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O médico brasileiro que coordena, nos EUA, o maior teste clínico mundial de remédios contra o coronavírus
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O maior teste mundial de medicamentos experimentais para o combate ao coronavírus é feito pelo governo dos Estados Unidos e chefiado pelo médico brasileiro André Kalil, 54 anos, infectologista e especializado em medicina intensiva. Professor do departamento de medicina da Universidade de Nebraska, começou os testes em fevereiro buscando um tratamento possível para os pacientes do cruzeiro Diamond Princess.

O médico brasileiro André Kalil foi uma figura central no combate à epidemia de Ebola na África entre 2014 e 2016 e diz à imprensa norte-americana que é um grande desafio sob o ponto de vista emocional porque as pessoas ficam desesperadas e isso atrapalha a tentativa de encontrar um tratamento eficaz.

O gaúcho vive há mais de 20 anos nos Estados Unidos com a família e disse ao jornal local de sua cidade, Bagé, no Rio Grande do Sul, que já existe um protocolo para lidar com remédios experiementais no combate a epidemias. "Trabalhei na crise do ebola anterior, e muito do que aprendemos naquele período está sendo aplicado agora nesta epidemia de Covid-19" , explicou André Kalil ao Jornal O Minuano. Hoje, o médico está na capa do New York Times.

O estudo que ele conduz terá 400 pacientes e é uma adaptação para tempos de emergência dos estudos científicos para testes de drogas. Mais de 50 instituições hospitalares nos Estados Unidos e em outros países estão envolvidas e já foram treinados para a coleta dos resultados médicos, enfermeiros, cientistas e farmacêuticos. O brasileiro espera ter os resultados em algumas semanas.

O médico brasileiro diz que poucas vezes ficou tão frustrado quanto agora porque sabe o que acontece quando o desespero substitui a ciência nas decisões de tratamento. "Muitas drogas que nós acreditávamos que fossem fantásticas acabaram matando pessoas. É tão duro ter de continuar a explicar isso", reclama André Kalil.

É normal que o cidadão fique desesperado e queira tentar qualquer possibilidade de cura que lhe seja apresentada. O difícil é quando autoridades e pessoas que têm impacto na opinião pública cedem ao desespero em vez de manter o compromisso com o público, que demanda por informações seguras.

Profissionais de saúde que estão na linha de frente do cuidado com doentes sentem-se muito pressionados emocionalmente quando se alardeia a suposta eficácia de tratamentos experimentais. As intenções são as mais nobres: querem salvar vidas. Sem método, acabam ministrando remédios para resolver essa questão emocional e não vão conseguir achar uma cura, como aconteceu na epidemia de Ebola. Diversos remédios experimentais ministrados com as melhores intenções depois se revelaram ineficientes e nenhum foi aprovado para uso nos Estados Unidos.

A hidroxicloroquina também foi testada contra o Ebola. O médico André Kalil diz que a droga já foi testada também contra SARS e MERS (outros tipos de coronavírus), HIV, dengue, chikungunya e gripe influenza. "Mesmo nos casos em que os resultados foram promissores em laboratório, o que aconteceu no tubo de ensaio não se repetiu na vida real", explica.

As drogas para tratamento de malária, que é causada por um parasita, já foram testadas como tratamentos experimentais de várias doenças virais, mas nunca funcionaram. Ela tem efeitos colaterais importantes no fígado, medula óssea e ritmo cardíaco, podendo ser fatal para alguns pacientes. O grande problema da alternativa atual é a mistura de remédios que precisa ser feita.

Ao New York Times, o brasileiro André Kalil se diz preocupado com a combinação da hidroxicloroquina com o antibiótico azitromicina porque os dois têm efeitos importantes no coração. "Nunca se testou em humanos a segurança dessa combinação", explica o médico. Isso não quer dizer que o remédio não possa, eventualmente, ajudar o paciente, só quer dizer que não sabemos.

Desde a epidemia de ebola o professor da Universidade de Nebraska ficou conhecido por confrontar com eficiência cientistas que pretendem testar em humanos drogas que não têm nenhuma comprovação científica de que podem funcionar. Obviamente em uma pandemia os processos de testagem dos remédios são modificados, pois não há tempo para todas as etapas, mas sem método científico se termina sem solução.

O governo dos Estados Unidos resolveu usar no primeiro estudo massivo de drogas experimentais contra o coronavírus o Remdesvir, da farmacêutica Gilead, um antiviral de amplo espectro já usado contra Ebola, SARS e MERS. Depois da primeira rodada de estudos testando várias drogas, é o que teve o melhor desempenho, segundo os cientistas norte-americanos.

Assim como os fabricantes da hidroxicloroquina, a fabricante do Remdesvir também está fornecendo remédios - algumas vezes até de forma gratuita - para o que se chama de "uso compassivo". Trata-se da ministração de remédios não comprovados em pacientes como tentativa de salvar a vida de quem já foi desenganado. Esses pacientes são aqueles que não conseguiram qualificar no critério científico para participar do estudo clínico, estão fora dele, sabem que é uma loteria o uso do remédio e tomaram a decisão de usar mesmo assim.

O médico André Kalil é contra o "uso compassivo" porque já experimentou o outro lado da moeda: quando a boa intenção mata pacientes. Além disso, não contribui para descobrir a cura de nada. O "uso compassivo" não é científico, é humanitário e tem sido feito também no Brasil com diversas drogas durante a pandemia, desde que autorizado pela família do paciente. O protocolo é o mesmo já utilizado para tratamento com remédios experimentais em casos de diversas doenças terminais.

O Remdesvir já curou vírus da família corona (são mais de 5 mil variedades) em animais. "Nós não sabemos ainda se o remédio chega ao pulmão em concentração suficiente para eliminar o vírus nem sabemos quais podem ser os efeitos colaterais. Por isso precisamos de um experimento randomizado controlado", explica André Kalil.

O experimento primeiro divide os pacientes em dois grupos: metade vai receber o remédio e outra metade vai receber um placebo. Os médicos envolvidos não sabem quem recebeu qual pílula. Todo estudo de remédio começa assim e leva anos até avançar, então foi feita uma adaptação. O processo será feito por um período curtíssimo até a análise dos primeiros dados.

Se o Remdesvir estiver curando muito mais do que o placebo, daí se passará à fase seguinte: ele será o grupo de controle e outro remédio será testado na outra metade dos pacientes para ver qual é mais eficiente. Se algum remédio curar 100% dos pacientes que o receberam, o estudo é imediatamente interrompido e ele passa a ser o protocolo de combate à pandemia.

A grande questão é o que fazer se o remédio aumentar bastante o número de pessoas curadas mas não for 100% eficaz. Aí, a ciência se encontrará diante de outras perguntas a responder. Será que as pessoas melhoraram graças ao remédio ou não? Qual a dosagem ideal? Esse remédio é bom o suficiente ou há tratamento melhor? Quais são os efeitos colaterais?

Mais de 400 mil pessoas já se curaram de coronavírus no mundo, a maioria sem tomar nada específico nem ter atendimento hospitalar. Isso é um fato, mas não significa que a doença se cure sozinha. O que a ciência busca, correndo contra o relógio, é a melhor forma de curar a minoria, aqueles que precisam de atendimento médico e estão colapsando o sistema de saúde.

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