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Elon Musk
| Foto: Alexander Becher/EFE/EPA

O universo da lacração está em polvorosa desde que Elon Musk resolveu se meter no Twitter. Sabem que a movimentação é estratégica e pode colocar um ponto final na ditadura dos lacradores nas redes sociais e também na imprensa. Eu não tenho dúvidas de que a intenção é esta. Minha preocupação é o que virá depois.

Tem quem dê por certa a vitória da liberdade de expressão, mas desconfio que não seja tão simples. Os lacradores creem que liberdade de expressão significa dar a eles o poder de censurar os discursos de que não gostam. A justificativa moral é que essas falas seriam ofensivas principalmente contra grupos minoritários. Num contorcionismo de raciocínio, afirmam que a verdadeira liberdade está na censura.

Não chegamos a essa distopia do dia para a noite, foi um processo insidioso que demorou anos. A desculpa de agir em nome do bem propiciou que, pouco a pouco, muita gente aceitasse entregar voluntariamente a própria liberdade a um grupo que jamais disse claramente seus objetivos. Todos nós em algum momento fazemos isso se estivermos dominados por medo ou ódio.

Desconfio que muitos de nós, diante da ditadura da lacração (ou identitarismo ou movimento woke) vão tender a confiar em Elon Musk como nosso libertador ou como um bravo guerreiro da liberdade de expressão. Não temos dados para nos assegurar disso. Só temos dados objetivos para saber que ele é um bravo guerreiro para impor a própria vontade. Ah, e também é bilionário, coisa que a gente não é.

Calma que eu não estou dizendo com isso que ele irá implantar outro tipo de ditadura de expressão. Ele pode, não temos fatos para saber se pretende ou planeja isso. Sabemos que ele fez algo chamado "compra hostil" do Twitter. Entrou como acionista, recusou participação no Conselho de Administração e agora anuncia que, se não venderem tudo para ele, sai da sociedade.

Por que isso seria hostil se ele tem o direito? Porque ele quebra a empresa caso ela não atenda as exigências dele. A existência do Twitter depende de compor com Elon Musk. Se ele decide vender de uma vez todas as ações que comprou, pelo movimento de mercado o Twitter vai à falência. Ele perderia um bom dinheiro, quase US$ 10 bilhões. Para quem tem uma fortuna de US$ 1 TRILHÃO e é excêntrico como Elon Musk, não seria impossível.

Muita gente questiona se o foco no Twitter seria um capricho do trilionário, que é usuário da rede. Afinal de contas, ela é absolutamente minoritária e considerada por muitos a cracolândia da internet. Talvez você nem tenha uma conta ou pouco se importe com o Twitter. Mas ele é estratégico porque pauta a imprensa. Muitos jornalistas hoje não cobrem mais os fatos, cobrem o Twitter.

O processo de solidificação da ditadura da lacração na mídia passa necessariamente pelo Twitter. É ali que grupos de pressão organizados atacam em enxame quem apontam como racista, machista, homofóbico, transfóbico ou gordofóbico. Geralmente é alguém que usou uma palavra de que o grupo não gosta ou alguém de quem o grupo não gosta e cometeu o crime hediondo de existir.

A lógica dominante é de que o valor de uma pessoa está no quanto seu grupo social é oprimido. Pouco importam ações e intenções, importam apenas discursos vazios e ser ou não de um grupo oprimido. Oprimidos podem tudo, inclusive oprimir. Quem se diz defensor de oprimido ganha o manto da virtude e o free pass para cometer qualquer barbaridade em nome do bem. Essa lógica vai parar na imprensa.

Não há problema se jornalistas viverem suas vidas pessoais de acordo com essas regras da seita do identitarismo. O problema é querer empurrar esse conjunto de crenças para o noticiário, o que causa uma erosão de confiança na imprensa. Não sou contra ter colunistas que defendam o identitarismo como ideologia ou religião, colunismo é algo plural, opinativo e subjetivo. Falo em substituir fatos por versões identitaristas, um movimento que já ocorre e beira a bizarrice.

