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A pandemia criou o cenário ideal para que oligopólios de tecnologia e governos se juntassem para atacar a liberdade de expressão.| Foto: Pixabay

A maioria dos que vivem na terra da liberdade defendem que ela seja suprimida por grandes corporações. O dado alarmante foi revelado por uma pesquisa feita pelo Pew Research Center, atualização do mesmo levantamento em 2018. Há uma grande diferença, no entanto, entre o que pensam democratas e republicanos sobre o tema.

Os 3 anos que separam as duas pesquisas mostram uma tendência cada vez mais favorável ao controle de informações que são publicadas online. Entre a primeira e a segunda pesquisa, houve inúmeras polêmicas causadas pela manipulação de informações feitas pelas redes sociais. No entanto, aumentou o número de pessoas que confiariam nas Big Techs para controlar o conteúdo publicado.

A última assembleia do Conselho de Direitos Humanos da ONU declarou que o controle de conteúdos pelas plataformas é uma violação de direitos humanos. Também contestou o controle feito por ditaduras, como a cubana. Nada disso parece ter chegado à opinião pública, que acredita na necessidade de ainda mais interferência das plataformas nos conteúdos.

A pergunta dividia as pessoas em duas alternativas. A primeira é se o governo ou as Big Techs devem tomar providências para conter informações falsas online mesmo que restrinja a liberdade de informação. A segunda é se a liberdade de expressão deve ser protegida pelo governo e pelas Big Techs mesmo se alguma informação falsa acabar sendo publicada.

Em 2018, 58% dos norte-americanos acreditavam que o governo deveria proteger a liberdade de expressão a qualquer custo, mesmo que informações falsas acabassem sendo publicadas. Agora, a população está dividida. Quanto às Big Techs, cresceu o número de pessoas que acreditam que elas devem controlar ainda mais as informações e caiu o percentual que acredita ser responsabilidade também delas defender a liberdade de expressão.

As principais mudanças de opinião nos últimos três anos foram entre os jovens de 18 a 29 anos, no recorte demográfico. Republicanos e Democratas acentuaram nesse período a visão majoritária dos grupos, sendo que os defensores de controle de informação são os democratas. Quem diria.

Há 3 anos, era muito similar o número de republicanos e democratas favoráveis ao controle de informação pelo governo, entre 37% e 40%. Houve uma mudança radical. Agora, o número de republicanos que insistem nessa posição caiu 9 pontos percentuais. O número de democratas que defendem controle de informação pelo governo subiu 25 pontos percentuais, para a absoluta maioria. Imagino se a opinião seria a mesma num governo Trump.

A maioria absoluta dos democratas, 3 em cada 4, é favorável ao controle de informações pelas Big Techs, uma violação de direitos humanos. Quase metade dos republicanos já tiveram esta posição, que agora muda para a proporção de 1 a cada 3. Segundo o Pew Research Center, a pandemia e o caos de informações sobre vacinas e medidas sanitárias teriam mudado a forma de pensar de muita gente.

Há 3 anos, havia uma imensa diferença na forma de pensar dos mais novos e dos mais velhos. A juventude defendia a liberdade total e os mais velhos tendiam a ser mais favoráveis a medidas do governo e das Big Techs contra informações falsas. O grupo de 18 a 29 anos era o mais refratário à ideia de controle da liberdade de expressão, mas agora confiam mais nas Big Techs do que os maiores de 65 anos. Entre os mais velhos, a confiança nas redes sociais caiu e entre os mais jovens subiu de forma impressionante.

O grupo que desconfia de tecnologia e geralmente admite não entender, o dos mais velhos, é o único que deixou de confiar nas Big Techs nos últimos 3 anos. A diminuição do grupo que defende controle de informação pelas redes sociais foi vertiginosa, de 5 a 7 pontos percentuais para quem tem mais de 50 anos. É o único grupo demográfico em que isso aconteceu. Abaixo de 50 anos, entre os que julgam dominar a tecnologia, cresceu a atitude de confiar a própria liberdade ao julgamento das redes sociais.

