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aborto
| Foto: Unsplash

Hoje me mandaram um print da capa da Veja que até uns 10 minutos atrás eu ainda achava que era meme tirando sarro da minha cara por falar tanto em identitarismo. É 13 de maio, dia da abolição da escravatura, data importantíssima e simbólica para o movimento negro brasileiro. A tal da capa teria as frases: "Meu ventre é livre - precisamos falar sobre aborto". Obviamente só podia ser meme. Explico como concluí isso.

A primeira coisa é que repetir o clichê do parque de areia antialérgica "precisamos falar sobre tal coisa" a gente só usa em piada. Aliás, exatamente porque esse pessoal jamais ouviu um não na cara, é avesso a debate. Só fala mesmo. Inventa alguma coisa, vomita em cima de você e, se você não aplaudir, é fascista.

A outra coisa é até eu, que sou branca, conseguir ver nitidamente o racismo do negócio. A Lei do Ventre Livre, de 1871, foi a que extinguiu a extensão hereditária da escravidão. O filho da mulher escravizada nascia cidadão livre. O pessoal decidiu comparar a opressão de gente sequestrada e escravizada à possibilidade de revogação da lei de aborto dos EUA? A bancada da Classe Média Sofre está indo longe demais.

Graças a Deus o jornalismo lacrativo desfruta do free pass progressista Zé de Abreu e não foi cancelado. A desgraça é que pode cancelar o jornalismo. Quando descobri que se tratava de um artigo real, resolvi ler e estava ali a modalidade kamikaze de imprensa que tem ficado tão famosa por essas bandas, a que mistura reportagem com colunismo.

Eu já fiz reportagem, quando era jovem e tinha esperança na humanidade e na evolução cognitiva. Agora eu sou colunista, faço análise de fatos, separo o que é fato do que é a minha análise e me dou por contente por gritar algo durante anos inutilmente e depois dizer "eu avisei". É uma espécie de mãe da coletividade esse trabalho. Se bem que você pode ser colunista gritando previsões, daí ocorre o oposto e você finge que era aquilo. Enquanto houver otário, malandro não morre de fome.

Voltemos à capa sobre o aborto equiparado à "Lei do Ventre Livre". Poderia ser uma estratégia para irritar os Che Guevara de apartamento e vender muita revista? Sim. Basta esse pessoal ficar com raiva de alguma coisa que é sucesso garantido. E a reportagem em si poderia ser algo interessante sobre um debate tão difícil de fazer. O título propõe um debate, mas é tudo aquilo que a peça não faz.

Não temos ali nem debate nem reportagem, temos uma coluna de opinião favorável ao aborto que chega à aberração de chamar de "lado obscuro da força" (seria mais racismo?) o fundamentalismo evangélico que apóia Bolsonaro e é contra o aborto. Onde mora esse pessoal? No Brasil, mais da metade da população é contrária à legalização do aborto, 1/5 tem dúvidas e somente 1/4 são favoráveis. Ninguém contrário foi ouvido.

A reportagem recorre a uma estratégia não só sensacionalista mas também ruim para dar mais peso à importância da questão. Enumera os números de óbitos decorrentes de abortos não legalizados. Por que é uma estratégia ruim? Porque ignora a cognição humana e a psicologia social. Contar casos específicos e aproximar as pessoas do drama humano é muito mais efetivo que enumerar algo que ninguém sabe quantificar.

Num país de mais de 600 mil mortos por COVID e de mais de 60 mil assassinatos anuais, parece um recurso pouco inteligente dizer que todos os anos morrem em todo o mundo 47 mil mulheres vítimas de abortos mal feitos. (Os números, aliás, são um capítulo à parte, sugiro que você leia este artigo se pretende se aprofundar mais.) Ele só funciona na base da chantagem emocional do identitarismo, o julgamento moral de quem questionar o ridículo da utilização desse número sem contextualizar. Imediatamente, a pessoa será apontada como quem não liga para a carnificina das mulheres negras e pobres da periferia que morrem por não poder fazer abortos legais.

Como eu não estou nem aí para gritaria de madame, apresento alguns números a vocês. Sabem quantas pessoas morrem no mundo de diarréia? Todos os anos 1,6 MILHÕES de pessoas morrem de diarréias evitáveis e curáveis em todo o mundo. A discussão sobre aborto não é por emergência de saúde pública, é moral. Temos um dilema moral importantíssimo sobre direito à vida.

O momento em que começa a vida tem sido historicamente a discussão central, que não é apenas religiosa, é moral e legal. Se a vida começa na concepção, então aquela pessoa é sujeito de direitos desde aquele momento inicial. Se a vida começa a partir do momento em que é autônoma fora do corpo da mulher, então aquele seria o momento em que se torna sujeito de direitos.

Tempos atrás, amigas feministas pouco afeitas à matemática celebraram uma lei que permite aborto com até 6 meses de gestação. Alertei que seria um retrocesso ao movimento delas. A discussão sobre criminalização do aborto sempre foi outra. Mesmo quem é favorável à total legalização vai implicar com a mudança da premissa de discutir apenas sobre vidas inviáveis.

Fiz um artigo sobre isso e muitas madames abortistas deram chilique, como sempre. Vocês conhecem como funciona: é só juntar um monte de clichê vindo de teorias que elas não leram, inferir que o outro é burro ou mal intencionado, carimbar o conservador e contra as feministas. Pronto, temos o pacote básico do burrismo militante. Meses depois, caiu o percentual de brasileiros que aprovam a legalização do aborto. Elas vão repetir nesse artigo, não duvidem.