O caso mais recente e talvez o mais delirante seja o da mãe que queria enfiar uma criança de 5 anos num lugar proibido para menores de 18 anos. É um bar improvisado que virou point do parque de areia antialérgica progressista de São Paulo. As donas colocaram cadeiras de praia e luzes de neon num estacionamento coberto de brita, picharam "Fora Bolsonaro" numa parede "instagramável" e montaram um grande sucesso.

Ninguém conhece um negócio melhor que o próprio dono. Esta foto é do "bar". Não precisa ser um gênio para concluir que não é lugar para criança. Os donos exigem comprovante de maioridade para entrar. Barraram a mãe com a criança de 5 anos por razões óbvias. Isso virou notícia. Pior, virou uma notícia de "preconceito contra mães solo" nos principais veículos do país. Jornalistas diziam ser uma violência e entrevistavam a mãe, contando de forma dramática o quanto chorou.

Para que jornalistas profissionais cheguem a esse nível de alienação, é necessário ter passado por muita manipulação emocional. Isso acontece principalmente no Twitter, rede preferida da imprensa. Se defendem a oprimida mãe solo, são aplaudidos pela lacração. Se defendem a criança, que deve ser protegida de um ambiente cujo dono diz claramente ser inadequado para menores, são atacados. Acabam moldando sua forma de agir.

Mudar a estrutura do Twitter é algo estratégico para a liberdade de expressão porque a ditadura do identitarismo, nas redes sociais e na imprensa, não se dá por convencimento como muitos pensam. Não é um processo racional ou uma decisão de aceitar imposições pensando em vantagens. A conformidade social é uma força poderosa sobre todos nós. Observe esse vídeo postado pelo professor de psicologia e ciências neurais da NYU Jay Van Bavel:

Na era analógica sempre foi muito claro que a garantia da liberdade de expressão era uma função dos poderes institucionais, do Estado. Eles é que tinham o poder de criar regras para que indivíduos fossem realmente livres para se expressar e não ficassem presos a armadilhas da conformidade social. Na era digital, as Big Techs exercem esse poder de fato, ainda que não o tenham de direito.

É um desafio mundial a regulamentação das Big Techs, para que estejam submetidas à lógica do poder institucional. Meu amigo e parceiro Anderson Godz, fundador da inovadora edtech Go New, criou a Teoria dos Seis Poderes. Além dos Três Poderes temos a mídia, Quarto Poder, as Big Techs são o Quinto e os grupos de pressão formados e potencializados pelas Big Techs são o Sexto.

O Quinto e o Sexto poderes mudam a forma como todos os demais podem exercer poder. As Big Techs já são chamadas por muitos de empresas-estado. Obviamente não têm esse direito por escrito em nenhum lugar do mundo, mas já exercem efetivamente este papel, principalmente se levarmos em conta a importância que a conformidade social tem para as diferentes sociedades.

A regulação da liberdade de expressão dos indivíduos tem sido de fato submetida às Big Techs e aos grupos de pressão formados e potencializados por elas. O Quarto Poder, a mídia, foi arrebatado por essa dinâmica. Os Três Poderes institucionais ainda não encontraram uma forma de fazer valer sua autoridade na garantia da liberdade de expressão. Agora chega Elon Musk com uma fórmula ainda mais nova. Transcrevo a carta dele ao presidente do Conselho de Administração do Twitter:

"Bret Taylor
Presidente do Conselho,
Investi no Twitter porque acredito em seu potencial para ser a plataforma para a liberdade de expressão em todo o mundo, e acredito que a liberdade de expressão é um imperativo social para uma democracia funcional.
No entanto, desde que fiz meu investimento, percebo que a empresa não prosperará nem atenderá a esse imperativo social em seu atual formato. O Twitter precisa ser transformado como empresa privada.
Por isso, estou oferecendo a compra de 100% do Twitter por US$ 54,20 por ação em dinheiro, um prêmio de 54% em relação ao dia anterior ao meu investimento inicial no Twitter e um prêmio de 38% sobre o dia anterior ao meu investimento ser anunciado publicamente. Minha oferta é minha melhor e final oferta e, se não for aceita, precisarei reconsiderar minha posição como acionista.
O Twitter tem um potencial extraordinário. Eu vou desbloqueá-lo."

