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Manifestações contra o presidente Jair Bolsonaro, no último dia 12, foram um festival de discursos de ódio.
| Foto: Joédson Alves/EFE

Seja você de direita, esquerda ou centro, vai concordar que a política tem se tornado cada vez mais um espaço de intolerância. Experimente expressar uma opinião. Aliás, não vou nem tão longe. Experimente fazer uma pergunta sobre um fato político qualquer. Haverá 250% de chances de alguém rotular você, enxergar um caminhão de más intenções na sua fala e atacar alegando estar se defendendo. E aqui tanto faz o tema ou seu posicionamento, estamos vivendo assim.

Não é só a esquerda que rotula o bolsonarismo como intolerante. Ao centro e até à direita há quem veja essa característica, eu inclusive. Não é um indicativo de tolerância o tratamento dado a personalidades como Santos Cruz, Sergio Moro e Paulo Chagas. Isso sem entrar na reação às mortes de Major Olimpio e Gustavo Bebbiano. No entanto, verdade seja dita, jamais vi Jair Bolsonaro prometer que agiria de outra forma em toda sua vida pública.

Caso diferente é o da esquerda que aponta a intolerância do presidente Jair Bolsonaro. Não é que esteja errado. Mas é um caso em que se percebe o cisco no olho do outro ignorando a trave no próprio olho. O sectarismo da esquerda é um dos fatores que ajudou a aglutinação em torno da candidatura de Jair Bolsonaro. Não falo isso de hoje. Em 2015 já dizia que o então deputado seria eleito presidente da República a continuar o sectarismo da esquerda.

Há muitas definições para sectarismo, extremismo e radicalismo. Tenho obrigação de dizer exatamente do que estou falando. São dois pontos muito específicos. O primeiro é defender, justificar ou tolerar agressões físicas contra adversários políticos. O segundo é defender, justificar ou tolerar que se condicione a dignidade humana de um indivíduo à adesão completa a pautas políticas de um grupo.

Nas duas últimas passeatas contra Bolsonaro vimos comportamentos que chamam a atenção. A esquerda mobiliza mais gente pelo impeachment do que movimentos como o MBL e Vem Pra Rua. Ainda assim, os bolsonaristas mobilizam mais gente nas ruas do que as duas passeatas. Uma pesquisa feita pela equipe do professor Pablo Ortellado na USP merece mais atenção do que recebeu. Será possível contar com a esquerda para uma terceira via? E com a centro esquerda? Vejamos.

Aqui não falo dos lulistas. Ser lulista é como uma religião. Ou é Lula ou não é ninguém. Trata-se de um fenômeno muito distinto de ideologia ou tendências políticas, falamos de adoração e de seguir um líder infalível. Geralmente este é o ponto em que algum esquerdista me acusa de "falsa equivalência" e eu rebato. Não farei hoje. Acabam de avisar aqui que estourei minha cota de desmistificar essa falácia até o século XXII. Talvez o Facebook tenha caído porque não aguentava mais me ouvir falar a mesma coisa.

Prosseguindo com algo mais interessante, a pesquisa do professor Pablo Ortellado na USP. Foi um corpo a corpo nas duas passeatas fazendo perguntas sobre quem os manifestantes rejeitam. A primeira é a organizada pelo MBL no dia 12 de setembro e a outra é a organizada pela esquerda em 2 de outubro. Não vou julgar as duas passeatas porque passei da idade disso e ainda não cheguei à idade de voltar a isso. Eles que lutem.

O gráfico pode parecer confuso, mas basta um pouco de paciência para que fique claro e traga informações importantes. Não houve duas passeatas de "Fora Bolsonaro". Houve uma contra bolsonaro e outra contra todo o centro e a direita. Nas duas passeatas a maioria era de esquerda, mas é interessante ver que a de 12 de outubro tem mais variedade ideológica e um número significativo de pessoas que não se sentem à vontade para receber um carimbo ideológico.

Na passeata do último final de semana, há uma divisão quase meio a meio na ideia de união entre esquerda, centro e direita contra o presidente. Entre os manifestantes, 86% identificam-se como de esquerda. Não tinha gente de direita e os de centro-direita eram apenas 1%. O que mais me chama a atenção, no entanto, é o desejo de "não se misturar com a gentalha". O Kiko de passeata é predominante no grupo de esquerda.

