
Ouça este conteúdo
As conversas sobre a mudança do sistema de presidencialismo para semipresidencialismo no Brasil começaram com o pé errado e pelo canal errado: por membros do Centrão e do STF. No entanto, o tema é digno de ser discutido, pois a mudança de regime é fundamental para o Brasil sair do lodo político que o atual regime criou.
Em meu primeiro livro, “Por que o Brasil é um país atrasado?”, faço uma análise da situação política dos mais de 190 países que compõem a ONU. No capítulo 6, por exemplo, estão claramente identificados quais países têm o maior e menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH).
Nos primeiros lugares do IDH estão aqueles com sistema parlamentarista, (na maioria, monarquias cristãs, e algumas repúblicas). Os países mais subdesenvolvidos, ditatoriais e pobres, têm menor IDH, são repúblicas presidencialistas ou semipresidencialistas.
Como definir o regime?
O fator marcante para auferir o regime é avaliar quem exerce domínio. Se o parlamento é quem define a agenda política, o orçamento, a execução de políticas públicas e a representação da vontade popular do momento, o modelo é parlamentarista. Quando o presidente lidera essas funções, o sistema é presidencialista.
Decorre dessa ideia o próprio nome, “parlamentarismo”. O sufixo “ismo”, aliás, está também presente em “presidencialismo”, e define quem comanda, ou deveria comandar o sistema político.
Mas, e no semipresidencialismo, quem é que manda? É aí que mora o perigo.
Semipresidencialismo e seus extremos: entre todos os países desenvolvidos, com maior IDH, apenas dois adotaram esse modelo. E eles são claramente liderados por seus parlamentos: França e Portugal. Em ambos, o presidente não é a figura central e as discussões parlamentares concentram o pulso da política dos dois países, dominando a agenda. O presidente é um agente direcional, mas pode sofrer reveses do parlamento.
Do outro lado, há sistemas semipresidencialistas, como o da Rússia, Bielorrússia, Ucrânia e diversos outros países da Ásia e da antiga União Soviética que também se dizem semipresidencialistas, mas seus parlamentos são totalmente irrelevantes no protagonismo político e seus presidentes são ditadores de fato.
Onde está o erro? Na subordinação. No semipresidencialismo ditatorial, o presidente comanda o orçamento, a agenda política e a legislação
Ele nomeia quem será o primeiro-ministro, a mesa diretora do legislativo e estes se tornam subordinados a ele. O parlamento nesses casos se torna mero carimbador das decisões do presidente.
E no Brasil? No modelo político do Brasil, o presidente concentra o orçamento e define a agenda, mas quem aprova tudo isso é o Congresso. Nos últimos 30 anos, o Executivo tem obtido sucesso na compra do Congresso para aprovar o que quer. Ou seja, o Congresso Nacional tem se subordinado ao poder executivo pela corrupção.
Portanto, considerando quem está iniciando essa discussão, se o Brasil migrar para um modelo semipresidencialista será para subordinar o Legislativo ainda mais ao poder Executivo, efetivamente criando uma ditadura, ou para criar um modelo mais parlamentarista? Para quem trabalha na política, a resposta é óbvia.
A concentração do poder no presidente abriu portas para o nazismo: o modelo semipresidencialista surgiu na República de Weimar, na Alemanha, após a Primeira Guerra Mundial, depois do fim do Império Alemão. Depois de eleito, o presidente deveria sugerir um primeiro-ministro ao Parlamento, que vinha para compor uma coalizão majoritária. Caso não tivesse adesão do Parlamento, outro seria nomeado até que o Parlamento aceitasse a sugestão do Presidente. Até aí estava tudo bem, só que mais tarde, nos anos 30, os nazistas conseguiram distorcer esse modelo.
Para apaziguar as arruaças que o partido nazista estava promovendo nas ruas, o presidente Paul von Hindenburg nomeou Adolf Hitler primeiro-ministro, mesmo sem maioria do parlamento. O que aconteceu depois, todos nós já sabemos.
Quando Hindenburg morreu, Hitler, em vez de convocar novas eleições para presidente, deixou os nazistas criarem uma falsa crise e se aproveitou da situação para consolidar os dois cargos em um só, tornando-se presidente e primeiro-ministro ao mesmo tempo: um super-presidente, ou seja, um ditador. Em grande parte, tudo isso foi conduzido de forma constitucional, apelando a regras de calamidade, segurança nacional e poderes emergenciais, com o intuito de não chamar novas eleições.
Esse é o modelo semipresidencialista que começou certo, mas deu errado. Agora vamos entender o outro lado da moeda.
O outro lado do semipresidencialismo: enquanto a Alemanha concentrava poder no presidente, a França, no mesmo período, concentrava poder no parlamento durante a Terceira e a Quarta República. Havia um presidente escolhido e sucumbido pelo parlamento, de forma que o presidente não tinha força e o parlamento era extremamente fragmentado pelos caciques partidários, o que impossibilitava a governabilidade.
Mais tarde, o general Charles De Gaulle resolveu a questão, fazendo um referendo popular para criar a Quinta República: deu ao presidente poderes bem definidos. Eleito por um colégio eleitoral, o presidente ganhou e tinha o poder de sugerir um primeiro-ministro ao parlamento (como era na República de Weimar pré-Hitler). Na verdade, o que De Gaulle fez foi criar duas fontes de poder legítimas: a do presidente e a do parlamento.