A mensagem é centrada em democracia e liberdade mas, cá entre nós, não tem nada de democrática nem de libertária. Os apaixonados pela mão invisível do mercado provavelmente dirão que os descontentes poderão migrar para outra plataforma. Ocorre que isso requer a ideia de livre mercado, que simplesmente não existe no universo das Big Techs.

É um mercado que canibaliza novas iniciativas, não é certo dizer que novas plataformas podem ser criadas. As grandes têm condições objetivas para oferecer que as pequenas admitam ser compradas - para desenvolvimento ou aniquilação - ou sejam sufocadas. É exatamente o que Elon Musk está fazendo agora, seguindo a lógica de um mercado canibal e extremamente concentrado.

A movimentação de Elon Musk a favor da liberdade de expressão também é no sentido de uma concentração de poder ainda maior. As arbitrariedades ideológicas das Big Techs afetam a imprensa, indivíduos e indústrias no mundo todo. Agora um único indivíduo, se tiver capital suficiente, pode colocar uma Big Tech de joelhos e transformar-se em uma espécie de "indivíduo-estado", com pretensões de ser o garantidor da liberdade de expressão no lugar dos poderes estabelecidos.

Já sabemos que não existe coincidência entre o conceito de liberdade de expressão e o que as Big Techs dizem ser liberdade de expressão. Para elas, é uma censura moralista que em tese privilegia o discurso a favor de grupos historicamente oprimidos. Em muitos casos práticos, vemos simplesmente o esmagamento de quem discorda das crendices do identitarismo. Elon Musk parece partilhar dessa impressão.

"A Netflix esperando a guerra acabar para fazer um filme sobre um homem negro ucraniano que se apaixona por um soldado russo transgênero", diz a legenda que ilustra a foto do nosso ídolo tupiniquim Wagner Moura. As críticas que ele faz são exatamente as mesmas que a maioria de nós tem feito. Mas as crenças dele sobre liberdade de expressão são as mesmas que você tem? Seriam as mesmas que são pacificadas internacionalmente pelas instituições de Estado? Não sabemos.

Presenciar a história ser feita é um privilégio, não uma comodidade. Parece incoerente que a impressionante concentração de poder econômico de um único indivíduo seja a forma mais eficiente de garantir democracia e liberdade de expressão para todos. Vai valer também para quem contrariar as crenças mais valiosas do Elon Musk? A verdade é que só nos resta esperar.

Estamos diante de uma espada de dois gumes. Um é o da maior ousadia libertária, uma revolta individual contra os poderes estabelecidos ancorada unicamente no poder econômico. O outro é algo bastante familiar, o movimento de milhões de pessoas confiando cegamente em um único indivíduo como seu libertador por terem as mesmas objeções sem saberem quais são os projetos.

Pode ser que a interferência de Elon Musk no Twitter seja algo histórico e eficiente para garantir a liberdade de expressão. Também pode ser que estejamos à beira de um desastre em que um único indivíduo controla a expressão de milhões nos mais diversos Estados soberanos.

O fato é que o identitarismo não prosperou porque, apesar das pressões quase irresistíveis, nunca ofereceu soluções reais para as dores de pessoas reais. Acabou contaminando a imprensa e as instituições, que rezam nessa cartilha acreditando fazer a "coisa certa". A era digital trouxe novas formas de poder e nos mostra que controlar os demais pela força e pelo constrangimento é algo cada vez mais complicado.

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