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Pais dizem que currículo virou doutrinação e a briga já está na Justiça e na imprensa dos EUA.
Pais dizem que currículo virou doutrinação e a briga já está na Justiça e na imprensa dos EUA.| Foto: reprodução YouTube

Quase todas as brigas em torno da inclusão das "teorias críticas" no ensino acabam presas no binômio da idiotização. De um lado ficam aqueles capazes de definir indivíduos humanos por uma única identidade social, determinação fatal de seu destino. Do outro ficam aqueles fiéis defensores de que tudo é possível para quem ter força de vontade. É o pessoal que acreditou no Josef Climber, um personagem de humor do grupo Melhores do Mundo.

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Quando um dos lados ganha a briga, temos todos os resultados previsíveis de uma situação decidida no grito. Nos Estados Unidos há uma pancadaria enorme desde 2019 pela adoção da Teoria Crítica de Raça nas escolas públicas em nome da igualdade. Algumas cidades adotam e outras não, os pais brigam em ambos os casos. Todo mundo esqueceu outra coisa que era para ter na escola: aula. Fora os estudantes asiáticos, todos os demais regrediram em tudo.

Uso aqui o exemplo da Tuscarora High School em Virginia porque a briga chegou ao noticiário nacional dos Estados Unidos e as passeatas não param. Muitos pais acusam a escola de doutrinação, dizem que as teorias sobre racismo explicadas para crianças não são matérias escolares, são ideologia pura. Dizem que teorias anti-americanas são misturadas ao currículo escolar. Ocorre que a briga ali é hoje a mais quente dos Estados Unidos.

Engana-se quem pensa que são apenas pais contra professores, é briga mesmo. Tem pai contra pai, professor contra professor, pedido judicial de demissão de conselheiro escolar, prisão, acusação de racismo e muitas passeatas. Há um movimento nacional de pais chamado "Fight for Schools" e praticamente todas as vezes em que ele aparece no noticiário é por causa da Tuscarora High.

Quem é favorável às teorias críticas na escola diz ser preciso uma espécie de reinvenção da sociedade ocidental. Teríamos sido forjados pelo colonialismo, racismo, machismo, homofobia e violência, a ponto de que essas forças são estruturas enraizadas nas instituições. É preciso partir da educação para mudar a estrutura e fazer justiça com as pessoas. A questão é como isso seria feito na prática.

Se a ideia é reconhecer que segmentos da sociedade são oprimidos, a escola deveria propiciar as ferramentas para que eles aprendessem tanto quanto os outros que não são, certo? Não importa se você concorda, a teoria seria essa. Ocorre que entregaram o contrário. Em vez do filho do oprimido aprender mais, ele e o filho do opressor desaprendem. A exceção são os alunos asiáticos.

Enquanto está todo mundo brigando por causa de Teoria Racial Crítica na Tuscarora High, aparentemente falta quem brigue por Matemática, Literatura, História, Ciências e assemelhados. Quer dizer, mais ou menos todo mundo porque as famílias dos alunos asiáticos parecem ter alguma poção mágica que faz com que eles não sejam contaminados.

No comparativo, é óbvio que a maior parte da queda não tem a ver com o currículo escolar, mas com a perda tida por todas as crianças com a interrupção de aulas devido à pandemia. Estudantes asiáticos também tiveram queda, mas pararam num degrau mais alto que o da média dos demais antes da pandemia. Ao comparar a Tuscarora High com outras escolas públicas da mesma área também verificamos queda. Vamos aos gráficos.

Em matemática, a escola esteve sempre perto do nível do Estado e abaixo das escolas da mesma região, exceção feita aos estudantes negros, que eram superiores aos de outras escolas. Houve uma queda brusca para todos, mas maior para Tuscarora. Se a política é afirmativa, meninas, negros e espânicos deveriam ter melhorado mais que os outros. Ocorreu o oposto. Todo mundo piorou, mas para eles ficou ainda pior. Brancos também pioraram e foram ultrapassados em proficiência pelos asiáticos.

Antes da pandemia, Tuscarora estava abaixo da média das escolas da região em ciências, mas com algumas diferenças. Estudantes mulheres e negros estavam numa média mais alta que as escolas da região e inclusive maior que dos estudantes asiáticos da própria escola. Todos perderam aproveitamento com a pandemia, mas quem perdeu mais? Meninas e negros, que não são mais melhores que a média da região e ficaram abaixo dos asiáticos.

É evidente que não se pode creditar toda a piora no ensino, além do mais durante a loucura em que vivemos, à mudança no currículo. Mas o ponto aqui é outro. Este novo currículo deveria justamente promover o que é chamado lá de "equidade", ou seja, suprir o que falta àqueles que supostamente seriam os oprimidos. Ocorre que, naquela escola, negros e mulheres já eram melhores que a média dos colegas e da própria região e eles são os que mais perderam. Aliás, deixaram de liderar em alguns casos.

Diante dos resultados, não sei quais seriam os argumentos. De que forma negros e mulheres oprimidos estão sendo beneficiados por um sistema em que a performance escolar deles é diminuída? Pouco importa qual seja o discurso e a teoria para convencerem a introdução de teorias críticas no currículo. No local em que esse debate virou uma batalha campal todos perderam, principalmente negros e mulheres. Asiáticos conseguiram segurar um pouco a derrocada.

Sinceramente, fica difícil enxergar uma mudança curricular para favorecer alunos estruturalmente oprimidos que piora a performance escolar deles. O melhor para sair da opressão seria a melhora educacional. Num mundo ideal seria aquela capaz de dar a todos o mesmo ponto de partida em termos de preparo básico. Ocorre que, quando a ideia é destruir todas as estruturas, perde-se a noção até do ponto de partida. Os oprimidos pelo sistema são também oprimidos por quem diz ser contra essa dinâmica.

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