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Reflexões sobre princípios e cidadania

“É terrível”, diz autor do International Trade Barrier Index sobre o Brasil

Somos o país de número 77 entre 86, elencados do menor para o maior uso de barreiras comerciais.

  • Por Madeleine Lacsko
  • 18/11/2019 15:57
“É terrível”, diz autor do International Trade Barrier Index sobre o Brasil
| Foto:

O debate sobre comércio internacional e barreiras comerciais é frequentemente feito com ideologia e voltado para a política entre os países. Os indivíduos e suas liberdades acabam sendo tratados como efeitos colaterais.

O think tank Property Rights Alliance (Aliança pelos Direitos de Propriedade), que já é conhecido pelo seu International Property Rights Index (Índice Internacional de Direitos de Propriedade), desenvolveu agora um novo trabalho, o International Trade Barrier Index (Índice Internacional de Barreiras Comerciais).

Ele elenca dados sobre medidas tarifárias e não tarifárias para 86 países, gerando um ranking e mecanismos de comparação de dados entre os países. A amostra representa 94% do PIB mundial e 91% de todo o comércio de mercadorias e serviços.

Os líderes do comércio livre são Hong Kong e Singapura. O Brasil está na rabeira do ranking: 77 de 86 países.

Philip Thompson, autor do International Trade Barrier Index, concedeu entrevista exclusiva à Gazeta do Povo
Philip Thompson, autor do International Trade Barrier Index, concedeu entrevista exclusiva à Gazeta do Povo

O que significa estar nessa posição no ranking? Exatamente para não falar de economia como se as pessoas fossem detalhes, procurei o autor do International Trade Barrier Index. Philip Thompson me concedeu uma entrevista exclusiva explicando o impacto desse índice econômico na vida da população.

Madeleine Lacsko - Há alguma relação do International Trade Barrier Index com desenvolvimento, liberdade ou qualidade de vida para os cidadãos?

Philip Thompson - Sim! Países com menores barreiras comerciais experimentam mais liberdade e prosperidade enquanto aqueles com barreiras mais altas tendem a ter maiores taxas de corrupção e abusos contra a imprensa. É por isso que fizemos o índice. Pessoas fazem comércio, não países. Frequentemente, números como déficit ou superávit e o que um líder disse a outro dominam as manchetes de negócios. São distrações. Política comercial deveria focar em reduzir barreiras comerciais entre pessoas comuns e negócios para que possam fazer o intercâmbio de produtos e serviços da forma como julgarem melhor. E, finalmente, nós temos uma medida que nos ajuda a ver essas barreiras e compará-la entre os países. Veja o gráfico de todas essas correlações. Nas ciências sociais, uma correlação de .50 ou mais alta é considerada robusta.

Correlações entre o International Trade Barrier Index e indicadores de desenvolvimento humano<br />
Correlações entre o International Trade Barrier Index e indicadores de desenvolvimento humano

Você acha que devemos remover todas as barreiras comerciais ou em alguns casos elas são necessárias?

Eu acho que nós deveríamos remover a maioria das barreiras comerciais, especialmente tarifas. Elas não deveriam ser removidas imediatamente, algumas podem ser necessárias para a segurança do consumidor ou para proteger o mercado de concorrência desleal. Mas, mesmo nesses casos, o protecionismo pode não ser a melhor resposta.

Todas as barreiras comerciais existem para proteger uma indústria doméstica que é vulnerável à competição internacional e acaba rendendo despesas adicionais para os consumidores e também para a indústria. No entanto, se a competição internacional ameaça demitir trabalhadores demais muito rápido ou é sustentada por um Estado - em vez de forças do mercado - as barreiras podem ser justificáveis. Ainda assim é difícil dizer se seriam necessárias.

Por exemplo, os Estados Unidos descobriram um processo de dumping nas máquinas de lavar da Coreia do Sul, vendidas a preços muito menores que as norte-americanas e implementou tarifa anti-dumping de 20% no primeiro 1,2 milhão de importações e 50% acima disso. Os economistas descobriram que isso resultou em preços mais altos para máquinas de lavar, secadoras e suas peças, gerando aumento de US$ 1,5 bilhão nos gastos dos consumidores e US$ 82 milhões em impostos para o tesouro dos Estados Unidos. A indústria norte-americana alega que a proteção a permitiu fazer crescer os negócios e abrir 1880 postos de trabalho. Se você dividir o gasto adicional dos consumidores pelo número de postos criados, cada emprego custou aos consumidores US$ 878.888,00.

Esses 1880 empregos valem o custo de US$ 1,5 bilhão para os consumidores? Eu penso que não. Devo acrescentar ainda que o CEO da empresa norte-americana que mais se beneficiou recebeu um bônus extra de US$ 500 mil "pela sua performance" em 2018. Para onde teria ido esse dinheiro e quantos empregos teriam sido criados se o governo não tivesse decidido que era necessário proteger alguns trabalhadores que fazem máquinas de lavar?

Uma alternativa que eu prefiro - e diria que muitos economistas também - é simplesmente identificar quais são os postos de trabalho em risco devido a competição internacional e oferecer um subsídio para retreinar o empregado para uma função em que ele tivesse mais vantagem competitiva.

Atualmente, o Brasil tem cerca de 71 barreiras anti-dumping parecidas com essa. Alguns produtos que o mercado brasileiro protege com essas medidas: ventiladores de mesa dos Estados Unidos, União Europeia e China; resinas da Índia e Coreia; batatas congeladas da União Europeia; tubos de aço da china; leite em pó do Reino Unido e Nova Zelândia. Não é a lista completa dos países a quem o Brasil impõe essas medidas, apenas alguns que eu achei muito interessantes.

