O fenômeno nem-nem na política nacional: por que não temos novas lideranças?
| Foto: Nelson Almeida/AFP

A política brasileira é uma espécie de seriado Dallas, em que o mundo todo muda mas a discussão continua sendo sempre em torno do magnata de petróleo J.R. Ainda estamos nos anos 80, com os mesmos personagens, que vão trocando de lado à medida em que se suportam mais ou menos. Os nomes mais falados da política nacional são os mesmos que fizeram parte das cédulas da eleição de 1989. Metade do Brasil não era nem nascida quando essa gente se criou na política, mas eles não largam o osso. A culpa nem é deles. Deu tempo de botar no mundo 100 milhões de brasileiros, mas não de formar uma única liderança nacional viável eleitoralmente.

Desconfio que o fenômeno da geração nem-nem seja mais intenso na área política e sugiro o estudo por pessoas mais capacitadas que eu. Nem-nem é o triste caso da geração de jovens que nem trabalha nem estuda. Difícil achar outra explicação para o deserto de novas lideranças políticas nacionais no Brasil. Estão aí dominando a cena Bolsonaro, Lula, Collor, Roberto Jefferson, Fernando Henrique. Se bobear, alguém faz uma sessão espírita e ressuscita Enéas, Brizola e Mario Covas para ver se apimenta mais as coisas. Já até mandei colocar mais ombreira nas minhas roupas porque, definitivamente, continuamos nos anos 1980.

Somos excelentes em pouquíssimas coisas. Gambiarra, hipocrisia e varrer para baixo do tapete são modalidades que, fossem olímpicas, o Brasil seria hours concours. Decidimos virar a página da transição democrática numa união incrível dessas três habilidades. Deu certíssimo, como podemos verificar pela situação que nos encontramos quando a sociedade é chamada a se defender contra um vírus. O tal do COVID-19, pasmem, nem cérebro tem e se defende melhor que a gente. A Lei da Anistia, em sua segunda versão, poderia ter tido outro nome. "Deixa como está para ver como é que fica" teria sido bem mais adequado.

Não há hipótese de uma transição de regime dar certo varrendo para baixo do tapete os aproveitadores e perversos. É óbvio que a torpeza humana encontra nas situações extremas o ninho perfeito para se criar. Houve, de ambos os lados, quem se aproveitasse da situação política para realizar as próprias fantasias sádicas. Tanto os militares que governavam quando os que tentaram derrubar o governo sabem muito bem disso. Se não conseguiram conter seus tiranetes durante o embate, tiveram a oportunidade de fazer isso depois. A América Latina inteira fez, mas a gente não. Melhor evitar a fadiga, diria Jaiminho, carteiro do seriado Chaves.

As figuras políticas brasileiras que iniciaram suas carreiras públicas na ditadura militar fazem parte de uma espécie de "sociedade secreta". Parece que só eles podem ser selecionados para os próximos capítulos desse Vale a Pena Ver de Novo que se tornou a política nacional. Lula começou sua carreira política nesse período e continua até hoje. Bolsonaro idem. Por reviravoltas que soariam exageradas até em Carrossel ou Betty, a Feia, ambos são hoje as forças políticas mais poderosas, amadas e odiadas do Brasil. Onde estão as novas gerações? Chorando e xingando na internet.

Há uma coisa que a geração política nascida e criada no período da ditadura militar soube fazer com excelência, sufocar toda e qualquer nova liderança. Se você for de esquerda, vai ver isso na direita. Se você for de direita, vai ver isso na esquerda. O que ninguém vai ver é uma liderança viável eleitoralmente construída após a ditadura militar. Nós não demos um desfecho digno a essa virada de página porque, na nossa cultura, a prioridade é não criar caso. Estão aí circulando impunes até hoje os sádicos que se aproveitaram da ebulição política para realizar fantasias pessoais. Enquanto a política for liderada por quem tolerou isso, não temos salvação civilizatória.

