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A vitória do emocionante "No Ritmo do Coração" acabou ofuscada por agressão de Will Smith a Chris Rock por conta de uma piada.
| Foto: Reprodução/ Twitter

Eu poderia torturar você com mais uma entediante reflexão sobre os limites do humor e o que justifica uma agressão física. Teria a profundidade de um pires e nenhuma resposta que preste. Como isso você já tem de graça nas redes sociais, vou fazer valer sua assinatura e provocar uma reflexão diferente sobre o momento mais marcante da história do Oscar:

O primeiro ponto que me vem à mente é: seria tudo combinado? Eu sinceramente não sei e talvez seja mais um episódio a ir para a caixa do "jamais saberemos". Caso não tenha sido combinado, é um milagre nunca ter acontecido uma grande tragédia num Oscar com essa segurança de araque.

Will Smith, cá entre nós, é da turma dos bonzinhos, que tem família, faz esporte, acorda cedo. Avalie o tanto de gente desequilibrada de Hollywood que passou por essa premiação em 94 anos. Qualquer um poderia ter subido no palco e feito o que bem entendesse? Dá medo só de pensar nas possibilidades.

Suponhamos que não tenha sido armação. Chris Rock fez mesmo piada com a alopecia da mulher do amigo. Will Smith decidiu subir no palco no meio da apresentação do Oscar e enfiar um soco na cara do comediante. Qual dos dois, na sua opinião, tem direito ao Free Pass Zé de Abreu (que dá direito a fazer tudo o que quiser sem arcar com as consequências)? Votos nos comentários, por favor.

O primeiro ponto da discussão é sobre o tipo de humor apresentado ali, algo que nem temos no Brasil por diversas razões. Não sei se a principal é o pessoal ser muito dodói, se levar a sério demais ou ser inseguro. Enfim, é algo que fez muito sucesso nos Estados Unidos até recentemente, quando progressistas começaram a dizer que é bullying.

O "roast" é quando um indivíduo é "assado" com piadas, histórias e insultos sobre ele. Foi criado em 1949 no New York Friars Club, tradicional reduto de comédia fundado no comecinho do século XX. O primeiro alvo foi o cantor francês e galã Maurice Chevalier. No Oscar, é uma tradição escolher vários alvos. Veja como Martin Scorcese reage a Ricky Gervais:

Compare a reação de Tom Hanks, algo típico do movimento Woke ou Identitarismo, com a reação dos gigantes Scorcese, De Niro e Pesci. Na cultura dos Estados Unidos, ser o alvo do roast é uma forma de homenagem muito especial e as pessoas que compreendem o respeito apesar da piada são as que verdadeiramente têm poder e autoridade. É algo comum até em brindes de casamento, homenagens profissionais e no mundo da política.

Só por curiosidade, todos os anos a Casa Branca tem um jantar de correspondentes em que o presidente da República é o centro do roast de diversos comediantes. E aqui tenho dois vídeos deliciosos para quem gosta de política. Será preciso ativar as legendas. No primeiro, Barack Obama faz roast com Donald Trump. No outro, Donald Trump faz roast com Hillary Clinton. Os alvos se acabam de rir.

Eu, particularmente, gosto mais do roast do Trump com a Hillary porque foi bem no meio da campanha e um dia após ele ter chamado a concorrente de "nasty woman", mulher nojenta, em um debate. Observe que ninguém economiza nas piadas, todos eles realmente pegam pesado e tocam em todos os assuntos que desestabilizariam o adversário. Mas o adversário não abre a guarda nem reconhece o golpe.

Quando você vê a análise do pancadão Will x Rock na internet, surge uma lógica que é o avesso do roast. A análise é que determinadas situações são capazes de tirar um homem poderoso do sério e isso é justificável. Existe uma confusão entre violência e poder. Poder é exercer controle. Quem não controla os próprios impulsos num nível tão básico não sabe exercer poder. Essa diferença de ponto de vista talvez justifique por que o roast soa tão ofensivo por aqui.

A relação Cris Rock x Will Smith x Kevin Hart

Se você viu o discurso de Will Smith entre lágrimas falando da família e dizendo que foi tentado pelo diabo, pode ser que esteja lendo a divisão ideológica de forma equivocada aqui. Ele não é conservador, é Woke, Identitário até o último fio de cabelo.

A família que ele defende é um casamento aberto escancarado. Ele tem várias amantes que se tornam públicas e Jada Smith também. Aliás, um dos amantes ela disse abertamente na imprensa ter conhecido por meio dos filhos. Will Smith chegou a fazer um dueto com outro ex-amante dela no Grammy Latino, sabendo da história toda. Os filhos são a fina flor do Identitarismo não-binário. É uma família pós-moderna, digamos assim.

