não ter causa nenhuma. Preste atenção que todo mundo bacana tem alguma causa, logo, ter causas deve ser coisa de gente chata, não?

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