Na Quinta República, o parlamento se tornou muito mais representativo e fiel ao eleitor, e não aos caciques partidários, mudando o sistema de votação para voto distrital. Esse fator, aliado ao equilíbrio do poder do presidente perante o parlamento, foi o que salvou o modelo semipresidencialista francês.
Com mais representatividade direta, os caciques de partidos têm menos força na barganha de divisões políticas e o parlamento ganha em legitimidade na condução da política. O poder do presidente francês tornou-se o que é hoje, um direcionador da agenda, mas o parlamento continua soberano. E assim a França segue até hoje, uma referência de país desenvolvido a partir desse modelo semipresidencialista.
É curioso notar que França e Alemanha tomaram caminhos antagônicos. A Alemanha começa o século 20 com o sistema semipresidencialista, reforçando o poder para o presidente, mas após a Segunda Guerra Mundial adota um modelo parlamentarista, com o congresso forte e presidente mais fraco.
Em oposição a esse modelo, a França começa o século 20 com a Terceira e Quarta República de sistemas quase exclusivamente parlamentaristas e acaba por adotar, na Quinta República, com De Gaulle, um sistema semipresidencialista, presidente com mais poder. O ponto a ser discutido, portanto, não é se o melhor modelo para o Brasil seria o parlamentarismo ou o semipresidencialismo, mas onde está o equilíbrio de forças.
No contexto francês e alemão, essa equação foi resolvida para conduzir ambos os países a mais estabilidade política, dos meados do século 20 até agora. E nós?
Legitimidade, limites e equilíbrio
Se por um lado, o semipresidencialismo pode se tornar uma ditadura do executivo, por outro, se reforçar demasiadamente o poder do parlamento, pode destruir qualquer chance de governabilidade. O ideal é reforçar a legitimidade de cada um desses poderes, estabelecer limites claros e definir um regimento de balanço.
Para isso é fundamental definir claramente os papéis, tanto do parlamento como do presidente.
No caso do Brasil, alguns dizem que o regime é mais parlamentarista, mas só o presidente tem legitimidade por causa do voto direto.
Na prática, temos uma jabuticaba que não é presidencialista nem parlamentarista e sofre dos vícios dos dois modelos
Há vários detalhes para melhorar o nosso regime e todos são cruciais. Por exemplo, sugiro que o parlamento tenha mais poderes de orçamento e definição de política pública pelas comissões, extinguindo as agências reguladoras do executivo e tirando alavancas de corrupção do Congresso.
Outra sugestão é adotar o voto distrital, para dar mais legitimidade ao parlamentar e limitar a condução da política pelos caciques dos partidos. Esse tem sido o nosso padrão mais evidente e que destrói qualquer chance de amadurecimento de uma democracia representativa, com estabilidade e equilíbrio.
O limite invisível: vemos como no presidencialismo, parlamentarismo e semipresidencialismo os detalhes contam e definem se o país tem a chance de se tornar digno e desenvolvido. A função dos parlamentos é a parte mais importante para definir se o país é uma democracia representativa madura ou não, e sabemos como a corrupção age no Congresso do Brasil, avassalando o legislativo.
É importante ressaltar que as Câmaras são mais representativas que o poder executivo, e devem ser soberanas na questão de definição de legislação e de governabilidade. Os outros poderes, Executivo e Judiciário, também são legítimos, mas meros orientadores do parlamento. Entretanto, há um limite importante ao poder do parlamento e que poucos mencionam: a federação.
A França, por exemplo, não é um país federalista, mas existe o poder devolvido para regiões autônomas, que têm parlamentos próprios para definir legislações e tributações locais. Essa autonomia federativa também impõe um limite ao poder do parlamento central.
Já o modelo federalista da Alemanha, a descentralização é mais forte, ao ponto de as assembleias locais terem mais poder decisório sobre mais temas que o parlamento central. O mesmo ocorre nos Estados Unidos, em que o congresso norte-americano interfere menos na vida dos cidadãos que nas assembleias dos Estados-membros.
E no Brasil? O Brasil se define federalista, mas o Congresso Nacional concentra muito mais poder legislativo que muitos países unitários como a França, por exemplo. Esse é um aspecto importante na análise, pois nem todos os modelos seguem na prática o que dizem ser no papel.
Em suma: a diferença entre presidencialismo, parlamentarismo e semipresidencialismo está nos detalhes e é importante prestar atenção a eles. Na história das democracias dos últimos 300 anos, os países desenvolvidos que se caracterizam como tal souberam reforçar seus parlamentos, e não enfraquecê-los, e respeitaram os limites e equilíbrio de forças entre poderes.
A mudança de regime é importante, mas a discussão desse tema ainda está concentrada nas mãos erradas. É fundamental que mais cidadãos se qualifiquem para participar do debate. Quem sabe este artigo seja o início do caminho para atingirmos o objetivo de fazer o Brasil deixar de ser um país atrasado?
Conteúdo editado por: Aline Menezes

Luiz Philippe de Orleans e Bragança é deputado federal por São Paulo, descendente da família imperial brasileira, trineto da princesa Isabel, tetraneto de d. Pedro II e pentaneto de d. Pedro I, sendo o único da linhagem a ocupar um cargo político eletivo desde a Proclamação da República, em 1889. Graduado em Administração de Empresas, mestre em Ciências Políticas pela Stanford University (EUA), com MBA pelo Instituto Européen d'Administration des Affaires (INSEAD), França. Autor dos livros “Por que o Brasil é um país atrasado”, “Antes que apaguem”, “A Libertadora – Uma Nova Constituição para o Brasil” e “Império de Verdades”. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