Já Chris Rock é parceiro de Kevin Hart, comediante que deveria ter sido apresentador do Oscar. Foi desconvidado pela Academia depois que descobriram um tuíte milenar visto por Hollywood como ofensivo e homofóbico. O contrato só seria assinado caso Hart apagasse a publicação e fizesse um pedido público de desculpas. Ele desistiu do sonho de apresentar o Oscar. Os dois estão com uma turnê juntos este ano.

Em 2016, Chris também apresentou o Oscar. A edição foi boicotada por Jada Smith porque não havia negros indicados em nenhuma das categorias. Ela e Will não foram à cerimônia e obviamente a mídia deu mais destaque a isso do que ao 4o apresentador negro da história do Oscar. Antes de Chris foram somente Sammy Davis Jr, Richard Pryor e Whoopy Goldberg em quase 90 anos de premiação.

Na ocasião, Chris Rock fez piada com o protesto, já que Jada Smith nem trabalha com cinema. Disse que ela boicotar o Oscar é como se ele, Chris, resolvesse boicotar a calcinha da Rihanna: simplesmente não foi convidado. Jada fez depois um comentário na imprensa mostrando que não gostou da piada. Houve diversas outras alfinetadas entre o comediante e o casal.

Mas não se iludam, ali é Hollywood. Não existe só lacrador contra conservador, existem dinheiro, fama e poder. Esses vêm antes de tudo. Todo mundo cede um tiquinho e toca o barco. Will Smith, Kevin Hart e Chris Rock são estrelas de nível mundial que ganham milhões e fazem diversos trabalhos em conjunto.

Os dois erraram: é tão difícil ver?

O Chris Rock tem o direito de fazer piada com a alopecia da mulher do amigo dele? Tem. Nesse caso específico tem um requinte de crueldade que escapou aos olhos de muita gente. O comerciante fez recentemente um documentário falando da importância que o cabelo tem para as mulheres negras. Ele, melhor que ninguém, sabia em que ferida enfiou o dedo.

A situação é que ele sabe exatamente a dor que iria causar e escolheu fazer isso por uma piada que, cá entre nós, é bem meia boca. Errou. Não sei o quanto a piada precisaria ser engraçada para que valesse a pena usar esse assunto ou como o assunto poderia ser utilizado de forma a não causar a torta de climão que causou. O ponto é que piada precisa, antes de tudo, ser engraçada. Essa nem foi.

Existe nas redes uma disputa entre o Ted Boy Marino de esquerda e de direita para dar o free pass Zé de Abreu para o Will Smith. De um lado o identitarismo lança a carta das feridas eternas da opressão do homem negro bilionário e famoso de Hollywood. De outro, o conservador de Taubaté lança a carta do defensor da família tradicional que tem casamento aberto e uma tonelada de amantes. Está lindo de ver.

"Quando mexe com a família, a gente não se segura", diz nas redes sociais o Enzo, 28 anos de idade, residente com a avó em Pirassununga, interior de São Paulo. Semana passada, foi dona Eunice, a avó de 68 anos, quem pegou de volta o skate que alguns rapazes tomaram dele.

"Só fiquei triste que o Chris não caiu. Agora vão querer projetar o homem negro violento sobre o Will, que só reagiu a anos de opressão da sociedade patriarcal e eurocêntrica", diz Valentina, 35 anos, residente na Vila Madalena. É a primeira a esconder o IPhone e atravessar a rua quando vê um negro à noite, tem o plano de saúde pago pelos pais.

São pessoas que vivem a vida como se fosse um filme. Elas se colocam no lugar do Will Smith, juntam toda a filosofia barata que aprenderam encadeando clichês de quinta categoria e constróem axiomas. Nenhum de nós é Will Smith, nenhum de nós tem nem ideia do que é estar numa cerimônia do Oscar e concorrer a melhor ator. Ali não foi uma briga de bêbado em rodeio.

Diante da reação da mulher, visivelmente magoada, Will Smith poderia escolher inúmeras ações. E escolheu a pior para ele. Se não foi a melhor armação do Oscar, está sacramentado que fígado jamais é bom conselheiro. Poderia ter dado risada, não ter feito nada, fechado a cara, levantado e ido embora, levantado e ido embora com a mulher, abraçado a mulher, beijado a careca da mulher. Escolheu ir até o palco e dar um soco na cara do amigo. Errou também.

No final das contas, estamos até nós aqui falando do soco e da treta, de todas as tretas subsequentes ao soco. Este era para ter sido o grande momento de toda a carreira de Will Smith, que a gente viu crescer na nossa frente. O Oscar de melhor ator é a consagração para um artista de Hollywood. Ninguém sabe direito nem por qual papel ele foi premiado, tudo foi resumido ao descontrole emocional.

A principal questão de muita gente foi: Chris Rock mereceu ou não o soco? É o tipo de raciocínio distante da virtude, no qual ficamos viciados na era de redes sociais. A retribuição que o outro recebe é mais importante do que meus princípios e até do que eu mereço ter. O que eu me disponho a sacrificar para dar a alguém a retribuição que merece pelo mal que fez? Fazer essa conta nunca foi tão necessário.

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