Qual é a nota que reflete um país em boa situação e quais as vantagens que remover barreiras comerciais pode trazer a um país?

No International Trade Barrier Index, uma nota 1 indica o menor uso de barreiras comerciais e uma nota 10 o mais alto uso.

Remover barreiras tem vantagens fantástica para a sociedade e os indivíduos. Permite a competição, incentiva a especialização e encoraja a inovação. O livre comércio permite que cada indivíduo foque seus talentos nas coisas que trazem maior benefício para ele e que também são valorizadas no resto do mundo. Países que liberalizaram seus regimes de comércio - especialmente os tigres asiáticos: Hong Kong, Singapura, Coreia do Sul e Taiwan - viram um crescimento fantástico do PIB, do salário médio per capita e quase erradicaram a pobreza. Hong Kong e Singapura são exemplos expecialmente bons porque não têm recursos naturais próprios. Eles conseguem importar componentes e transformá-los em microchips com valor agregado para o mercado global de tecnologia.

Remover barreiras comerciais são sempre decisões de um único país ou às vezes é necessário negociar regionalmente?

Idealmente, um país removeria barreiras unilateralmente. Frequentemente, isso é politicamente impossível porque os trabalhadores que são protegidos por barreiras tendem a votar mais do que a ampla população que se beneficiaria da regução de barreiras. A forma realista de remover barreiras é por meio de negociações em que os países podem dar acesso ao seu mercado (removendo barreiras) em troca de que o outro país também o faça. Dessa forma, é uma boa notícia ver o Brasil levar a sério as negociações comerciais com a União Europeia e os Estados Unidos.

Como você descreveria o panorama brasileiro? Por que o Brasil está tão baixo no ranking regional? Quais você considera que seriam as principais medidas para reverter a situação?

O ambiente de negócios no Brasil é terrível. O Brasil é a oitava maior economia do mundo, tem uma grande base industrial e é o lar de uma população talentosa e educada, mas as barreiras comerciais mantém o Brasil e seu povo fora da economia globa. Brasil é o 77o de 86 no índice. As maiores barreiras são em forma de tarifa. A tarifa média é de 13%, o que já é alto, mas a tarifa mais comum é a de 35% - e somente 5% das categorias são livres de impostos.

As administrações passadas no Brasil implementaram uma política de substituição de importações que é completamente ultrapassada e já se comprova que não chega nem perto do volume de benefícios que seriam gerados por uma política liberalizante de livre mercado. O país usa altos muros comerciais para manter seu enorme mercado refém e atrair empresas estrangeiras a se mudar para o Brasil, contratar trabalhadores brasileiros e "partilhar" propriedade intelectual. Não há muitas que queiram fazer isso. Isso torna os produtos mais caros e há um limite para o "crescimento" que se pode experimentar quando os produtores domésticos só podem produzir para seu país de origem.

Um exemplo é o setor de telecomunicações, em que leis atrasadas limitam a propriedade de estrangeiros, impõem cotas de programação local, pagamentos extraordinariamente altos de royalties e até a lei que separa produtores de distribuidores. Nós estamos vivendo na era da internet, em que a tecnologia embaçou esses limites. Essas leis impedem biliões em investimentos criando um ambiente de regulamentação imprevisível e limitando as escolhas de consumidores brasileiros.

Outro exemplo é o setor automobilístico. Países com economia aberta fazer parte da cadeia produtiva fazendo autopeças, importanto e exportando um ao outro as peças várias vezes até que se faça um carro completo. A competição intensa entre países que consomem carros incentiva a produção local e os inventores podem desenhar inovações que os coloquem na nova geração: Alemanha, Estados Unidos, Reino Unido, Japão, Coreia do Sul e Canadá. As tarifas brasileiras são proibitivas, o país tem de depender de empresas estrangeiras que venham ao Brasil e façam carros apenas para o Brasil usando o design e as inovações do exterior. O México, que é parte da cadeia global de suprimentos e o 58o no International Trade Barrier Index, exporta 6% dos carros no mundo enquanto o Brasil exporta menos de 1% e quase tudo só para a Argentina.

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Comentários [ 5 ]

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  • N

    Nícolas

    ± 14 horas

    Pode começar com a taxa de importação de 60% e toda a balela sobre proteger a indústria nacional. Medida meramente arrecadatória desde sempre. Continuaremos produtores de pedra, pau, mato e carne a depender dos industriais deste país.

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  • V

    Vincenzo

    ± 14 horas

    Embora cheia de detalhes técnicos, a questão, em si, das barreiras comerciais é simples. São 4 entidades: governo, produtor, trabalhador e consumidor. Quem ganha mais e quem perde mais com a atual situação de barreiras do Brasil?

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  • Z

    Zyss

    ± 14 horas

    Quer ajudar a mudar? Rompa com os seus amiguinhos socialistas da mídia e da política e desmascare essa patifaria toda. Isso é um desafio para autoproclamada queen sei lá do que...

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  • R

    Renata

    ± 15 horas

    Nossa economia sempre primou por manter o mercado interno em detrimento da abertura comercial. Além disso, possui uma enorme carga tributária. Eu penso que as pessoas não tem noção de quanto elas pagam de imposto. Sempre achei que aqui deveria ser como nos Estados Unidos, em que o preço aparece sem impostos e depois, no momento do pagamento, as taxas são inclusas. Assim ficaria bem claro e com certeza a cobrança sobre as autoridades seria outra.

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    RMSL

    ± 17 horas

    Tem muita coisa pra mudar... posição 77 no comércio livre mundial é uma vergonha.

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