"O maior inimigo do conhecimento não é a ignorância, é a ilusão do conhecimento", cravou Daniel Boorstin na década de 1960. Falava exatamente do poder de manipulação da mídia sobre os que julgam dominar determinados temas sem que tenham a menor ideia. Os jovens, principalmente os nativos digitais, acreditam saber como funcionam as redes. Nenhuma delas jamais divulgou como operam seus algoritmos. Jovens confiariam a própria liberdade às Big Techs porque imaginam conhecer o suficiente sobre elas. Armadilha perfeita.

O ambiente criado pelas Big Techs é o de uma sociedade formada por extremistas e justiceiros sociais, calando e moldando na truculência quem é moderado e respeita a dignidade humana. Para os jovens, é muito importante pertencer a um grupo, qualquer que seja ele. E cada vez mais jovens vêm moldando a própria identidade social pela conformidade ao grupo em que estão inseridos via redes sociais.

Poder não se dá, se toma. Ou se tomava. Escrevi isso ontem e repito porque realmente custo a entender. Nunca imaginei estar diante de uma geração de jovens, além do mais norte-americanos, defensores do controle das próprias liberdades pelo governo e ainda mais por grandes corporações. A sociedade moldada pelas brigas virtuais entre grupos rivais acredita que não sairá perdendo nesse embate. Só que não tem como os dois lados ganharem.

Na verdade, não tem como nenhum lado ganhar porque estão do mesmo, dos cidadãos. Quem ganha nisso são as Big Techs, assumindo para si pela manipulação da informação um poder maior até que o dos Estados. Já se fala em empresas-Estado. O grande negócio delas é a mediação da informação, mas sobretudo os jovens parecem acreditar que são livres nesses ambientes.

As redes sociais já controlam o discurso, mas de acordo com o parâmetro que decidem seus executivos e passam como comando para os algoritmos. Evidentemente, conter informações falsas não é uma preocupação. O estudo nem fala em desinformação, campanha propositalmente organizada para confundir as pessoas. Fala em "misinformation", informação errada apenas, que pode ser por má ou boa fé, uma campanha de desinformação ou um erro honesto.

Aparentemente, os jovens imaginam que postam o que querem e têm acesso às postagens de quem seguem. Isso não existe desde 2010, quando as plataformas mudaram seus algoritmos. O negócio é a intermediação entre o que é postado e quem visualiza. Você posta algo e a plataforma decide para quem e para quantos dos seus seguidores vai mostrar, segundo parâmetros que jamais foram divulgados.

Vejo gente muito jovem e até jornalistas comemorando efusivamente quando uma rede social derruba um perfil ou um post de adversário. Existe uma sensação de poder e, mais que isso, uma ideia de que a decisão da plataforma é no sentido da realização da justiça. Mas estamos falando de gente que derruba foto de mamilo e mantém perfis dos líderes do talibã mostrando crianças participando de apedrejamento. Você confiaria sua liberdade a esse pessoal?

Não adianta a ONU dizer que é violação de direitos humanos e situações bizarras comprovarem que derrubadas de perfis por plataforma não seguem nenhum critério de justiça. A ilusão de ter poder de decidir quem fala e quem não fala parece ser uma emoção que as redes sociais conseguem cultivar com sucesso. A sensação de juntar-se em grupo para massacrar alguém e conseguir leva muitos a acreditar que jamais serão vítimas da perversidade que criaram.

Temos um problema gigantesco de desinformação e fake news que não foi criado, mas é mantido e até turbinado pelas redes sociais. O grande erro está em mirar no controle de conteúdos, algo inócuo para o coração da manipulação, falsear o contexto e a relação entre fatos. Não se proíbe nem homicídio, ocorre que cometê-lo tem um preço. Há diversos jihadistas da destruição da honra alheia que clamam por inimputabilidade, o que é ridículo.

O que não podemos é punir todas as pessoas com proibições para se expressar livremente porque não damos conta de dar consequência às punições devidas a quem realmente delinquiu. Lembremos que nenhum deles o teria feito sem a ajuda ativa das redes sociais, que parecem gozar da maior confiança dos que sentem-se ameaçados por informações falsas. O preço da liberdade é a eterna vigilância.

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