"Transformado em campo de batalha de questões éticas, morais e religiosas, o acesso ao aborto virou uma cilada eleitoral da qual a maioria dos políticos tenta fugir. O ex-presidente Lula, candidato do PT ao Planalto, caiu nela ao emitir recentemente a correta opinião de que “todo mundo tem direito, é uma questão de saúde pública”. Diante da reação indignada da turma do contra, puxada pelo influente coral evangélico, recuou e disse que, pessoalmente, não aprova a opção pelo recurso. Bolsonaro, fiel militante do lado obscuro da força, deixa claro que, no que depender dele, o aborto jamais deixará de ser crime", diz o que se apresentou hoje como uma reportagem de capa de uma das maiores revistas do país.

Isso seria mentira até numa coluna de opinião. Pessoas têm direito à própria opinião, mas não aos próprios fatos. Há dois dias, a coluna do Thomas Traumann mostrou que defender aborto mudaria o voto de mais da metade dos eleitores de Lula. Um "debate racional" sobre aborto não pode ignorar que falamos aqui de uma maioria do Brasil, não da minoria ultraconservadora e fanática religiosa que parte do jornalismo kamikaze gosta de pintar.

A pesquisa Genial/Quaest mostrou como o parque de areia antialérgica da sociedade vive distante do mundo real. A fala de Lula sobre aborto foi considerada acertada e importantíssima. Ele e Bolsonaro, diga-se de passagem, fazem o mesmo jogo de pai da década de 1980 há anos. Dizem que a decisão é da mulher e, quando foi com eles, até cogitaram mas as crianças vieram ao mundo e são adultos. Quando conveniente, lançam mão dos fatos. Quando necessário, dizem que, no que depender deles, não legalizam nada.

Também é um pouco uma questão de classe social. Políticos mais ricos são os que vêm com a argumentação canalha do "quem nunca teve uma namoradinha que precisou abortar?". Não lembram? Eu lembro, faz 12 anos e um então pujante e promissor Sérgio Cabral emitiria a pérola em um evento público. Nunca foi essa a linha de argumentação de Bolsonaro e Lula, vindos de outra classe social e época, em que "namoradinha que engravida" geralmente se resolvia com casamento.

Os dois, aliás, nem tiveram a "namoradinha que engravida", tiveram aventuras depois de maduros e casados e assumiram os filhos, coisa rara entre políticos. Na última campanha, Jair Bolsonaro já dizia que homem não deveria dar pitaco nessa história mas que ele não ia legalizar nada.

Lula comeu o pão que o diabo amassou na eleição de 1989. O último programa eleitoral de Fernando Collor levou à televisão a ex do petista, Miriam Cordeiro, revelando muito emocionada o pedido para que abortasse quando engravidou. Ela não abortou, ninguém tinha prova nenhuma de que o pedido foi feito, Lula assumiu a filha, se relacionava com ela e Lurian é um nome nacionalmente conhecido, faz parte da família Lula. Não importava. Aborto em eleição brasileira é sempre incendiário:

A nova opinião de Lula sobre o aborto foi celebrada pela lacração que vive fora da realidade como um grande avanço. Se tivesse algum significado real, o PT teria legalizado o aborto no Brasil. Durante a época do mensalão muito provavelmente teria conseguido se fosse prioridade. Não é porque também não é prioridade para o povo, apenas para uma porção da elite que quer enfiar seus valores goela abaixo dos demais.

Quem defende debates racionais sobre o aborto geralmente tem argumentos emocionais e moralistas. "Então você é a favor que milhares de mulheres morram em clínicas clandestinas?" ou "num país em que corruptos e assassinos estão soltos, você quer prender uma menina que abortou?". Não existe nenhuma possibilidade de debater nessa base.

Debate supõe a adoção do princípio da boa-fé, uma premissa civilizatória de diálogo. Você tenta entender o que a pessoa pensa e diz. Quem usa argumentos como estes pisoteia o princípio da boa-fé. Faz a pior leitura possível do que alguém fala e ainda emenda com um julgamento moral pesado. Se alguém tem dúvidas sobre o início da vida, em um segundo vira um defensor de assassinato de mulheres pobres. É essa intolerância que aumenta a dúvida sobre legislação de aborto, não o conservadorismo.

Algumas pessoas têm uma tática para saber com que tipo de jornalista conversa: pergunta a você o que pensa sobre aborto. Se vier com aquele amontoado de clichês, apelos emocionais e condenações moralistas de quinta categoria, carimbam na testa "Che Guevara de apartamento" e desistem de discutir. Outro dia, num evento, uma empresária cristã e conservadora tentou essa comigo. Acabamos numa discussão muito profunda e libertadora.

Quando ela perguntou das minhas certezas, expus minhas dúvidas. Eu não tenho tantas certezas sobre como tratar todos os casos. A questão do início da vida, que parece tão complexa, é mais simples do que a questão humana. Como agir com essas mulheres? Tem histórias de todo tipo, será que uma regra valeria para todas? Eu não sei. Só sei que não é fazendo julgamento moral rasteiro que iremos entender a importância que o Brasil dá ao tema e o rumo que realmente quer dar à questão.

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