Na passeata de 12 de setembro havia mais gente disposta a unir-se à UNE do que gente disposta a unir-se ao PDT de Ciro Gomes na passeata do último final de semana. São parâmetros muito diferentes de formação de movimentos. A rejeição máxima na passeata convocada pelo MBL era a partidos, PT e PSL, com aproximadamente 1/3 dos que compareceram. Mais de 2/3 dos que foram às passeatas promovidas pela esquerda rejeitam o MBL e o PSL. Até aí entendo. Mas quase metade rejeita o PSDB e 1/4 rejeita até o PDT, que é de esquerda. Haja purismo.

Antes que perguntem a qual passeata eu fui, esclareço que aos finais de semana cozinho, faço faxina, vou à igreja e cuido da família. Sou muito mais útil nessas atividades do que na passeata. Pode não ser o seu caso, parabéns! Eu sou mais prosaica. Na minha última passeata eu levei um bip por exigência do meu falecido pai. Devido às minhas experiências políticas, no entanto, não surpreende que a última passeata tenha tido mais episódios de violência física. Quanto mais sectário o ambiente, mais são relativizadas a dignidade e a integridade.

Diante da normalização do sectarismo, a dignidade humana é relativizada. Aqui não falamos de ideologia, mas de civilização e consideração humana. Quando somos de uma ideologia, vemos com mais facilidade a intolerância nos nossos adversários. E isso não é defeito, é natural. Percebemos com mais facilidade aquilo que nos atinge de maneira maligna. Infelizmente, a perversidade é característica humana que não está carimbada na testa de ninguém nem restrita a uma ideologia.

No momento em que um ambiente tolera que seja relativizada a dignidade humana, ele será parasitado pelas personalidades perversas. São pessoas que sentem prazer ao exercer perversidades mas não querem arcar com as consequências. Diante do sectarismo, vêem uma brecha para arrumar justificativas morais para seus atos. A tempestade perfeita foi criada neste final de semana. Atos injustificáveis foram celebrados como vitórias políticas. Não cola.

Em Recife, uma pessoa avançou com o carro e atropelou manifestantes. Já aconteceu igual em Charlotesville, nos Estados Unidos. Não adianta nem tentar dizer que isso é manifestação política porque a maioria do povo não aceita desculpa esfarrapada. O mais impressionante, no entanto, é a esquerda atacando fisicamente a própria esquerda por não ser esquerda o suficiente. Qual o limite?

Tínhamos passeatas em que 1/4 das pessoas acha que Ciro Gomes é de direita demais para estar em passeata contra Jair Bolsonaro. Podem tentar explicar à vontade que eu não entendo. Vou entender menos ainda o que leva um bando a tentar agredir fisicamente o político de esquerda e sua família numa manifestação de esquerda.

O glorioso PCO, Partido da Causa Operária, está até agora xingando Ciro Gomes no Twitter. E eu achando que a passeata era contra Jair Bolsonaro. Ainda tem um outro alvo, Fernando Alfredo, do PSDB de São Paulo. Agora já superamos as novelas mexicanas. Fernando Alfredo é, definitivamente, um nome imbatível de personagem. O glorioso PCO, em vez de protestar contra Jair Bolsonaro na passeata pelo impeachment dele, protestava contra Fernando Alfredo. E não economizava nos palavrões.

Os bolsonaristas obviamente rechaçam a ideia de Terceira Via. Jair Bolsonaro é o presidente que pretendem reeleger, o projeto de poder em que acreditam. Engana-se quem imagina haver uma coalizão nacional contra o presidente, o que possibilitaria a tal Terceira Via. Não há e não contem com a esquerda para isso. Pelo que vimos nas manifestações, enxergam fascismo até em Marina Silva e Ciro Gomes.

Não há e não haverá Terceira Via sem um nome. Ainda não há um nome e já passou do tempo para que exista. Salvo um golpe do destino ou armadilha inesperada, o jogo está posto. Invejosos me acusam de taxar a esquerda brasileira de intolerante. Injustiça pura. A esquerda brasileira é tolerante com todos aqueles que concordam 100% com Lula.

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