Cada parte tolerou que os tiranetes sádicos do adversário fossem anistiados porque queria proteger os próprios e manter a narrativa. Pessoas são o que toleram. Os próprios integrantes do governo militar sabiam de antemão que o AI-5 geraria um problema muito maior que o ditador, os inúmeros tiranetes. Disseram isso na reunião que o estabeleceu e você pode ouvir a gravação nesse artigo que escrevi. Quem organizou o enfrentamento ao governo também sabia do lado macabro de várias lideranças. Irão encontrar inúmeras justificativas para o injustificável, permitir que fantasias perversas individuais sejam encaixadas em causas políticas. Mas é fato que isso colou e essas são nossas lideranças políticas até hoje.

Foram todos muito eficientes em cortar as asas de qualquer pássaro que tentou voar fora da rota pré-estabelecida pelas velhas raposas. Veja quantos ex-PT e ex-PSDB estão por aí hoje como lideranças locais, nas prefeituras das grandes cidades. Muita gente simplesmente desistiu da política porque não temos partidos e movimentos políticos, temos fã-clubes. A gente vê adulto debatendo o futuro da própria família com a mesma maturidade dos fãs de k-pop que se engalfinham na internet. Direito deles, aliás. Não se pode revogar o direito sagrado e universal à imbecilidade.

O que dá esperança ao brasileiro médio politizado? Quando o ídolo dele está bem. Eu já fui assim com o Locomia, nos anos 80. E tive muitas amigas que eram assim com os Menudos. Éramos só crianças, mas tenho orgulho de ser menos imbecil que muitos adultos escolarizados hoje. Os leques e as ombreiras monumentais do Locomia mexiam com as minhas emoções? Claro que sim. Só que eles não decidiam a minha vida. Paquita de político entrega muito mais que o coração aos seus ídolos. O pior é que entrega a vida dos outros também e ainda quer ter razão. Enquanto isso, onde estão os novos líderes, os da era pós-fã-clube? Não sei.

Muitas pessoas dizem que eu deveria ter repulsa por ombreiras e pochete. Devo confessar que não tenho nenhuma, sobretudo por ombreiras e pochetes brilhantes. Mas tenho uma implicância danada com sapatênis. No meu entendimento, o sapatênis é um fenômeno da moda que acabou sepultando qualquer chance de um novo nome político nacional no Brasil. Explico. Fazer política exige decisão, posicionamentos claros. O sapatênis é o instrumento perfeito para poupar o indivíduo de decidir até entre vestir esporte ou social. Foi mais danoso que o merthiolate que não arde. Se a pessoa não tem mais que se posicionar nem entre roupa social ou esporte, vai conseguir se posicionar em quê? Está aí o resultado.

Você pode estar dando duplo twist carpado de ódio com a comemoração dos lulistas hoje. Você pode ser do grupo que não aguenta mais a desfaçatez do presidente que se dá o luxo de continuar em campanha e sem trabalhar numa pandemia. Seja qual for seu posicionamento, temos de reconhecer que ambos conseguiram se viabilizar. Eles têm público. O centro não tem, não consegue decidir nem entre sapato e tênis, avalia encontrar quem vai ser o nome ideal. Ninguém nunca é bom o suficiente, sempre tem que apontar um defeito. Só que não existe sapatênis de gente, o morno se vomita.

Não haverá saída enquanto apontarmos sistematicamente a mosca nas novas lideranças mas insistirmos em não enxergar o camelo nos nossos ídolos do passado. Com todos os defeitos que possam ter os que trilharam seu caminho político, eles têm experiência. Aliás, eles têm algo que falta às novas lideranças e sobretudo ao parquinho de areia antialérgica da política: instinto de sobrevivência. Que sirvam o papel que agora é deles, o dos anciãos que orientam os novos donos do mundo. O ideal seria que largassem o osso do poder e da vaidade, mas duvido. Poder não se dá, se toma.

Estamos mudando uma coisa aqui e outra acolá no jogo quando nossa necessidade é de reformar completamente o tabuleiro. Não sei se a vida imita a arte ou a arte imita a vida. Sei que gostava muito do seriado Married With Children nos anos 1980. Decidiram fazer uma espécie de remake, só que em outro tabuleiro. Chama-se Modern Family, está na décima primeira temporada. Deixássemos para o nosso cenário político, teríamos mais uma temporada de Bonanza. Aliás, nem precisa ir muito longe. Malhação está no ar até hoje. É sintomático.

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